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" Enquanto "

  

Enquanto olhares para a companheira que te ajuda na luta
e a morte te amedrontar, mais pelo destino dela
que pelo teu próprio.

Enquanto vires teus filhos brincando e te lembrares que o seu futuro
depende do cada dia do teu esforço
e que se fraquejares
talvez não cheguem mesmo a ser homens.

Enquanto temeres a doença como um espantalho, e vires no remédio
um pedaço de pão a menos em tua mesa;
e sentires a segurança do teu trabalho muitas vezes
condicionada à renúncia de tua própria personalidade.

Enquanto tiveres por distração as amargas preocupações
de tua vida cotidiana, entre o choro de um filho
e o aumento do feijão.

Enquanto não perceberes teu presente, renegares teu passado
e receares teu futuro
como quem recomeça a vida a cada dia;
enquanto não puderes chegar mais tarde ao teu trabalho
até com justificado motivo
sem que te humilhe o olhar do chefe ou a palavra do patrão,

-não é tua a tua vida, não é teu, o teu destino,
ou por outras palavras: não és livre, irmão.



(Poema de JG de Araujo Jorge  do livro
" O Poeta Na Praça " 1a edição1981 )


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