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" Inquérito Sobre a Liberdade
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Perguntei ao lavrador que tão cedo madrugava
a cuspir, nas duras mãos, presa ao cabo da enxada
se ele queria a liberdade...
E ele me olhou em silêncio, desconfiado,
e baixou os olhos à terra amarga do seu Senhor...
(Inútil terra que só tem servido para enterrar os seus mortos).
Perguntei ao trabalhador apressado, na sombra da manhã,
escravo da família, a crescer e a morrer,
acuado pela vida
se ele queria a liberdade...
e ele deu de ombros, e falou em mais feijão e mais carne em sua mesa,
em segurança e escola para seus filhos...
(Inúteis reivindicações sempre adiante do seu salário).
Perguntei ao intelectual, preocupado e inquieto
entre frustrações e ameaças
se ele queria a liberdade...
E ele indagou: Qual? A americana, que massacra
negros, e explora povos indefesos?
Ou a francesa? que garantiu o direito do rico
ser cada vez mais rico,
e se transformou num estado-policial contra a pobreza?
(Inúteis liberdades que apenas mistificam e revoltam).
Até ao menino maltrapilho, sujo, abandonado,
entre outros companheiros, perambulando nas ruas
perguntei se queria a liberdade...
E ele fugiu sem responder, correu em liberdade...
(Inútil liberdade que o levará ao crime e ao presídio).
Liberdade, ó santa liberdade, ó doce liberdade
tão bela nos hinos escolares, nos discursos políticos
nas manchetes dos jornais,
em que dia, em que dia,
encontrando-te a ti mesma, com um sentimento novo,
deixarás de ser proxeneta da burguesia
para ser a verdade do povo?
( Poema de J. G. de Araujo
Jorge
in " O Poeta Na Praça " - 1981 )
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