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"
Remorso Contemporâneo "

 
Remorso
dessa felicidade pessoal, feita de coisas simples
e sem importância,
da hora de voltar, da porta que se abre aconchegante,
do amor, sem surpresas, de cada noite;
remorso do mundo rotineiro e acanhado
onde vivo sem acidentes nesse itinerário provinciano.
de minha vida.

Remorso
dessa paz nunca perturbada,
senão por passeatas de jovens que disputam o direito ao futuro
num pais sem direção,
senão por uma miséria tão próxima, mas distante,
que se socorre na televisão com uma caridade bem falante e musical;
dessa paz nunca perturbada
senão por desfiles de tanques silenciosos nas paradas festivas,
- velhas "feiras de amostras" para distrair a fome do povo
em todo caso paz
sem bombas caindo do céu como manás apocalípticos,
sem exércitos mobilizados se triturando inocuamente,
as crianças morrendo nos "orfanatos" ,
os motoristas nas madrugadas
os estudantes nas ruas.

Remorso
desse mundinho burguês a estremecer e a se diluir
num pôquer político em que civis e militares
jogam os destinos de um povo.

Remorso
dessa felicidade de domingo em Paquetá
dessa paz de comemorações de "guerra do paraguai",
enquanto nas estufas do mundo
cogumelos atômicos aguardam o momento da semeadura
e vão sendo adubados os campos do Vietnã.


( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poeta Na Praça " 1a ed.1981 )


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