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" Bandeira "

Hei de sustentar a palavra como uma bandeira
a cada novo dia,
disposta a ir na frente, mesmo sem companhia.

Os que nasceram prendados, nunca compreenderão
os que estão soterrados, presos até os ombros
numa revolta inconsciente, numa angústia muda,
sem movimentos, sem braços
de olhos turvos e baços
sem um gesto de ajuda.

Os que nasceram confortáveis, nunca compreenderão
os que pisam pedras, asperezas, e trazem o destino
do próprio chão:
ser pisado,
e dar flores e frutos, sempre ignorado!

Os que nasceram felizes, nunca compreenderão
o sofrimento de milhões de seres conscientes
escravos das galés, as mãos remando incansáveis
até a exaustão,
sem, verem o mar., sem verem a terra,
- a terra da promissão!

Hei de sustentar a palavra como uma bandeira
a acenar novo dia,
disposta a ir na frente, mesmo sem companhia.

Ver um homem morrer todos os dias dentro de si mesmo
sem meios, aniquilado,
vê-lo debater-se como náufrago, sem um socorro sequer,
com um coração que canta, nervos que criam, forças que elevam,
enquanto tantos inúteis jogam e se divertem,
ao seu lado...

Ver um homem morrer sem armas para lutar
ser esbofeteado, manietado dos pés à cabeça;
desejar, quando o desejo é um privilégio fora de seu alcance,
querer ser, e reconhecer inútil e impotente
que não é nem será – por quantas gerações?
- por mais que lute, e se canse...

A consciência desta injustiça às vezes me sufoca.
Que hei de fazer senão içar a palavra como uma bandeira
e ir à frente, até chegar, até cair exangue,
diante da flor de ouro indiferente e provocadora
que nasce de um chão de sangue?



(Poema de JG de Araujo Jorge  do livro
" O Poeta Na Praça " 1a edição1981 )


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