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" Três Presidentes e a Minha Poesia
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No dia 20 de maio, em 1985, encontrando-me no Rio (ainda não
conhecia pessoalmente o Presidente José Sarney), recebo do Palácio do
Planalto, Brasília, um telefonema surpreendente. Pensei tratar-se de um
trote, uma brincadeira. Ao atender, ouvi, do outro lado da linha, um
capitão, ajudante-de-ordens da Presidência da Republica, que, depois de
se congratular comigo pela data (é o dia de meu aniversario), informou-
me que o Presidente desejava falar comigo. Ouço então a voz do
Presidente, que começou a declamar os versos de um soneto meu,
"Bom dia, amigo sol!", do livro Eterno Motivo:
"Bom dia, amigo sol, a casa a tua!
As bandas da janela abre e escancara,
deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora, alegre, pela rua."
Interrompi-o emocionado. Um poeta Pode considerar-se consagrado
quando consegue chegar à alma e à memória de seu povo. Aquele gesto,
entretanto, trazia-me a convicção de que conseguira mais:
eu chegara a memória e ao coração do próprio Presidente do meu povo.
Revelou-me, então, que desde estudante, no Maranhão, sua geração lia e
sabia de cor os versos meus; que possuía meus livros, e me considerava
"o maior poeta popular do Brasil".
Na oportunidade, permito-me recordar que surpresa e homenagem
idênticas me proporcionaram dois outros Presidentes.
Juscelino deu-me um fervoroso apoio em duas campanhas. Num jantar
que me ofereceu em seu apartamento na Av. Atlântica, agradecendo um
pronunciamento que fiz sobre o "Catetinho" a sua obra, saudou-me:
"- Salve o Poeta de Brasília! Brasília: Redescobrimento do Brasil,
estocada certeira no coração do sertão, como diz no seu poema."
Antes já me enviara uma carta com extremos de generosidade, a 5 de
agosto de 1971, onde afirma:
"A sua alma de poeta, e dos mais altos do mundo contemporâneo, se
desdobra neste poema em prosa, criando uma legenda que poderá
encimar a moldura da civitas brarsiliensis que a sua
verve e seu
gênio estarão ajudando a formar."
Ainda recentemente, ao participar da Comitiva Presidencial na
sessão de reabertura da ONU, numa reunião em Nova York, fui
apresentado a Márcia Kubitschek pelo Presidente Sarney, e tive a
satisfação de ouvi-la comentar:
"- J. G. de Araujo Jorge? Presidente: este foi o nosso candidate, era o
candidato do papai."
O outro Presidente foi Jânio Quadros. Quando o visitei em S. Paulo, em
companhia de meu primo e inesquecível amigo Brígido Tinoco, seu ex-
Ministro da Educação, em casa do Deputado José Camargo, ao me
reconhecer, aproximou-se para abraçar-me:
"- O meu poeta!
E ante certa perplexidade dos presentes, pôs-se a dizer poemas do meu
livro Cânticos.
Atalhei-o, aproveitando a oportunidade da visita, para agradecer-lhe uma
declaração, quando ainda Presidente da Republica, em entrevista ao
Jornal do Brasil,
de que eu era o seu poeta preferido, e, na sua opinião, o maior do Brasil.
"- E continua sendo, Deputado - confirmou-me, num abraço efusivo.
Desculpem-me os leitores tais relembranças, e a imodéstia de revivê-las.
São realmente fatos, dos mais caros, em minha vida literária.
Compensam o silêncio de certa crítica e a marginalização a que
pretendem, em vão, relegar minha poesia, comentaristas facciosos em
gratuitas hostilidades a uma obra que sequer leram. Uma obra com 35
títulos e mais de 2 milhões de exemplares vendidos. Como se o grande,
insuspeito e definitivo juiz não fosse sempre o leitor, o povo.
Daí a confissão na trovinha:
"Por certo que me comovo
nem gloria existe maior:
ouvir um Poeta o seu povo
dizer seus versos de cor."
JG.
Rio, fevereiro de 1985
( J.G. de Araujo Jorge
" orelhas - Tempo Será " 1a ed. 1986 )
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