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Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
100 TROVAS de
Waldemar Pequeno
(Waldemar Dinis Alves Pequeno)
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n.º 1 n.º 2
Nunca fales com desprezo Muitos mundos visitei,
de um vaso, por ser grosseiro. levado por meu destino.
Só Deus sabe se, ao fazê-lo, - Mas nunca mais reencontrei
não tremeu a mão do oleiro. o meu mundo de menino.
n.º 3 n.º 4
Não sei, das flores da vida, Não há fonte neste mundo,
as que sejam do teu gosto. rolando por, entre escolhos,
As do meu - ninguém duvida – que tenha o choro tão fundo
são as rosas do teu rosto. como a fonte dos meus olhos.
n.º 5 n.º 6
Uma rosa, em minha cova, Em meu tempo de estudante,
talvez brote deste amor, se algum mal me acontecia,
como se fora uma trova não sei como, tão distante,
sob o feitio de flor. minha mãe logo sabia.
n.º 7 n.º 8
Se à noite as roseiras sonham, O jaó que ao longe pia,
palpitantes e amorosas, pelas quebradas da serra,
seus galhos, quando amanhece, reza, à tarde, a Ave-Maria
estão cobertos de rosas. mais dolorosa da terra.
n.º 9 n.º 10
Se o sonho se foi, Maria, Deus faz pouco da riqueza.
não julgue o mundo medonho: Aqui, ali e acolá,
- depois de um dia, outro dia, quem quiser ter a certeza
depois de um sonho, outro sonho. basta olhar a quem a dá.
n.º 1 1 n.º 12
Goza a fortuna inconstante Quando passo no caminho
antes que chegue a hora triste. em meu poldro russo-pombo,
A alegria deste instante muita gente diz baixinho:
amanhã já não existe. - “Tomara que leve um tombo!”
n.º 13 n.º 14
Creio haver um ser divino, Rio acima, as águas fendo,
mas duvido que haja ateus. remando minha canoa.
- O homem, que é tão pequenino, Vou cansado, vou sofrendo,
não pode viver sem Deus. Mas Deus me ajuda na proa.
n.º 15 n.º 16
Mulher é como perfume, Negros eram seus cabelos,
que se evola exposto ao ar: os olhos - claros e francos.
- quando expõe os seus encantos, Mas, com seus cabelos negros,
eles deixam de encantar. pôs os meus cabelos brancos.
n.º 17 n.º 18
Sela o rico, seja o pobre, Nosso Senhor deu-me a viola,
escolha os duros caminhos, deu-me o que há de mais profundo:
pois a coroa mais nobre - o canto que me consola
é uma coroa de espinhos. das tristezas deste mundo.
n.º 19 n.º 20
Minha mãe, quando nasci, Bem perto havia uma fonte
- doce mãe! – tanto rezou, na terra em que ao mundo vim.
que é por pena que hoje finjo A água descia do monte
ser feliz quando não sou. chorando, meu Deus, por mim.
n.º 2 1 n.º 22
Pelas terras em que andei, Do melhor pinho foi feito
entre o belo, o puro e o vil, o instrumento que dedilho,
nada no mundo encontrei apertado junto ao peito
como o sorriso infantil. como se fosse meu filho.
n.º 23 n.º 24
Hoje vi quando uma abelha Ó minha velha tristeza,
pousava, tonta de amor, minha doce companhia!
em tua boca vermelha, Se algum dia me faltasses,
pensando ser uma flor. que tristeza eu sentiria.
n.º 25 n.º 26
Voam pelo ar as palavras, Quem me dera, solitário,
leva-as para longe o vento. habitar naquele morro,
- Mas, se as palavras se perdem, -apenas com meu canário,
não se perde o pensamento. meu cavalo e meu cachorro.
n.º 27 n.º 28
Só vi que havia alcançado O lírio o que tem é a fama
tudo o que no mundo eu quis, da parábola divina.
quando já tinha passado Vale mais para quem ama
o tempo de ser feliz. uma rosa pequenina.
n.º 29 n.º 30
Não castigues teu filhinho! Lá se vão os bois serenos,
Olha, ele erra sem saber: tão cheios de mansidão,
- quer aprender o caminho obedientes ao apoio,
que terá de percorrer. sem saber para onde vão.
n.º 3 1 n.º 32
Rico, a todos menosprezas, Tenho por meu padroeiro
mas com franqueza te digo: um santo que é de valia.
- por mais que valha a riqueza, Foi um simples carpinteiro,
vale mais um bom amigo. mas é o esposo de Maria,
n.º 33 n.º 34
Uma rosa em seu cabelo Quando alguém canta na rua,
é uma coisa que me encanta, tão silenciosa e deserta,
como se fosse uma estrela no céu, solitária, a lua
no cabelo de uma santa. parece uma rosa aberta.
n.º 35 n.º 36
Não te queixes do destino Mais que nunca ao mar adoro
por escassez de prata e ouro. nas noites brancas de luar,
O homem, por mais pequenino, quando o pranto que não choro
tendo Deus, tem um tesouro. parece por mim chorar.
n.º 37 n.º 38
Não sei se eu ria ou chorava, Dizem que hoje é o nosso dia,
se foi sonho ou pesadelo. o dia dos pais... Convenho.
Só sei é que me enforcava - Minha maior alegria
nas tranças do seu cabelo. é ter os filhos que tenho.
n.º 39 n.º 40
A árvore morre de pena; Deus pensava em coisas belas
dando ao mata-pau guarida. quando fez a minha amada
- Quanta gente também morre -deu-lhe o perfume das flores,
pelo bem que faz na vida? as cores da madrugada.
n.º 4 1 n.º 42
Nossa casa não é rica, Talvez à casa tranqüila,
pobre, pobre, também não. onde aos poucos anoitece,
Mas quem entra, se não fica, já convertido em argila,
deixa nela o coração. meu corpo um dia regresse.
n.º 43 n.º 44
A vida só pela infância, Seus olhos, o povo diz,
só por ela é bem vivida, quando nos olham de frente,
pois é o tempo em que se vive parecem dois colibris
mais ignorante da vida. bicando os olhos da gente.
n.º 45 n.º 46
De tudo o que fui e fiz, A esperança nos afaga
afinal, que resultou? como um sonho em nosso afã.
Que importa se fui feliz, Mas é um sonho que se apaga
agora, que já não sou? como a bruma da manhã.
n.º 47 n.º 48
Duas coisas neste mundo Quem tudo nos deu no mundo:
bastam para meu agrado: - água, fogo, leite, pães -
- pito de fumo de rolo, o que deu de mais profundo
mulher cosendo ao meu lado. foi o amor de nossas mães.
n.º 49 n.º 50
Ouvindo, ás vezes, na mata, Neste mundo de viageiros,
o seu gemido profundo, que vão por montes e valos
penso que a fonte retrata uns vão como cavaleiros,
as mágoas todas do mundo. outros vão como cavalos.
n.º 51 n.º 52
Talvez, teu fado ajustando, Vais feliz, fico a chorar-te.
Deus se omitisse um instante. Afinal, isso se explica
Por isso vives lutando se a saudade de quem vai
por algo sempre distante. não dói como a de quem fica.
n.º 53 n.º 54
Os que dão esmola são, Minha terra, como és bela
quase todos, fariseus, com teu modo sempre novo!
pensando, por um tostão, - No alto do morro a capela
ganhar o reino de Deus. pedindo a Deus pelo povo.
n.º 55 n.º 56
Há uma luz que me alumia, Sepulto-te, meu amigo,
uma luz que o céu não tem, meu pobre, meu velho cão,
nem de noite, nem de dia: como se neste jazigo
- a dos olhos do meu bem. sepultasse o coração.
n.º 57 n.º 58
O que é bom para o Mateus, Para Deus, quando amanhece,
é mau para Napoleão. e ouve os pássaros cantar,
Como é difícil ser Deus soa o canto como a prece
com tamanha confusão. que a gente reza no altar.
n.º 59 n.º 60
Se, por mentira contada, Que eu viva sem abastança,
a boca perdesse um dente, sem amigo ou alegria,
ó meu Deus, que desdentada mas seja minha esperança
seria a boca da gente! o meu pão de cada dia.
n.º 61 n.º 62
Não gracejes das mulheres, Lá, bem longe, na distância,
se não podes falar bem. em cada esquina, um lampião
- Não há mulher que não seja lembrava, na minha infância,
uma santa para alguém. uma ilha na escuridão.
n.º 63 n.º 64
A memória é um telefone Seja meu túmulo aberto
entre o passado e o presente. de minha casinha em frente,
Como é grato ouvir por ele que eu quero ficar de perto
as vozes de antigamente! olhando por minha gente.
n.º 65 n.º 66
Messalina que ela seja, De todos os bens do mundo,
não merece injúria tanta. jamais se alcança o melhor.
Não há mulher que não tenha - Mas, dos pesares da vida,
alguma coisa de santa. o nosso é sempre o pior.
n.º 67 n.º 68
Por que, pensando na morte, Ela é a melhor mãe que existe,
tesouros acumular? com seu grande amor profundo.
Feliz será minha sorte Pena é que eu também não seja
se só saudades deixar. o melhor filho do mundo.
n.º 69 n.º 70
Estranho comboio é a vida, No mar cinzento da sorte,
que sempre passa a correr: cruzado de navegantes,
- ninguém o toma por gosto, não há nau que me transporte
ninguém desce por prazer. aos meus castelos distantes.
n.º 7 1 n.º 72
Que desencontro sem jeito A fruta caiu à toa,
o mundo às vezes nos traz: porque ninguém a colheu.
- eu ... perder a paz do peito Era uma fruta tão boa,
ao ver Maria da Paz! e foi em vão que nasceu.
n.º 7 3 n.º 74
Brilham em suas orelhas Não humilhe a quem é pobre,
duas jóias preciosas nem ao rico inveje tanto.
lembrando duas abelhas Deus nos irmana e nos cobre,
pousadas em duas rosas. a todos nós, com seu manto.
n.º 75 n.º 76
No azul dos seus olhos vejo Na alma tenho uma paineira
algo que me faz pensar que solta paina todo o ano.
nos infinitos do céu, Cada floco que ela solta
nas profundezas do mar. representa um desengano.
n.º 7 7 n.º 78
Quando ouço um trem apitar, Misteriosa fruta é a vida,
parece que a alma também com outras não se parece:
se perde, triste, pelo ar, - doce, quando ainda verde,
no longo apito do trem. trava, quando amadurece.
n.º 79 n.º 80
Se no mundo o mal é tanto, Um mal com outro se casa,
que torna a existência atroz, qualquer deles prejudica:
as estrelas são o pranto - homem que não sai de casa,
que a Virgem chora por nós. mulher que em casa não fica.
n.º 81 n.º 82
Atravessei-te, Ano-Velho, Na arquitetura do espaço,
as águas em calmaria. as nuvens, singularmente,
Grato pelo que me deste: dão forma, traço por traço,
- sossego, sonho e poesia. a muito sonho da gente.
n.º 83 n.º 84
Há tanta coisa sem jeito, Uma casinha na mata,
sem que este mundo desande! uma espingarda e meu cão,
- Como cabe no meu peito meu amor à espera e o fogo
uma saudade tão grande? sempre aceso no fogão.
n.º 85 n.º 86
Depois de minha partida, Segundo ouvi de um emir,
virá o caos num momento, homem de bom parecer,
pois tudo acaba na vida o mal nem sempre é cair,
quando acaba o pensamento. mas, cair e não se erguer.
n.º 87 n.º 88
Voa o espírito até lá Possam seus filhos também,
pelos confins da amplidão. agora que a alma se vai,
Mas, por mais longe que vá, pensar de mim tanto bem
vai mais longe o coração. quanto penso do meu pai.
n.º 89 n.º 90
Choro tão triste no mundo, Um cacho de uvas, Maria,
da tanta mágoa na terra, bom é de ver-se na vinha:
só mesmo o choro profundo - a cor, o olhar aprecia,
de um carro-de-bois na serra. - o gosto, a boca adivinha.
n.º 91 n.º 92
Ninguém desfaça de um crente A maior graça divina,
a fé que do céu lhe vem. obtida por um cristão,
Seria como se a gente é essa filha pequenina
cegasse os olhos de alguém. na palma da minha mão.
n.º 93 n.º 94
Pelo Cruzeiro do Sul, O que mais a Deus eu peço,
em celeste resplendor, quando ouço tocar o sino,
à noite vela por nós é que abençoe a meus filhos,
o olhar de Nosso Senhor. e lhes dê um bom destino.
n.º 95 n.º 96
Arde o fogo na lareira Quanto maior a distancia,
contra a neve da estação menos se ouve a voz do sino.
- Mas, por mais que o fogo aqueça, Mas, quanto mais longe a infância,
não aquece o coração. mais lembro que fui menino.
n.º 97 n.º 98
Bandeira de minha terra, Veja o céu como tem vida,
não te veja alguém jamais chorando na noite langue:
içada em tendas de guerra, - cada estréia é uma ferida
mas só em templos de paz. por onde escorre o seu sangue.
n.º 99 n.º 100
É vã toda a nossa lida, Já posso morrer sem queixa,
pois tudo, afinal, se encerra eu, que vivi tão sem brilho,
e se resume, na vida, pois nem toda gente deixa
em sete palmos de terra. um livro, uma árvore e um filho.
in
Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959
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