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Viagem Solitária na Chuva "

   
Esta paisagem
molhada e fria
é uma viagem,
doce viagem
envolta e suave
melancolia
que eu sempre faço;
tão triste e estranha,
é uma enfermeira
que me acompanha
e acaricia
o meu cansaço...

Vou no meu carro:
ouço o chiado
das quatro rodas
no chão molhado,
rasgando a chuva
como um tecido
fino, esticado,
e o limpador
de pára-brisa
marca meu compasso
de um tempo lasso
que sem Ter sido
- segue parado.

Árvores curvas
coo fantasmas,
passam ao lado
a gesticular,
e homens de capa
de guarda-chuva,
são como seres
de um outro mundo
no meu olhar.

No longo asfalto
das avenidas
as luzes tremem
frias, molhadas,
- são como olhares
vagos, mendigos,
dos indigentes
que ninguém vê...

No lusco-fusco
da claridade
a luz escorre,
banha a cidade
pálida a fria,
como um luar
em pleno dia
e me comove
não sei por que.

Vou no meu carro
horas a fio,
sempre sozinho
por esses dias
de névoa a chuva,
sem ter razão;
nesses momentos,
só, com a minha alma
e o pensamento,
que boa e amiga
é a solidão!


Um sentimento
doce, profundo,
que vem do fundo,
me invade todo
e me faz bem,
e de repente,
longe do mundo,
dentro do mundo,
tenho o meu mundo,
andando a esmo,
como se fosse
possível mesmo
- felicidade, -
sem ter ninguém !

Vou no meu carro,
feliz, sozinho,
ouvindo as rodas
com seu chiado
no chão molhado
cantar no chão,
e o limpador
de pára-brisa
marcando alegre
cada minuto
de uma alegria
sem dimensão,
cada batida
de uma outra vida,
vida esquecida
no coração!


 ( Poema de JG de Araujo Jorge do livro
- Antologia Poética Vol. II - 1a ed. 1978 )


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