
![]()
*****************************************
" Poema do Cotidiano "
Ouço a moça que estuda piano no apartamento defronte
e outra que há um ano sobe e desce intermináveis escalas.
Ouço o choro de quatro meses da criança que brotou ao lado
num tempo ainda virgem, sem relógios.
Ouço o pregão dos garrafeiros,
a algazarra dos meninos na rua,
a mãe que chama o filho há milênios
e continuará chamando pelos séculos afora.
Ouço a buzina - sinal, do carro último tipo, elegante
que parou à espera do último pedaço de novela.
Ouço um chiado de frigideira, um rumor de água batendo
uma voz que faz pão de trigo e música.
Acima de tudo, ouço pela madrugada
esse canto do mar que transfigura as coisas, enche a noite, e leva
sobre as vagas, imagens, como restos de um naufrágio.
( Poema de J. G. de Araujo Jorge
do livro - Antologia
Poética - 1978 )
*****************************************