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" Libelo Americano "
Antes da tua ajuda, nosso Imperador "caixeiro
viajante"
dava-se a luxos diuréticos pela Europa,
Mauá chegou a Londres, e fabricava História
associado a Barroso e a Tamandaré
com seus barcos da Ponta D´Areia.
O Mil Réis andava de braços com a Libra
em Piccadilly.
Éramos a 4.a potência do mundo
apesar dos ingleses
- velha herança lusitana.
Depois ficaste rico, de repente. Roubaste ao México
três quartas partes do seu território
(o Texas, o Novo México, a Califórnia)
e carregaste seu ouro e, seu petróleo;
negociaste com o grande Corso e te apoderaste do Mississipi;
tripudiaste sobre a velha Espanha, cansada,
e te fartaste em seus despojos...
Até o Tzar branco te entregaria o Sorvete do Alaska,
a sobremesa do teu farto repasto.
Partilhaste a pequena América, e a enfraqueceste
para dominá-la,
manobrando seus caudilhos e generais de pantomima
como bonecos de um trágico guignoil;
acutilaste Cuba, e deixaste em suas costas até hoje
enterrado, o punhal de Guantánamo;
pisaste S. Domingos - displicente - tantas vezes!
incendiaste a Colômbia, e trespassaste
o Panamá,
e o dividiste com a lâmina aguçada
do teu Canal.
Sugas à Venezuela a seiva, a vida
que é o negro óleo que lhe encharca as entranhas
e transvasa por seus mares
e colocaste, desde Gomez, no poder, a Standard Oil!
Bem que teu Monroe declarou a mundo
enfaticamente
diante de uma América basbaque,
digna de melhor sorte:
- "A América para os americanos..."
do Norte...
Tenho memória também (sou acreano)
(Ah! não fossem Plácido de Castro e Rio Branco!),
aliciaste uma desesperada Bolívia, sem recursos,
com teu canto de sereia colonialista,
e sonhaste com um Acre, Guiana norte-americana
incrustada no coração das selvas brasileiras!
Primo rico
riquíssimo,
com teu petróleo à flor da terra, teu carvão siderúrgico,
teu ferro, teu algodão, teu trigo, teu quantas-coisas-mais!
toda essa geografia que Nosso Senhor te deu de mão
beijada:
antes da máquina, andavas de pé no chão,
olhavas o Mississipi, sentado indolente às suas margens,
ou ruminavas versículos bíblicos em teu puritanismo amoral
da Nova Inglaterra.
É preciso que te digam:
tua inteligência foi principalmente a "sorte grande" de tuas
[terras.
Não, não eras nada então, (quando éramos um grande Império!)
e te levantaste do pó, no Século XIX,
e irrompeste sobre trilhos, pelo Século XX
com tua alma de negocista, de gangster e de cowboy.
Atrelaste à tua riqueza a composição humilde
de vinte e poucos vagões - carregados de carga e de
[trabalhadores
(que são os povos da América Latina),
e até hoje os arrastas como dispensas e lavouras
do teu ostentoso progresso.
E assim, o teu desejo
é que continuemos apenas vagões de carga e de trabalhadores,
dóceis e indefesos, às tuas ordens ...
Tua ajuda é uma farsa dolorosa se o que aqui pões
carregas às caladas da noite! E por isso, com a tua ajuda
estamos sempre nus e cada vez mais famintos!
O que levas não dizes, não revelas, ninguém sabe,
(a não ser tuas vísceras de Wall Street),
que silencias os porcos políticos, os sócios militares,
e os retóricas parlamentos azeitados
pela democracia do dólar.
O que aqui pões (e aqui é o Brasil, é toda a América Latina)
levas, multiplicado pelo trabalho escravo de tantos povos
sempre de mãos vazias,
e pelos juros oficiais de governos pusilânimes e mercenários
que nos vendem o corpo e a alma.
Esperas
que continuemos pobres para servir-te, para
que possas encontrar a mão-de-obra miserável
fácil às tuas investidas;
para que possas levar petróleo, estanho, manganês, cristal de
[rocha, salitre,
minerais atômicos, borracha, e até café,
- é assim que desejas a América Latina - fraca, exposta
à tua gula e à tua vontade.
Mas nós nos libertaremos de ti, e dos que traem!
Descobriremos a nossa força (que é a grande luta
para sobrevivermos!)
- descobriremos que somos 300 milhões de seres humanos,
[atrelados
à tua Dinheirocracia,
descobriremos que também somos ricos,
e esperamos apenas por governos de vergonha
que conduzam nossos povos,
e te digam na cara:
- "Queres mesmo ajudar-nos?
Então fora daqui - que já é tempo!- fora!"
(Poema de JG de Araujo Jorge do livro
" O Poeta Na Praça " 1a edição1981 )
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