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" Ambição Socialista "
I
Sou o mais lírico socialista do mundo.
Viva a propriedade privada!
A propriedade privada de todos!
Que todos tenham a sua casa, e os mais ambiciosos
tenham duas, três, mil casas,
e que morem em todas elas se puderem.
Também sou ambicioso : hei de ter três casas.
A primeira, na cidade grande, onde me desgasto e me perco
sem nunca me encontrar, a não ser em certas madrugadas
depois que todos partiram, e então abro a janela
para a noite, que é a minha noite, estrelada ou vazia,
mas, meu Deus! a minha noite, onde posso ser eu
em paz, algumas horas.
A segunda, na serra, junto às nuvens a aos ventos frios
para semear melhor o silêncio, de poesia,
enquanto as águas cantarolam nas pedras canções imemoriais
com letras do Senhor;
e, finalmente, a terceira, na praia distante
entre amendoeiras enferrujadas e pescadores felizes,
onde as crianças poderão correr livres, como as ondas,
tatuando as brancas areias com as garatujas de seus
pés.
II
Sim, quero as minhas três casas: preciso delas
como de dois pulmões para respirar,
de dois olhos para chorar,
de dois lábios para sorrir,
de dois pés para caminhar.
Quero a alegria de saber que há uma porta em algum lugar
que me faz falta,
e que se abre a minha chave
num gesto de paz e amor, ao milagre de chegar.
E quero aquele ninho nas serras, para debruçar-me
sobre os muitos que sou, a oferecê-los
aos muitos que me esperam, na palavra e na música.
Sim, quero aquela praia, entre quatro paredes
abrindo claras janelas para o mar,
e aquelas areias invioladas que ainda cantam sob os pés
para que meus filhos se alimentem de liberdade
e cresçam no sonho das gaivotas e das vagas.
III
Com meus versos construirei minhas três casas
sobre a terra de todos
( minhas três arvores ) ,
e, por certo, hei de devolve-las, ao partir.
Eu morto, meus filhos construirão suas casas
e colherão as paisagens que desejarem
sem mim.
Partilharei o fruto da minha
poesia,
com que mato a fome de doçura do meu povo
e sua sede de liberdade.
O povo me emprestará a terra para plantar
minhas três árvores.
Nelas quero me recolher
para ouvir seus pássaros à tarde,
e com seus ramos fortes modelarei minha mesa,
minha cama, meu neto.
Nelas, nas madrugadas, - as madrugadas são as tardes dos poetas-
como um pássaro vindo de todos os céus
tornarei sempre fiel
e guardarei meu canto.
IV
Sou o mais lírico socialista do mundo. Viva a propriedade privada!
A propriedade privada de todos!
Todos terão sua casa
para cantar.
E todos nos despediremos, de mãos leves e vazias
o coração feliz da missão cumprida,
conscientes de que ninguém pode se apropriar da
obra de Deus
sem seu consentimento.
Ser livre! Saber que nada é de ninguém!
Que nada nos pertence : nem mesmo este coração
que carregamos
alguns anos
emprestado, por quem? para sonhar;
que somos feitos de nós, de nós? de quem? com pedras e ânsias
numa caminhão, sem escravos;
que nenhum remorso nos tolhe, e atravessamos o espaço
como um meteoro que cintila na noite, um segundo
e segue seu destino.
( Poema de JG de Araujo Jorge do livro
- Antologia Poética Vol. II - 1a ed. 1978 )
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