
Nossa
cama Olho nossa cama. Palco vazio sem o drama, sem a comédia, do nosso amor. A nossa cama branca, branca página, em silêncio, de onde tudo se apagou... (Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aquêles gemidos, aquêles carinhos que a mão do tempo raspou, como nos velhos pergaminhos?...) A nossa cama imensa, como a tua ausência, tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama, e era, entretanto, um mundo, de anseios, de viagens, de prazer, - oceano, que teve ondas e gritos encapelados, nêle nos debatemos tanta vez como náufragos a nadar... e a morrer... Olho a nossa cama, palca vazio, em nosso quarto, - teatro fechado que não se reabrirá nunca mais... Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama alva cama, em sua solidão em seu alvor... Nossa cama - campa (sem inscrição) do nosso amor. ( Poema de JG de Araujo Jorge, do livro Quatro Damas 1965 ) 
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