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Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Anis Murad
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n.01
Debaixo da nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo - Maria.
n.02 n.03
Não, saudade, não açoite Estes teus olhos brejeiros!
o carro de bois, dolente, - ah! se eu pudesse, meu Deus!
gemendo dentro da noite... por noites, dias inteiros,
chorando dentro da gente... ver meus olhos nos teus!
n.04 n.05
Saudade - rede vazia Manhã de sol, que alegria!
a balançar tristemente... De pés descalço, meu ser,
ninando a melancolia é um garoto que assovia,
que dorme dentro da gente. na alegria de viver.
n.06 n .07
Quando eu partir - não sei quando, Saudade - tristeza imensa,
não ponhas, minha querida, por meu amor que não vem.
teus olhos, lindos, chorando, Saudade - tristeza imensa,
sobre os meus olhos, sem vida. de alguém ausente... de alguém!
n.08 n.09
Disseste não, fiquei triste, Na noite triste, vazia,
mas disseste sim, depois. ouvi a voz de meu bem.
Maldito "sim", que persisti, Corri louco de alegria,
no eterno "não", de nós dois. abria a porta - ninguém!
n.10 n.11
Mandei a saudade, um dia, Vendo-a passar, ficou triste,
à procura de meu bem, quando alguém lhe perguntou:
desse meu bem - que é Maria, - E aquele amor... inda existe?
mas que é saudade - também... - Não! - respondeu... Já passou!...
n.12 n.13
Com a luz, pai, que me deste, Saudade - doce maldade,
do teu meigo olhar profundo, que a gente sente e não vê,
eu vejo - no mundo agreste, mas eu vejo esta saudade,
toda a beleza do mundo. esta saudade é você!...
n.14 n.15
Saudade - sonho, desejo, Olho o boi, de olhar parado,
lembrança, recordação... que me fica amargamente...
Um beijo - que já foi beijo, Parece que o desgraçado
um amor - que foi paixão... tem piedade da gente.
n.16 n.17
Bebida da mesma adega, No meu ermo - "Soledade",
serás igual a teu pai... alguém bateu, certo dia.
Tu, Anis novo - que chega, - "Quem é?" - "Sou eu, a Saudade!"
Eu, Anis velho - que vai... - "Meu Deus! A voz de Maria!"
n.18 n.19
Amo no amor a ternura, Guardo esta crença comigo,
a meiguice, a suavidade; com carinho e devoção:
o amor - que é todo doçura, todo mundo é meu amigo,
o amor - que é todo amizade. todo amigo: - meu irmão!
n.20 n.21
Se todo mundo quisesse, Vem o trem cortando a serra,
melhor o mundo seria, no seu grito lancinante.
se todo mundo soubesse, Talvez saudade da terra,
do nosso mundo, Maria. que foi ficando distante.
n.22 n.23
Mente, descaradamente, Não sei se foi por maldade,
o coração da mulher. não sei se foi por vingança:
Diz que não gosta da gente, mataram minha saudade...
só pra dizer que nos quer. roubaram minha esperança...
n.24 n.25
Tens o sentido profundo No teu grande simbolismo,
da fé - que é paz, é perdão! é um cruzeiro de luz,
Braços abertos ao mundo, de um abismo ao outro abismo,
portal do céu - redenção! dos homens até Jesus!...
n.26 n.27
Mãe que traz uma criança, Esperei-a toda a vida...
nas entranhas de seu ser, Nessa espera envelheci...
carrega a própria esperança, Ela - de verde, vestida
no filho que vai nascer. passou por mim e não vi...
n.28 n.29
Na triste quadra da vida, A minha alma não se cansa,
rima-se a felicidade, - embora desiludida,
com esta rima querida, de acalentar a esperança,
que se rima na amizade. que é o acalanto da vida.
n.30 n.31
Olhos risonhos, infindos, Esperança!... quem diria,
que choram de quando em quando: quem diria - que a esperança
sorrindo - lindos, tão lindos; fosse os olhos de Maria,
feios, tão feios - chorando... vagando em minha lembrança.
n.32 n.33
Não estaria amarrado, Achei uma forma nova
pela igreja e pretoria, de tornar-me trovador:
se não tivesse encontrado, nossos lábios - uma trova
este encanto de Maria! na doce rima do amor.
n.34 n.35
Mesmo velhinho e cansado, Deixa a vida do menino
não sei que estranha magia, viver a vida, meu bem,
fico um saci, assanhado, ninguém muda o destino,
quando te vejo, Maria. nem a vida de ninguém!...
n.36 n.37
Que medida desmedida Nós nos queremos, querida,
medir as misses, assim. com tanta simplicidade,
Com medida ou sem medida que o maior bem desta vida,
são na medida prá mim. não vale a nossa amizade!
n.38 n.39
De sete meses gerado, Cada um de nós traz consigo,
vim ao mundo temporão. sua própria salvação:
Já fui tesouro guardado, em cada ser - um amigo,
em caixa de papelão. em cada amigo - um irmão
n.40 n.41
Só senti a luz da vida, O Amor - que tudo redime,
com mais calor e mais brilho, não tem a sublimidade,
quando tu deste, querida, do querer bem - que se exprime,
a luz da vida a meu filho. no bem querer da Amizade!
n.42 n.43
Por um beijo concedido, Não sei de pior castigo
ficou desfeito o noivado; nem de maior maldição:
pois o futuro marido, não ter alguém um amigo
sentiu-se logo enganado. nem o olhar meigo de um cão.
n.44 n.45
Surpreendeu-me o garoto, Do meu quarto de solteiro
em colóquio com meu bem. - já cansei de te pedir,
E diz, num sorriso maroto: vem buscar teu travesseiro,
- Eu quero beijar, também! que não me deixa dormir!...
n.46 n.47
Não sei porque a lembrança, Do meu berço pequenino,
de uma florzinha que cai, fizeram tosca jangada,
faz-me pensar na criança, que voga ao léu do destino,
abandonada, sem pai, para o destino do nada.
n.48 n.49
Terá, mulher, se quiseres, Maria - meu sol, meu guia!
o mundo todo a teus pés. Maria - Mãe do Senhor!
Porque o mundo todo é das mulheres, Minha santa mãe: Maria!
que forem como tu és! Maria - meu santo amor!
n.50 n.51
A vida é mesmo engraçada: Simples jardim sobre a cova,
correr, correr, para enfim, trevos repousando em calma
tombar, ao fim, para o Nada - Em cada trevo uma trova,
no eterno nada - sem fim... em cada trova a minha alma...
n.52 n.53
Há uma lâmpada encantada, É, francamente, bobagem,
acesa no coração, possuir televisão
que tem a chama sagrada, se eu posso ver tua imagem,
que se chama inspiração. no vídeo do coração.
n.54 n.55
Aqui jaz, na quadra imerso, As trovas, quando eu as faço,
um vate, vivo e mordaz. faço-as de mim para mim.
Fez sepulturas, do verso, Vou dizê-las... que embaraço...
e sepultou-se; aqui jaz. Estremeço... fico assim..
n.56 n.57
Envelhecer! - que tristeza, Depois de sua partida,
sentir a vida fugir mais a possuo, porque:
e ter a triste certeza, toda a saudade da vida,
que a morte certa há de vir. ficou em mim - de você!
n.58 n.59
Não sejas má nem injusta, Eu amo a vida, querida,
nem faças mal a ninguém. com todo o mal que ela tem!
- O querer bem nada custa, Só pelo bem - que há na vida
é tão bom fazer o bem. de se poder querer bem.
n.60 n.61
Morre o dia, tristemente, Esses teus olhos tão lindos,
na tarde crepuscular... misteriosos, profundos,
Dá uma saudade, na gente, são dois abismos infindos
ao ver a noite chegar. dois precipícios - dois mundos!...
n.62 n.63
Olhas pra mim, na verdade, Eu só, tu só, nós dois sozinhos...
mas não me vês - este olhar O amor chegou certa vez,
perdido está, na saudade, misturou nossos trapinhos,
que ficou noutro lugar... somos um mundo: - nós três!
n.64 n.65
Tudo passa - na verdade, A vida é noite fechada,
passa tudo - sem parar. num coração sem amor.
Só não passa esta saudade, Amor é Luz - madrugada!
que ficou no teu lugar. Raio de Sol - Esplendor!
n.66 n.67
Essa Maria - que existe, Saudade - dor repartida
chorando nos versos meus, entre o que fica e o que vai.
foi a saudade mais triste, Uma esperança perdida
que alguém deixou num adeus! num sonho azul que se esvai.
n.68 n.69
Menina - pobre, perdida, Também nas flores existe
que a vida jogou ao chão, uma saudade de amor...
descendo a rampa da vida Orvalho - saudade triste,
rolando de mão em mão... lacrimejando na flor...
n.70 n.71
Nas trilhas de Deus, teremos, Só a saudade é que explica
o caminho justo e certo, por que foi que ele chorou:
para esse Deus, que não vemos, esse vazio - que fica,
mas que nos vê tão de perto. no vazio - que ficou...
n.72 n.73
Cansado estou da esperança, A minha alma - agradecida,
cansado do meu ser, elevo a Deus com fervor,
da própria vida - que cansa, pelo amor - maior da vida!
vivendo, assim, sem viver... Que nasceu do nosso amor.
n.74 n.75
Perdoa, mãe a heresia! Tal qual ingênua criança
Mas não posso mais rezar: nas noites de São João,
fui dizer - Ave Maria! vou soltando as esperanças,
e comecei a chorar... como quem solta balão!...
n.76 n.77
As trovas feitas a esmo, Santo Antonio, padroeiro,
são difíceis de fazer: que já casou tanta gente,
conversa contigo mesmo, viveu só, morreu solteiro...
que a trova sai sem querer. Ó santinho inteligente!...
n.78 n.79
Um vagido de criança Vejo-te, mãe, todo dia
sacode todo meu ser: que a tarde cai pra morrer
era o pranto da esperança e que a voz da Ave Maria
que gritava pra viver. vem minhalma enternecer...
n.80 n.81
Guarda, meu bem, na lembrança, Sempre que faço uma prece,
esta lembrança do bem: não sei que estranha visão,
quem não tiver esperança, a minha mãe aparece,
seja a esperança de alguém!... sorrindo em minha oração.
n.82 n.83
O trovador - simplesmente, Pobre amor - triste saudade!...
é uma pessoa feliz; Saudade - triste lembrança!..
se às vezes diz o que sente, De um grande amor - na verdade,
nem sempre sente o que diz. que não passou de esperança!...
n.84 n.85
Ao verme o verme me diz, Dá tantas voltas a vida,
depois de me haver provado; e a gente, atrás, a correr...
bonito!... bebi anis... Que gente doida, varrida!
Vou ficar embriagado... Correr tanto, pra morrer!
n.86 n.87
O destino predestina, Tens no coração fecundo,
destinos da nossa vida... um patrimônio seguro;
A minha invertida sina, essa riqueza do mundo:
deu-me uma sina invertida... ser bom, ser justo, ser puro.
n.88 n.89
Que será dessas crianças, Esses balões e as fogueiras,
sem luz, sem teto, sem pão... trazem à minha lembrança,
Uns farrapos de esperanças, as esperanças fagueiras,
de uma triste geração! dos meus tempos de criança!...
n.90 n.91
Tenho pena das crianças, Eu seria bem feliz,
andrajosas, semi-nuas, das mágoas que já sofri,
malbaratando esperanças, se pudesse, sendo anis,
pelas sarjetas das ruas!... ser somente para ti...
n.92 n.93
Meu coração desconhece, "É bebida apetecida,
a raiva, o ódio, o rancor, - de gostosura sem fim...
Quanto mais vive e padece, Se bebo desta bebida,
mais vida tem para o amor. eu fico cheio de mim...
n.94 n.95
Eu nada tenho de meu, Alô!... Quem fala?... Esperança?....
por isso vivo a cantar - Um momento!... Vou chamar!...
a graça que Deus me deu: Esperei... - pobre criança
mulher, um filho - meu lar! que envelheceu a esperar!...
n.96 n.97
Hei de esperar, querida, Pode ir! Tem liberdade,
nessa esperança, sem fim, de levar o que quiser!
de esperar-te toda a vida, Só não me leve a saudade,
se a vida esperar por mim! que é seu retrato, mulher!
n.98 n.99
Que pobre vida - vivida Maria, só por maldade,
de muitos amigos meus; deixou-me a casa vazia...
desencantadas da vida Dentro da casa: saudade!
sem crença, sem fé, sem Deus. E na saudade: Maria!
n.100
Não desespere, querida,
que a vida foi sempre assim:
uma esperança perdida
que só se encontra no fim...
in
Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959
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