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" Finados "
            


Mãe,
hoje é dia de finados.

Não, não é remorso.  Neste momento
leio nos jornais que milhares de criaturas
se atropelam nos cemitérios
levando flores a seus mortos.

Não vou lá, mãe.  Não gosto de cemitério,
lá não sei te encontrar,
nem me sinto em paz,
perdido entre multidões...
E sofro de imaginar-te, imóvel, prisioneira
num gavetão de concreto empilhado num muro
branco, de lamentações...

Não, mãe, não me sinto em paz,
nem adianta procurar-te em meio a tanta gente estranha,
misturar tua imagem tão viva quando te penso viva,
com a lembrança da morte que deforma e desfigura
e com lutos e flores convencionais.

Ah, depois que partiste
não gosto de pensar onde te encontras.
Em minha aflição,
hás de ter a certeza de que todo dia
é dia de finados
em meu coração.
  


(Poema de JG de Araujo Jorge 
in " Tempo Será " 1a ed. 1986 )


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