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" Fracasso "
Compreendo irmão, teu desespero sem limites,
na hora da trágica e inadiável compreensão...
A eterna expectativa, a oportunidade que deveria chegar
e se transferiu indefinidamente, a cada nova etapa,
a cada passo ansioso
na irrealidade...
Os dias que eram dias se passando, os meses que eram meses,
os anos que eram anos,
e a tua se consumindo, encurtando, atirando-te
contra ti mesmo
sem nenhuma revelação.
Os planos transferidos, amanhã, talvez mais tarde, algum dia,
mas quando?
mas quando, se tuas forças vão fugindo, se teus filhos cresceram,
se tua cabeça pendeu
se tua mulher te olha da sala com o mesmo peso nos olhos....
Tudo seria leve um dia, alto, leve e alto, estarias lá
no país dos homens felizes, confortáveis,
teus filhos iriam de automóvel para a escolar, e estudariam
sem responsabilidades
esperando a tua herança;
tua mulher poderia mesmo ler romances,
se preocupar com o destino dos humildes
nos fotogênicos chás de caridade;
usarias smoking, às vezes, e farias discursos, muitos discursos,
conhecerias apenas de nome a grande família da fome do infortúnio
prolífico e irremediável casal...
Compreendo irmão, teu desespero sem limites:
perceber de repente que já seguiu o bastante
para que não haja muito,
e sem nada ter gasto e sem nada ter vivido
ter vazia mão, a casa, os bolsos, a cabeça,
vazio o coração...
( Poema de J. G. de Araujo Jorge
do livro - Antologia
Poética - 1978 )
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