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"
Reconhecimento de Brasília "

 
(Impressão em metro livre para uma
reportagem ou um poema)


1
Você não tem mais o direito de dizer
impossível!

- Aí está Brasília!

2
No Rio
vejo o edifício começado em
1956
ainda embrulhado em seus tapumes
encardidos...

Em 1957 ( um ano depois)
Juscelino pensou em Brasília,
e Brasília se fez !

(Ver para crer!)

3
Foram mais de trezentos mil brasileiros que acorreram aqueles sertões
aquele ondulante planalto,
onde havia apenas arvores agrestes, chão vermelho,
um ar azul, um sol potente...

Os mais ousados caminhos haviam parado longe
sem coragem de avançar,
os rios passavam esquecidos, sem geografia,
a Historia pisara tão de leve
que suas pegadas se tinham perdido com a memória
dos bandeirantes . . .

E, de repente, Brasília! - Uma cidade?    Nao, um mundo!

4
Em 7 dias Deus fez o mundo.
Em 7 anos (que sete anos se passaram) o homem
fez Brasília,
a Brasília que encontrei, e não acreditei
em meus olhos.

- Brasília! (Como aquela girafa da anedota
do Português: "Qual. este bicho não existe!")



5

Não Ninguém acredita em Brasília. Antes
porque não era possível que existisse.
Depois, porque existe.

Eu também não queria (ou não podia) acreditar
em Brasília.

- Amigos,
aqui está a minha mão.

6

Brasília não é só uma cidade!
- O Alvorada, o Palácio do Planalto, a Esplanada dos Ministérios,
a W3, as largas pistas cruzando-se em trevos vertiginosos;
Brasília não é só uma cidade:
suas quadras residenciais - cubos de gente e de amanhã
- fixando suas formas no espaço,
seu lago imenso - espelho de sua beleza aerodinâmica
e de suas noites - mágica de luzes, como num passo de prestidigitação
a cúpula do Senado, a cuia cheia da Câmara,
a Rodoviária - sístole-diástole de seu coração, a bater
dentro da terra, como um dínamo.

Brasília
é uma emoção de orgulho que a gente não sabia,
que nos toma de repente, e nos vai encharcando todo
e faz a gente descobrir que é brasileiro.

( Engraçado : a gente nunca percebera bem que era brasileiro,
que havia razão para a gente se sentir brasileiro,
e que ser brasileiro pode ser alguma coisa forte, real, verdadeira. )

Brasília é um orgulho novo, de repente rico
milionário, esbanjando-se pelos olhos iluminados,
pelos passos incrédulos
pelos silêncios - interjeição!

- Então, ai esta Brasília!

7
Aquilo era um mundo que o homem
(engraçado: o homem brasileiro!)
fizera em 7 anos.

Estrangeiro nenhum era capaz de acreditar!
E eu ia me repetindo isso a cada passo.

Pegou um deserto, uma força desconhecida,
uma fe insuspeitada,
um mágico de formas e de Civilização
(Oscar Niemeyer)
e obedecendo a um louco ( o Juscelino é um louco!)
a fez surgir do nada.

8
Não. Eu não creio em milagres divinos,
mas vos afirmo que Brasília é um milagre
do homem.

Um verdadeiro milagre, com aquela graça
aquela luz, aquela beleza, aquela força
dos milagres que inventamos só para Deus

9
Cheguei amanhã em Brasília
Não era o meu tempo
(que tempo será?)

- o Futuro responde presente.
(Você respira futuro)
naqueles altiplanos.

10
Oh vontade de encontrar um estrangeiro,
(um americano é melhor)
para olhar nos olhos
sem baixar a vista.

11
Não. Não bastaria dinheiro, técnica,
trabalho.
(O Israel Pinheiro ou Israel Dinheiro?
Ah! não fosse ele Israel...)
Só isso, não.

Era preciso "raça", "peito", audácia!
Não é coisa de riqueza, que somos pobres,
nem só de capacidade ( nesse caso temos mesmo o Nierneyer
e tantos mais),
é coisa de louco, de Juscelino,
e de todo um povo que o seguiu.

12
Nem americano, nem russo, nem chinês, nem
ninguém
faria Brasília.

Era preciso Ter Juscelino
e o povo brasileiro.

13
Brasília ali está, e a seu lado
(como estranho monumento ao seu trabalhador):
- a Cidade Livre.

Um monumento de madeira
a cidade de aço e de concreto.

14
Eu combati Juscelino,
eu não acreditei em Juscelino,
eu também chamei Juscelino de ladrão.

Tinha me esquecido de que em política
também pode haver
um Galileu
um Colombo um Einstein.

Obrigado, Juscelino. E desculpa
não tanto a minha ignorância
mas a minha descrença. Agora, eu sei.

Eu vi Brasília. Brasília me tornou
um homem de Fé.

15

Deus faria Brasília
sem se envergonhar.

E a poria na Bíblia
para o respeito dos tempos.

( Vontade de me ajoelhar naqueles chãos
vermelhos e rezar o Hino Nacional. )

16
(Engraçado: entendo agora a poderosa mística
que mantém, na História, de pé
o povo judeu.

Também eu, agora, de repente, percebo
como brasileiro
que somos um Povo Eleito.)

17
De repente o Brasil marcou encontro
naqueles planaltos,
e saiu a correr.

O amazonense, o gaúcho, o baiano, o cearense,
(tinha que haver o cearense!)
o carioca, o paulista, o mineiro,
( e até o estrangeiro, de tantas terras)
se juntaram.

18
Brasília é uma encruzilhada. Um mar.
Para ela confluíram gentes, como rios a caminhos,
de todos os lados.

Brasília é uma represa ( "Urubupungá" de gente mesmo!)
Cresceu, subiu, transformou-se em energia
luz, movimento, vida!

Ali está. Se quiserem digam que Brasília é uma
cidade.

Eu repito: é um milagre!

19
Orgulho humilde, viril. Ser candango.

- "Eu pintei aquelas paredes do Palácio."
- "Eu carreguei tijolos para a Rodovia."
- "Eu cavei aquele chão para ser caminho
- "Eu tenho um filho enterrado em Taguatinga
- "Eu vi o nada antes que tudo começou.
............................................................................

Todos se sentem, se não "donos" de Brasília
pelo menos uma parcela: uma pedra, um tijolo, uma pá de terra,
uma lágrima,
um canto.
Vieram de muito longe, de esquecidos brasís
construir uma "pátria" nova muito mais Brasil:
_ Brasília.

Se sentem nela, às vezes, com um brilho nos olhos
cansados,
com um riso na boca sem dentes,
uma alegria, infantil - orgulhosos de sua paternidade
pais miseráveis de uma cidade que ja nasceu adulta,
atlética, milionária, pra frente!

20
Que importa se estranhos tripulante chegaram depois
e já encontram o barco pronto?
Eles construíram o barco e o lançaram ao mar.
Eles fizeram o barco... e o mar.

21
Brasília
- estocada certeira
no coração do sertão.

E o Brasil lá vai
até Belém, até o Acre! (Até minha terra!)
Nas pistas pavimentadas (foi-se a era dos carros de bois)
os caminhões roncam a música de um espantoso "motoperpétuo"
pelas estradas.

Onde havia apenas mapa colorido,
(ufanismo primário)
há o homem, e riqueza, uma nação!

Agora, sim, o Brasil vai ficar deste tamanho:
do Arroio Chuí até o Oiapoc!

De Brasília foi a largada:
- agora é ver que chega primeiro!

22
Brasília
novo descobrimento do Brasil!

Brasília, julho, 1964



( Poema de J G  de Araujo Jorge
  in "O Poeta Na Praça" 1a ed.1981 )


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