
![]()
*****************************************
Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge

Waldemar Pequeno
(Waldemar Dinis Alves Pequeno)
Prefácio de J.G. de Araujo Jorge
Mosquete e Bandolim . . .
Desde o primeiro instante em que lançamos esta “Coleção Trovadores Brasileiros”, eu disse ao Luiz Otávio que acreditava em seu pleno sucesso. O povo brasileiro é rico de sensibilidade, e a trova, a mais expressiva manifestação de sua emoção estética - hoje renasce com uma força extraordinária através de dezenas de concursos e torneios de poesia. Sendo, como é, o gênero de poesia mais ao seu alcance, o primeiro degrau literário para a sua ascensão, ela conta com uma receptividade fora do comum.
O resultado ai está: esgotaram-se em poucos meses os 3 primeiros volumes,
( de Belmiro Braga, Lilinha Fernandes e Batista Nunes), e, ao mesmo tempo que lançamos a 2ª edição dos mesmos, acrescentamos mais 3 volumes à série: o n.º4 , contendo uma seleção de trovas de amor entre mais de duas mil trovas concorrentes aos “I Jogos Florais de Nova Friburgo”; o n.º5, uma coletânea de 100 trovas do “Rei da Trova”, Adelmar Tavares; e, finalmente, o n.º 6, este em que o leitor travará conhecimento com um poeta e prosador, ainda inédito como trovador: Waldemar Pequeno.
Prossegue assim a “Coleção Trovadores Brasileiros” a trilha que se traçou, apresentando não apenas nomes já consagrados, mas inclusive revelando autênticos valores cujos trabalhos não tinham merecido ainda a consagração pública do livro.
* * *
Quando comecei a ler este pequeno volume, ao fim das primeiras 5 trovas já tinha concluído que me encontrava diante de um trovador com excepcionais qualidades.
Escrevi numa nota para os volumes II e III desta coleção:
“O trovador é o poeta que vaza sua inspiração em trovas. Possui qualidades específicas. Pode não ser capaz de realizar um poema grande mas deve ser capaz de fazer um grande poema ao compor apenas uma pequena quadrinha.
Nasceu trovador além de ter nascido poeta. São duas coisas distintas numa só. Todo trovador é poeta mas nem todo poeta é trovador.”
Waldemar Pequeno é poeta e é trovador. A trova que abre este volume é de uma sutileza profunda de pensamento:
Nunca fales core. desprezo
de um vaso por ser grosseiro.
Só Deus sabe se ao fazê-lo
não tremeu a mão do oleiro.
E que dizer da beleza singela desta confissão?
Muitos mundos visitei
levado por meu destino.
- Mas nunca mais encontrei
o meu mundo de menino.
Em compensação, este mundo que o poeta diz que não encontrou, vai-se fragmentando imperceptivelmente nas suas cantigas.
Ao lado da trova levemente filosófica, a trova lírica desponta, espontânea e fresca:
Não sei, das flores da vida,
as que sejam do teu gosto.
As do meu, - ninguém duvida -
são as rosas do teu rosto.
Waldemar Pequeno possui todas as qualidades do poeta-trovador. Simplicidade, aquele sutil jogo de palavras que enriquece tanto a trova em sua estrutura íntima, a imaginação, o lirismo inato. E ainda, essa vivência, indispensável à obra de arte, que lhe dá seiva e cor, perfume e vida.
A sua .trova n.º 4 é arrancada de seu âmago:
Não há fonte neste mundo,
rolando por .entre escolhos
que tenha o choro tão fundo
como a fonte dos meus olhos.
E finalmente, esta flor de trova, para usar a sua própria sugestão.
A trova n.º 5:
Uma rosa, em minha cova,
talvez brote deste amor,
como se fora uma trova
sob o feitio de flor.
Nada mais, nada menos. Precisão absoluta na imagem. Floração lírica de
singela e sugestiva beleza!
Aí estão as 5 primeiras trovas. Daqui para frente, leitor amigo, você seguirá sozinho o ameno e sugestivo roteiro da poesia de Waldemar Pequeno. E estou certo de que se emocionará muitas vezes. Parará algumas outras para se extasiar diante da paisagem descortinada; se deixará surpreso, encantado com o canot dos versos; se extasiará com as florezinhas das trovas salpicando de cravos o chão do caminho para a morada do poeta...
* * *
Waldemar Pequeno (Waldemar Dinis Alves Pequeno) é fluminense, de Piraí. . Nasceu a 23 de Outubro de 1892,
filho do cearense Pio Alves Pequeno e da mineira Maria Isabel Alves Pequeno.
Sua família radicou-se em Minas. Primeiro em Muriaé, depois em Barbacena, onde Waldemar fez o curso, e onde surgiu a vocação literária. Formou-se depois pela Faculdade de Direito, em Belo Horizonte, colaborando nessa época em jornais e revistas de várias cidades do Estado.
Iniciou sua vida como Delegado de Polícia em Aimorés, “em plena mata virgem, à margem do rio Doce, fronteira com o Estado do Espírito Santo, lutando contra a jagunçagem e o caudilhismo!
Waldemar teve uma vida aventurosa. Militou ativamente na política, participou de armas na mão nas revoluções de 1930 e 1932. Foi Delegado de Polícia em Goiânia; criou gado. Mas as rimas e as preocupações literárias eram a sua vocação.
Reside atualmente em Belo Horizonte. Depois das lides revolucionárias, um acontecimento o faria reintegrar-se em suas atividades literárias. Aberto um Concurso de Contos pela Prefeitura de Belo Horizonte, saiu vencedor.
Reescreveu então suas poesias antigas, acrescentou novas páginas e publicou em 1953 o primeiro livro: “Poemas das Vozes Distantes.” Em 1954, lançou “Ouro de Cuieté e Outras Histórias”, livro laureado pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio “Afonso Arinos”, e também premiado pela Academia Mineira de Letras. Em 55, saiu “Campanha Educativa do Trânsito”. De suas obras publicadas, confessa Waldemar Pequeno que a que lhe é mais cara ao coração é “Ouro do Cuieté”, onde narra episódios de sua infância e de sua vida dramática às margens do Rio Doce.
Em elementos que gentilmente nos forneceu, a mim e ao Luiz Otávio, informa que “tem inéditos, além de um livro de trovas a ser publicado, outro de poesia, um de contos e crônicas, e a autobiografia sob o titulo de
“Retorno ao País da Vida”.
E mais as obras seguintes: “4 Soldados, 3 Cozinheiras... 12 Netos, em vésperas de 14...”
Waldemar Pequeno viveu praticamente a sua vida no interior, no sertão. E quando me refiro a interior aí, quero dizer a vida nas pequenas cidades nas pequenas vilas. Suas trovas, por isto, fixam muitas vezes os aspectos pacatos da vida interiorana, sua paisagem, seus costumes. Em algumas de suas quadras, há toda essa filosofia simplória do homem em seu pequeno mundo, realmente muito mais humano que o das grandes cidades, asfixiantes. Daí sua aspiração:
Quem me dera, solitário,
habitar naquele morro,
apenas com meu canário
meu cavalo, meu cachorro.
Eis o seu ideal:
Uma casinha na mata
uma espingarda e meu cão,
meu amor à espera, e o fogo
sempre aceso no fogão.
No morro ou na mata, seu anseio é por tranqüilidade. E' o sonho da casinha pequenina, a casa do caboclo, onde um é pouco, dois é bom, três é demais. Demais, é o modo de dizer, porque o amor multiplica, e os filhos fazem da casa do caboclo uma verdadeira creche...
Não foi à toa que escrevi estas redondilhas no meu “Festa de Imagens”, sobre a “Matemática da Vida”:
“Matemática esquisita
que das suas sempre faz...
Ao final de nove meses
somando dois, - multiplica,
e ao invés de dois, às vezes:
são três, são quatro, e até mais..."
. . . E tudo começa afinal, com aquelas “duas coisas” que o poeta diz que bastam para a sua felicidade:
Duas coisas neste mundo
bastam para o meu agrado:
- pito de fumo de rolo,
mulher cosendo ao meu lado.
A poesia de Waldemar Pequeno recolheu a paisagem e o meio, nos seus versos. Quem conhece o Brasil por dentro, viaja com o poeta em seus versos, sentindo uma imensa alegria em descortinar o seu mundo.
A inclusão de seu nome ao lado de nomes como Belmiro Braga, Adelmar Tavares, Lilinha Fernandes, Baptista Nunes, é um simples ato de justiça à
sua obra, aos seus versos, às suas trovas.
Aí estão rápidos traços da personalidade literária do trovador que não leva apenas o bandolim a tiracolo, para tecer madrigais à vida e à amada, mas que, de mosquete em punho, tem enfrentado o mundo e os homens...
Neste pequeno volume, vocês encontrarão o bandolim. O bandolim de um autêntico e inspirado trovador.
J. G. DE ARAUJO JORGE
Rio, 11/1960
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * **
Waldemar Pequeno
(Waldemar Dinis Alves Pequeno)
Prefácio de Luiz Otávio
“Pouco ou quase nada se tem escrito sobre a Trova” - dizia eu na Introdução de “Meus Irmãos, os Trovadores”. E agora completo aquele meu pensamento: “... e muita coisa há para escrever sobre o assunto...” Em livro que estou elaborando vagarosamente - "No Mundo das Trovas" - pretendo fazer um minucioso estudo acerca dessa graciosa forma de Poesia. Abordarei a Trova sob vários ângulos: histórico, literário, crítico, pitoresco etc. Para isso tenho vasto material de variadas fontes e já comecei a escrever alguns capítulos.
Aqui, fica apenas apresentada a nossa conceituação de Trova, conceito que não era o mesmo da Idade-Média, mas que - por motivos vários, se foi firmando e fixando em nossos dias. Atualmente. denominamos Trova "uma composição poética de quatro versos coro sete sílabas, rimando pelo menos o 2." com o 4.", tendo um sentido completo." É a definição que apresentamos no Prefácio de "Meus Irmãos, os Trovadores" e a que é comumente aceita pelos troveiros de nossos dias.
Quanto ao nome trovador - também originário dos séculos XI e XII - tem hoje no Brasil uma tríplice significação: o autor da trova (quadra); o poeta popular dos folhetos em versos (literatura de cordel) que geralmente compõe sextilhas e o cantor-sertanejo que canta variadas formas musicais: martelos, quadrão, agalopado, embolada etc., e é também chamado violeiro ou cantador. Para a formação dos Estatutos do "Grêmio Brasileiro de Trovadores", em Salvador, propus que se especificasse essa tríplice significação do nome trovador. Tal sugestão foi aceita pois o capítulo III - art. 24 ° dos Estatutos daquela associação diz: "O Grêmio considera TROVADOR aquele que é autor de trovas (quatro linhas), o autor de folhetos rimados e o violeiro ou cantador, embolador e todo repentista." Tenho para mim que, com o correr de alguns anos mais, a designação de trovador vai fixar-se no autor da trova ou quadra; enquanto o autor de folhetos será chamado poeta-popular ou de folhetos, e o violeiro por esta designação bem adequada: violeiro ou violeiro-cantador.
Assim fica explicado que a nossa “Coleção Trovadores Brasileiros” diz respeito somente aos poetas autores de trovas, e que a Trova é tomada na conceituação acima referida: apenas da quadra de versos de sete sílabas.
* * *
A Trova tem tido, nos últimos anos, um renascimento surpreendente e facilmente comprovável. A sua grande aceitação, quer pelo povo, quer pelas classes cultas, é um fenômeno deveras interessante. Magistrados, professores, militares, compõem trovas ou sabem trovas de cor; enquanto jovens, ainda nos bancos escolares, têm os seus cadernos cheios de trovas colhidas aqui e ali. ultimamente, a divulgação de quadras pela Imprensa, Rádio e Televisão tem sido aumentada. Organizam-se reuniões, palestras, congressos, como o Congresso de Trovadores da Bahia, o 1.° Salão Campista de Trovas, os Jogos Florais de Nova Friburgo etc. Aparecem vários concursos de trovas, tais como os da Casa do Pôrto
(do Rio), da Casa da Bahia (também do Rio) e os Jogos Florais de "Vida Doméstica" - todos com valiosos prêmios aos vencedores.
Quais as razões desse renascimento? Devem ser muitas. Primeiro, o interesse de renomados escritores pelo estudo da trova anônima, tais como: Sílvio Romero, Carlos de Koseritz, J. Simões Lopes Neto, Melo Morais Filho, Carlos Góis, Afrânio Peixoto, A. Americano do Brasil, Amadeu Amaral, Leonardo Mota, Gustavo Barroso etc. E, mais recentemente Théo Brandão, Guilherme Santos Neves, Augusto Meyer, José Gonçalves de Sousa etc. – que fizeram coleta de quadras e escreveram livros ou artigos sobre trovas anônimas. Dos que se interessam, ultimamente, pelos trovadores ou trovas assinadas, destacam-se: Félix Aires, Rodolfo Coelho Cavalcante, Malha Tahan, Colombina, Maria de Lourdes Costa, Simaco da Costa, Pedro Manhães, Walter Siqueira e outros, que, em livros e artigos, têm divulgado inúmeras trovas e apresentado novos trovadores.
Outro motivo ou causa desse renascimento deve ser o fato de alguns bons poetas como Belmiro Braga, Antônio Antonio Sales, Adelmar Tavares etc., terem dado uma atenção toda especial ao gênero, tornando-o admirado e respeitado. Se antes a trova era olhada como um simples complemento de folhinha ou verso para improviso de violeiro, ela foi aos poucos, com a atenção desses e de outros poetas, adquirindo colorido novo e um prestígio sempre ascendente, até tornar-se quase uma forma nova de Poesia, um gênero todo à parte, que ganhou o nome oriundo da Idade-Média: Trova.
Um fato interessante, também, é a sua generalidade. Se os seus apreciadores são encontrados nas diversas camadas sociais, encontram-se, entre os que a têm usado, poetas de diversas escolas ou tendências: românticos, parnasianos, simbolistas, modernistas etc.
Não seria justo esquecer, entre os fatores do ressurgimento da Trova, o papel desempenhado pela Editora Vecchi. Primeiro, publicando "Meus Irmãos, os Trovadores" - coletânea de duas mil trovas, de mais de seiscentos autores brasileiros, com notas elucidativas e biobibliográficas, dedicando à sua confecção a maior apuro técnico e material. E, agora, lançando a “Coleção Trovadores Brasileiros”
* * *
Esta Coleção - um velho sonho meu - veio também preencher uma lacuna. Há muito observava o seguinte paradoxo: a divulgação das trovas aumentava, crescia o número de seus admiradores, surgiam novos trovadores, entretanto – por incrível que pareça – nas livrarias não se encontravam livros de trovas. A não ser esporadicamente, colocados aqui e ali, em poucas livrarias, pelos seus próprios autores. Eram, geralmente, edições pequenas e quase que para uso interno. O leitor dificilmente encontrava um livro de trovas numa livraria. Notava também que os poetas mortos iam sendo esquecidos e seus livros, esgotados, eram raros até nas bibliotecas. E quanto aos estreantes de valor, esses não encontravam editores.
Numa viagem à Bahia, desfrutando um prêmio que trovas nossas haviam recebido, conversei, no tombadilho do navio, sobre o assunto, com o amigo e admirável poeta J. G. de Araujo Jorge. Falei-lhe do meu desejo de propor à Editora Vecchi a organização de uma Coleção de pequenos livros, em série, com 100 trovas de cada autor, acompanhadas de uma Introdução biobibliográfica e crítico-literária. Disse-lhe que tinha confiança no êxito da iniciativa, mas receava que a Editora não pensasse do mesmo modo.
Araujo Jorge entusiasmou-se pela idéia, levou-a à Editora e combinamos que organizaríamos juntos a Coleção. Para minha grande satisfação e, por certo, dos trovadores brasileiros e admiradores do gênero, foi aprovado o nosso projeto.
* * *
Os livrinhos da “Coleção Trovadores Brasileiros” terão o mesmo formato e tamanho trarão o mesmo título
"100 TROVAS", e igual capa. Sempre que possível, será obedecido o seguinte esquema: sairão três livros de cada vez - um de poeta já falecido, outro - de trovador vivo, e o terceiro - de um estreante. Para os três primeiros volumes da COLEÇÃO foram escolhidos os nomes de BELMIRO BRAGA, LILINHA FERNANDES e BATISTA NUNES. O nome de Adelmar Tavares - como não poderia deixar de ser - foi lembrado para iniciar a Coleção. Por motivos contratuais com outra Editora, a sua apresentação teve que ser adiada. Esperamos para breve a sua honrosa presença em nossa Coleção. Já estão programados, para o seguimento destes, os de Antônio Sales, Djalma Andrade, Nilo Aparecida Pinto, Soares da Cunha, Waldemar Pequeno, Adauto Gondim, P. Celso de Carvalho etc.
O poeta J. G. de Araujo Jorge fará a apresentação da Coleção nos volumes números 2 e 3 e a Introdução biográfica e literária sobre Belmiro Braga. A mim coube a agradável tarefa da apresentação da Coleção no volume n.º 1 de escrever algumas linhas sobre Lilinha Fernandes e Batista Nunes.
Está pois, lançada a semente valiosa da “Coleção Trovadores Brasileiros”. Para que ela germine, desenvolva-se e frutifique, é necessária a ajuda, o carinho, de todos os trovadores e enamorados da Trova. A eles, eu e o poeta J. G. de Araujo Jorge fazemos este pedido: difundam, propaguem o mais possível a nossa idéia; espalhem pelo Brasil os livrinhos da nossa, da vossa Coleção. Só desse modo ela poderá crescer e continuar, dando assim oportunidade a tantos troveiros inéditos e, também, aos leitores, de possuírem uma interessante e magnífica Coleção de Trovas, forma poética que no dizer de Adelmar Tavares é a mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais feliz.
Luiz Otávio
in
Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959
*****************************************![]()