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Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Cem Trovas de
ADELMAR TAVARES
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n.01 n.02
Para matar as saudades, Pouco me dá que se diga
fui ver-te em ânsias, correndo... meu verso fora de moda ,
- E eu que fui matar saudades, meu verso é apenas cantiga
vim de saudades morrendo... de cirandas, e de roda...
n.03 n.04
A saudade é uma andorinha, Duvido que alguém no mundo,
que ao morrer do sol a chama, olhe sem melancolia,
as asas tristes aninha uma vela no horizonte,
no coração de quem ama... lá longe... no fim do dia...
n.05 n.06
Que tens tu, que és tão sombrio, Quem dera as minhas trovas
e hoje a rir, alegre, assim ?... andassem pelos caminhos,
- Mal sabe que só me rio, consolando os desgraçados,
porque riste para mim... dando pão para os ceguinhos...
n.07 n.08
Ora a Vida!... Deixe-a andar, Eu vi o rio chorando,
não queiras da vida ter quando te foste banhar,
o que ela não possa dar, por não poder , te banhando,
nem tu possas merecer... dar-te um abraço, e parar...
n.09 n.10
Ninguém se queixa da Sorte, Coração, fonte da Vida,
que Deus de ninguém se esquece. da vida a própria razão.
Cristo nasceu para todos, - E tanta gente eu conheço,
cada qual, como o merece... vivendo sem coração...
n.11 n.12
Trovas, trovas da minha alma! Quando eu morrer, levo à cova
Da vida quando eu me for, dentro do meu coração,
sede o humilde travesseiro, o suspiro de uma trova,
do sono de um sonhador. e o gemer de um violão.
n.13 n.14
Meu coração, pobre tonto, Se eu pintasse minha infância,
que eu não entendo sequer, pintava: num sol de estio,
fazes morrer quem te adora, a sombra de uma ingazeira,
morres por quem não te quer!... debruçada sobre o rio.
n.15 n.16
Os búzios guardam das águas Por quê, pela humanidade,
do mar, os fundos gemidos. só o eu, soa e ressoas?...
- Assim fossem minhas mágoas, - É que há um sapo agachado,
guardadas nos teus ouvidos... dentro de cada pessoa.
n.17 n.18
Não quero na minha morte, Na janela do teu quarto,
nem pompa, nem mausoléu. a luz da manhã transborda.
Quero uma covinha rasa, Bem-te-vis estão gritando: -
que abra os braços para o céu... Preguiçosa, acorda, acorda!
n.19 n.20
A inveja tem seu castigo, A luz desse olhar tristonho
Deus mesmo é quem retribui; dos olhos teus, faz lembrar
enquanto o invejado cresce, essa luz feita de sonho
o invejoso diminui... que a lua deita no mar.
n.21 n.22
A imagem de nossas almas Vivo triste, triste, triste,
está nas águas profundas, que mesmo nem sei dizer.
quanto mais tristes, mais calmas, -Desconfio que é saudade,
quanto mais calmas, mais fundas. que é vontade de te ver.
n.23 n.24
Um cego me disse um dia, Sou nesta tarde da vida,
que Poesia, inspiração, cheio de saudades minhas,
era uma lua nascendo, como um telhado de igreja,
de dentro do coração. todo cheio de andorinhas.
n.25 n.26
É nossa alma uma criança, Não quero ouvir o teu nome,
que nunca sabe o que faz. nunca mais te quero ver!
Quer tudo que não alcança, - E passo a vida pensando,
quando alcança, não que mais... a forma de te esquecer.
n.27 n.28
Quando vejo o teu sorriso, Neste mundo, a certas vidas,
tudo se doira e aligeira. a morte seria um bem,
Teu sorriso é na minha alma, mas até a própria morte
como o sol numa roseira. se esquecem delas também.
n.29 n.30
O laço de fita preta Só peço o dia em que eu morra,
dos teu cabelos, faceira, faça uma noite de lua,
parece um borboleta todo troveiro descante,
pousada numa roseira... todo violão saia à rua!
n.31 n.32
Dizer adeus nada custa, Tu vais passando, orgulhosa!...
alguém me mandou dizer. Nunca vi soberba assim.
Mas quem diz que nada custa, -Ai de ti, por tanto orgulho.
queira bem é vá dizer. Por tanto amar-te, ai de mim!...
n.33 n.34
Não se dá regras à trova, Quem ri do poeta, não sabe,
que a trova regras não tem. o consolo que ele tem.
A trova é simplicidade, E o dia em que fosse triste,
ela vai, como nos vem... faria versos também.
n.35 n.36
A morte não é tristeza, As penas em que hoje estou,
é fim, é destinação. disse-as ao Sol, - fez-se triste.
- Tristeza é ficar vivendo, Disse-as à noite - chorou...
depois que os sonhos se vão... disse-as a ti, e sorriste...
n.37 n.38
Mãe, que meus versos incensam, Saudade - doce transporte
quando eu vim do mundo à luz, da alma adejante e ferida...
foi na cruz de tua benção, - É viver dentro da morte!
que eu vi a vida uma Cruz. - É morrer dentro da vida!
n.39 n.40
Para esquecer-te, outras amo, Para definir o Poeta,
mas vejo, por meu castigo, só mesmo em verso defino.
que qualquer outra que eu ame, -É um homem que fica velho
parece sempre contigo. com o coração de menino.
n.41 n.42
Ó meu amor! Ó saudade! Quanto amor me prometeste!
- E eu não sabia que amor Nas tuas cartas, que ardor!
era uma felicidade Depois...tudo isto esqueceste,
disfarçada numa dor. - Coisas de cartas de amor...
n.43 n.44
Encerram certos sorrisos Eu falei da "flor morena"
tristeza tão singular, e entrou a rir quem me ouviu.
que, em se vendo tais sorrisos, -Quem nunca viu flor morena,
dá vontade de chorar... foi porque nunca te viu...
n.45 n.46
Todo rio na corrente, Quem tiver amor, esconda
busca um lago, um rio, um mar... faça por muito esconder,
Mas o destino da gente, que as coisas da alma da gente,
quem sabe onde vai parar? ninguém carece saber...
n.47 n.48
Do mundo quando te fores, O perfume do teu lenço
mais que outra glória qualquer, trago comigo na mão.
deixa a sombra de tua alma, Mas o cheiro da tua alma,
num coração de mulher. dentro do meu coração.
n.49 n.50
Grande dia, este meu dia, Alguém disse, e é verdade,
dado por Nosso Senhor. que o sentimento do amor
-De manhã, escrevi versos... ou faz eternidade,
De noite, vi meu amor. ou então, não é amor...
n.51 n.52
Proclamas teu amor-próprio, Amar com ciúme...Quem ama?!...
se alguém te diz minha dor. Quem ama assim, desconfia...
-Essa questão de amor-próprio, - Mas quem tais coisas proclama,
é muito imprópria no amor... se amasse, não as diria.
n.53 n.54
Ó Mundo! Ó Mundo! Ó meu Mestre! Tu censuras de minha alma,
Muito me ensinas viver, este alvoroço, este ardor...
e quanto mais tu me ensinas, Quem tem amor e tem calma,
mais vejo que aprender!... tem calma... não tem amor...
n.55 n.56
Onde anda o corpo, é verdade, Aos que me foram ingratos,
vai a sombra pelo chão... eu grato lhes hei de ser,
É assim também a saudade, pelo bem que me fizeram
a sombra do coração. no bem que eu pude fazer.
n.57 n.58
Quando a trova nos transmite Vou vivendo a minha vida,
seu feitiço singular, como Deus quer e consente.
a gente lê, e repete, -Sou como folha caída
e depois, - fica a pensar... levada pela corrente...
n.59 n.60
Trovas, - cantiga do povo, De amor... Amor é infinito!
alma ingênua dos caminhos... Do encanto do seu poder,
de lavradores... cigarras... tanta coisa tenho dito!...
mulheres... e passarinhos... - E tanta coisa a dizer...
n.61 n.62
Uma vez que a gente cante Vi hoje uma árvore velha,
dizendo o que o povo diz, toda coberta de flor...
a trova fica contente, - E me lembrei de minh'alma,
a trova fica feliz... cheia de sonhos de amor. -
n.63 n.64
Que contraste tem a Sorte! Não lamento a minha lida,
No mundo, que ingrata lida! nem, pobre, choro os meus ais;
- A Vida chorando a Morte... -Quem tem um amor na vida,
E a Morte rindo da Vida... tem tudo ! Para quê mais ?
n.65 n.66
Sempre que a felicidade Ardemos na mesma flama,
passa no meu coração, sofrendo da mesma Dor!...
é como sobre um presídio, -E é isso que a gente chama
a sombra de um avião. felicidade de amor...
n.67 n.68
Já lá vai morrendo o dia, Tua mãozinha morena,
e hoje ainda não te vi. se a tomo, tenho a impressão,
- O dia que não te vejo, de uma rolinha cabocla
é dia que não vivi... dormindo na minha mão.
n.69 n.70
Trova que vens novamente Nem sempre com quatro versos
encher o meu coração, setissílabos, a gente
-Sê bendita, luz divina, consegue fazer a trova;
amor de consolação. faz quatro versos somente.
n.71 n.72
Tristeza! Minha tristeza! A dor que em prantos rebente,
Doce amiga dos meus ais. dói, mas pode consolar...
Só de ti tenho a certeza -Mas a dor que a gente sente
que não me abandonarás... de olhos secos, sem chorar?!
n.73 n.74
Minha camisa velhinha, Há nos teus olhos escuros,
lavada à flor de melão, o escuro da Ave-Maria.
tira-me o peso da vida, Desconfio que teus olhos,
faz-me leve o coração. são os de Santa Luzia...
n.75 n.76
Seria a glória das glórias, Nuca vi dizer ser pobre
se um dia alguém me dissesse, que come em paz o seu pão
ter chorado neste mundo, quem toca sua viola
lendo um verso que eu fizesse. sem peso no coração...
n.77 n.78
Dos meus avós portugueses, O sol é que faz o trigo;
de certo ninguém duvida, e o trigo, que faz o pão.
trouxe este amor pela trova, Mas se o trigo se faz hóstia,
que hei de trazer toda a vida. faz-se sol no coração
n.79 n.80
A Ventura que hei buscado Duvido que alguém se deite,
pela Vida, sempre em vão, no embalo que a rede tem,
que vezes não tem passado e pegue logo no sono,
à altura de minha mão!... sem pensar em quem quer bem.
n.81 n.82
Sou jardineiro imperfeito, Depois que, Mãe,. tu partiste,
pois no jardim da amizade, como uma Santa em seu véu,
quando planto um amor-perfeito, o céu que eu vi tão longe,
nasce sempre uma saudade... ficou mais perto, e mais céu...
n.83 n.84
Minha viola, meu cavalo, Dos desertos deste mundo,
a lavoura dando flor, sei do mais desolador.
Maria, dentro de casa... - Uma alma sem esperança,
- Louvado seja o Senhor! - Um coração sem amor...
n.85 n.86
Dizem que há mundos lá fora, Teu cego de caridade,
que eu nem sonho... Nunca vi... chora não te conhecer,
- Mas que importa todo mundo, e a minha infelicidade
se o meu mundo é todo aqui ? foi ter olhos e te ver...
n.87 n.88
Alguém pede que lhe ensine, Mesmo nos jardins da vida,
a fazer versos também, desde a minha meninice,
viva e sofra, ame e padeça, nunca alcancei uma rosa,
e espere que o verso vem... que o espinho não me ferisse.
n.89 n.90
Essa tua boniteza, Depois de mandar-te embora,
não tem, no mundo, rival. foi que - cego! -percebi,
- Pastora da minha Festa! que eras a felicidade,
- Meu presépio de Natal!... que eu tinha em mão, e perdi.
n.91 n.92
Lindo luar no céu flutua... Não sei por que, quando canto
ao violão, canto os meus fados, por mais alegre a canção,
que Deus fez noites de lua tem uma gota de pranto,
para os que são namorados. que vem do meu coração.
n.93 n.94
Ó lindos olhos magoados, Sei que amor é sofrimento,
de tanta melancolia. custa vida querer bem,
- Da tristeza desses olhos, mas custa o dobro da vida,
é que vem minha alegria. na vida não ter ninguém.
n.95 n.96
Se Cristo nasceu para todos, Não há riqueza que valha
sua luz a todos vem. um coração de mulher...
Vive o rico na riqueza, Que eu por um, - vivo os meus dias,
mas vive o pobre também... e todos que Deus me der.
n.97 n.98
Ó quaresmeira viuvinha, Sempre que alguém abre os braços
toda coberta de flor! para amparar uma dor,
Quando a viuvinha se enfeita luz nesses braços abertos
é que presente outro amor. a cruz de Nosso Senhor
n.99 n.100
Os "anjos da guarda" gostam Ó linda trova perfeita,
da rede dos pobrezinhos, que nos dá tanto prazer,
que dormem a sono solto, tão fácil - depois de feita,
ao Deus dará, nos caminhos... tão difícil de fazer.
in
Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e
J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959
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