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Poema do Cotidiano "

  
Ouço a moça que estuda piano no apartamento defronte
e outra que há um ano sobe e desce intermináveis escalas.

Ouço o choro de quatro meses da criança que brotou ao lado
num tempo ainda virgem, sem relógios.

Ouço o pregão dos garrafeiros,
a algazarra dos meninos na rua,
a mãe que chama o filho há milênios
e continuará chamando pelos séculos afora.

Ouço a buzina - sinal, do carro último tipo, elegante
que parou à espera do último pedaço de novela.

Ouço um chiado de frigideira, um rumor de água batendo
uma voz que faz pão de trigo e música.

Acima de tudo, ouço pela madrugada
esse canto do mar que transfigura as coisas, enche a noite, e leva
sobre as vagas, imagens, como restos de um naufrágio.


  ( Poema de J. G. de Araujo Jorge
            do livro - Antologia Poética - 1978 )


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