
Variações
sobre um tema banal
I
Não te esqueças que a vida é um momento que voa um efêmero instante de beleza e alento; vive pois sem temor e com desprendimento o que ela te ofertar, sem maldize-la à-toa!
E' uma nuvem que muda aos caprichos do vento! Se hoje a perdes... O tempo nunca te perdoa! Vida! Repara bem como a palavra soa! Não temas pronunciá-la com deslumbramento!
Há alguém, não sei quem é, mas disto estou seguro, que nos há de intimar num remoto futuro a dar contas da vida que um dia ganhamos...
E após tal julgamento estranho, com certeza havemos de sofrer e pagar, se em defesa não der-mos as razões porque a desperdiçamos...
II
O que a vida te der, seja migalha embora, se é migalha de amor, de prazer, de alegria, - colhe-a! que esta migalha é o pão de cada dia, e há de um dia chorar quem hoje a jogar fora!
Quem muito quer, despreza o pouco, sempre chora, ou quem indiferente segue, de alma fria, há de um dia parar e há de lembrar-se um dia do clarão que se foi numa longínqua aurora!
Então, nada haverá... nem mais frutos nos ramos nem migalhas de amor - se outrora as desprezados,- e a indiferença de ontem sofre arrependida...
E ante a sombra que vem velar nosso desgosto procuramos em vão uma aurora perdida na luz que desespera e morre num sol-posto!
III
Hás de te arrepender sempre tarde demais dos momentos de amor ou de puro prazer que com medo talvez, não quiseste colher e ficaram em branco ... inúteis, para trás ...
Vive com todo o ardor de que fores capaz e a essa paixão entrega, em êxtase, teu Ser. Ah! bem pior do que a dor vivida, podes crer, é a dor de não poder vivê-la nunca mais!
Não receies sofrer, que é vida o sofrimento. Receia, e com razão - cada dia perdido sem que o amor te arrebate ou te perca um momento.
De nada há de servir-te o desespero teu, pois mais vale chorar o amor que foi vivido que lastimar o amor que um dia se perdeu!
IV
Quantas vezes já ouvi dizer amargamente quando a noite do tempo chegou sem alarde:
"só agora depois que o coração não arde, não arde o coração... e a alma já não sente... - vejo, quanto perdi, irremediavelmente, por ter sido na vida, um tímido, um covarde! Ah! se pudesse ser o que fui, novamente!"
Quantas vezes já ouvi dizer... mas muito tarde...
Sofrimento absurdo esse arrependimento de tudo ter podido alcançar num momento e tudo ter perdido sem erguer a mão...
E abatido ir sentido a invasão desse tédio que vai enregelando aos poucos, sem remédio: a alma, o sonho, a esperança, a vida, o coração!
V
Antes se arrepender do que se fez um dia por sincero prazer pondo tudo de lado, do que o arrependimento de se ter deixado de fazer, por temor... - se o coração pedia.
Se colheste a emoção com intensa alegria e se foste feliz e marcaste o passado, bendiz esse segundo ou essa hora, - esse dia em que o mundo foi teu, vencido e conquistado...
A vida é uma aventura e é preciso vivê-la! Nada há que justifique uma abstinência ao mundo, - ergue a mão para o céu e colhe a tua estrela!
E' a hora do Natal... A estrela é o teu presente! Mesmo que ela cintile apenas um segundo, contigo hás de levá-la indefinidamente...
VI
Escreve com teu sangue o teu próprio romance enche-o com teu amor, misto de sonho e vinho, mais vale ter no peito enterrado um espinho depois - que a solidão até onde a vista alcance...
Sofrimento é afinal perceber, de relance, que já estamos ao fim de um imenso caminho e que tudo que esteve um dia ao nosso alcance passou... E olhar em torno, e se sentir sozinho...
Não, não tentes voltar, porque a vida não volta... Jogarás contra o vento a angústia e o desespero e em espumas verás tua inútil revolta. . .
Vive, pois... E se assim te falo, e isso te digo, é que poderás ver no instante derradeiro que se a vida foi vã a memória é um castigo!
( Poema de JG de
Araujo Jorge in " Concerto a 4 Mãos" - 1961 )
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