
Exortação
Sonha, poeta!... O sonho é o entorpecente, o mais sublime tóxico do mundo, a morfina ideal do teu viver... -sonha um sonho infinito, azul, profundo, indefinidamente, e esquece a vida que tu tens presente pela vida maior que há no teu Ser!
Esquece tudo, o próprio mundo esquece, e esquece a tua vida, porque a tua vida vale mais se a souberes fazer grande e cada vez maior na tua exortação... Se o teu destino é estranho e é diferente, se não nasceste igual a toda gente, - ensina o canto livre e a vida nova aos Prometeus da Razão!
Faze tu mesmo, o teu próprio Universo, - tua terra - teu céu - tua vida - teu verso... E o Universo dos homens que te importa então? Sê louco!... Que a loucura é essa subida de pequenez restrita da verdade à grandeza infinita da Ilusão!
O teu sonho não traz o pedestal na terra, teu espírito é assim como um condor boiando nos espaços azuis... Sobe... devassa os céus, de lado a lado, vê se existe algum poeta, além, por outros mundos, esse poeta que à noite escreve com as estrelas, não tendo ao solo acorrentado os pés!
Sonha, poeta!... Eu quero ver-te aflito sacudir os teus braços na amplidão a ferir com teus dedos o Infinito...
E ao baixar tuas mãos, de novo ao vê-las, hás de exclamar, tenho-as de ouro e lilás!; e olhando para o céu verás o céu sangrando de estrelas, e as tuas mãos, a transbordar estrelas assombrado verás!
Não trouxeste o destino de arrastar a tua ânsia na terra onde os homens pregados vão de rastros...
Solta a tua alma azul no espaço azul, os teu sonhos semelham-se a bandeiras fremindo ao vento no cordel dos mastros! - vai brincar com os cometas sem destino e conversar com os astros!
Sonha! Que este sonhar só bem te faz! Sê sempre o mesmo: Um louco! Um incomum! Não te sujeites a domínio algum, e que o teu sonho não acabe mais!
( Poema de JG de Araujo Jorge
extraído do livro "Bazar de Ritmos" 1a
edição1935 ) 
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