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" Quando "
Quando o pano das pálpebras cair
sobre o palco fechado das retinas
que já não podem ver,
e onde passaram todos os bonecos
e fantoches, que em vida me ajudaram
na pantomima estranha do meu Ser...
Quando as últimas luzes se extinguirem
após os derradeiros obstáculos,
e ficarem vazias minhas órbitas
como os grandes anfiteatros silenciosos
depois dos espetáculos...
Quando sobre o meu peito as minhas mãos de cera
gélidas se entrelaçarem
já sem vida,
como que se despedindo mutuamente
na última despedida...
Quando dentro da rocha do meu peito
o coração morrer... não pulsar mais,
e ficar enterrado no meu corpo
como os diamantes no interior da terra,
- trocando a sua vida humana e triste
pela vida feliz dos minerais...
Quando sobre os meus lábios entreabertos
ficar sorrindo um último sorriso,
- esse mesmo sorriso das estátuas
e dos corpos que uma alma já não tem...
Que ninguém chore ao meu redor !... Ninguém!
Mais razões haveria para o pranto
no instante em que no mundo despertei !...
E quem chorou? Ninguém chorou !
- no entanto
que ridículas festas me fizeram,
até parece que nascia um rei!
Que ao vir portanto o derradeiro dia,
o fim do meu penoso despertar,
- que haja música, risos e alegria
e que eu, apenas eu, tenha o direito
de, ao deixá-los na vida, interiormente
no meu sorriso à morte,
soluçar...
( Poema de J. G. de Araujo Jorge
do livro - Antologia
Poética - 1978 )
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