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" À Rodrigo  "
                                                                   
(Pergunta sem resposta ao Senhor)

À Gadelha e Magna


Parábola cortada
pela mão
de Deus.

Por que no instante da chegada
não o viva! a saudação,
mas, inexplicavelmente,
o adeus?

(Afinal, que mistério se encobre
na infinita Onisciência
que escapa à nossa pobre
e humana
contingência? )

Puro acalanto.
Cabia num ninho.
Tenra haste, sem botão
nem flor.
Por que levar seu canto?
Seu choro sem dor
enrolar seu caminho?


Quem adivinharia seu curso,
seu rumo
desfeito?
Do rio, contido na pedra,
as curvas do leito?

Por que, de repente,
antes da terra, da água no chão
a engatinhar,
a presença engolfante,
a imensidão
do mar?

Vejo-o,
asas fechadas
(parênteses guardando
sobre o peito
o gesto de um vôo
sem defeito).

Que razão – ninguém a previu –
fez do barro macio e forte
que apenas se formara
o fluido evanescente
que o vento esvaiu
na manhã clara?

Súbito, sumiu
tão cedo,
antes de tudo - do sofrimento, da tristeza,
do pensamento
da beleza
tão pequenino,
sem medo,
apenas menino,
desarvorado astronauta
do Destino.

Esperança.
Guardei seu semblante
vidente,
o olhar percuciente
adulto,
em seus olhos de criança,
mas sem ondas a escolhos...

Por isso na amargura de meus olhos
- mar de sombras e abrolhos -
essa lembrança constante:
como um barquinho balouçante
a vela do seu vulto.

Ah, os anjos são crianças
neste feio mundo
sem bonanças
(não sabem dizer adeus).
Entretanto, cintilou um segundo
como se não fora esse o seu mundo
pura estrela cadente
recolhida por Deus.

Asteróide
a levar seu segredo
não para a noite, que amanhecia,
(e tentar entender será tentativa
incrível,
vã )
em verdade, quem diria?
fez-se luz, invisível
na luz da manha.

E fica a pergunta sem resposta
do coração que não aceita
o pesadelo medonho:

Que enigma, Senhor, se encerra afinal,
impenetrável
em sua partida,
antes que o Sonho
imensurável
se tornasse Vida ?


(Poema de JG de Araujo Jorge 
in " Tempo Será " 1a ed. 1986 )


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