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Pequeno Canto do Dia Burguês "
  
No apartamento pequeno que comprei com o meu trabalho,
(Oh! A angústia das letras que se venciam inexoravelmente
cobrando juros de mora)
- olho uma nesga de mar.

Acompanho atrás dos altos edifícios retalhos de sol-posto
e largos pedaços de sombra vão caindo nas ruas.

Lá embaixo, por entre as árvores imóveis
passam banhistas retardatários e ouço seus risos despreocupados.

Sentei-me aqui, esqueço o corpo, enquanto a tarde envolve as coisas
tecendo véus imponderáveis.
Na parede, nos vasos vermelhos, dois ramos pequenos
timidamente ensaiam suas folhas verdes em decoração.

Oh! O egoísmo desse momento da volta, dessa paz burguesa
sem remorsos
explicando-se em compensações,
quando os limites do mundo cabem num pequeno apartamento
nesta varanda, nestas cadeiras, neste jarro da mesa,
neste momento de abandono.

Ainda sinto no corpo a ducha forte do chuveiro.
Meu pijama leve não me deixa pensar senão coisas leves,
e tenho os pés livres, puros e primitivos, como pés gregos
em sandálias olímpicas.

Longe ficaram agora a algazarra da cidade, o esforço despendido,
o trabalho inútil que rende, que cansou e venceu...

Sentar-se e respirar... Sentar-se um pouco, em silêncio
sem ligar o rádio, sem abrir o jornal, sem pronunciar uma palavra.
- para que mais?


  ( Poema de J. G. de Araujo Jorge
            do livro - Antologia Poética - 1978 )


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