36 - O POETA NA PRAÇA - ( 1a edição - 1981)

  Não há incompatibilidade entre o poeta e o político. Aí estão os
exemplos no mundo contemporâneo: Lorca, Neruda, Mao Tsé-tung,
Ho Chi Minh, Lumumba, Senghor, Agostinho Neto, Nicolas
Guilhen, poetas líricos, sociais e grandes líderes de seus povos.
Em mim, são como duas faces de uma mesma moeda.
Na Faculdade de Direito, fundei uma Academia de Letras, fui
orador do CACO, da União Democrática Estudantil,
(germe da UNE), presidente de Diretório, do 1o Congresso nacional
da Juventude, diretor de jornais, publiquei meus primeiros livros,
atuei em movimentos políticos e populares.
Costumo dizer:
"fiz curso de
Felinto Müller e do Gal. Newton Cavalcanti."
Lia Marx, Spengler, Rousseau, e Castro Alves, Alvares Azevedo,
Tobias Barreto. Em 1943, uma posição humanista: "O Canto da
Terra". Em 1947, uma definição política: "Estrela da Terra".
"Na encruzilhada de minha poesia /  Cristo e Marx se encontrarão
e acima de tudo cantarei a liberdade" Antecipava em 30 anos a
"Populorum Progressio", e a revolução da Igreja de João XXIII
tentando conciliar o cristianismo  e o socialismo. Quando a crítica
metia o rabo entre as pernas com medo da ditadura, e os poetas,
como caramujos de jardim enclausuravam-se em hermetismos
artificiais, lancei livros que o DIP apreendeu, participei de comícios
dissolvidos a bala, vi meu programa "Encontro com a Poesia" ser
retirado do ar, pelo SNI, então dirigido pelo Gal. Golberi do Couto
e Silva, no dia do lançamento de "Mensagem".
Mas proclamava em minha poesia neo-romântica: "Não me
envergonho nunca de falar de amor"  ou , "Acima de tudo cantarei
o amor./ O de Cristo e Confúcio, o de Romeu e D. Juan/ o de Che  
Guevara./ Botarem-me então no "índex". E passaram a coachar:
"É o poeta das moças." E daí?  Poeta das moças,  dos moços, e com
isto, sinto-me, como dizia Romain Roland, "um contemporâneo do
futuro".
Subestimam o leitor, o grande e insuspeito juiz. Vingam-se dos que
tem leitores, eles precisam de cicerones para poderem ser entendidos,
e parodiam
Édipo:  "Decifra-me, ou morrerás" Complexados. Shakespeare foi,
em seu tempo, considerado "um poeta açucarado". Baudelaire,
  preso e acusado de imoral.  No Brasil tenho ouvido restrições a
Vinícius porque  "desceu até a canção popular;  a Jorge amado, que
está "transigindo com o público";  Chico Buarque, classificado como
compositor  "de laboratório".
Drummond, o grande poeta, se queixa num de seus poemas da
"galhofa" de alguns. Console-se. Teria que me queixar da galhofa
maior de certa  crítica, "não-li-não-gostei" , e de certos intelectuais,
filhos de encalhes, da poeira das estantes, e ininteligíveis ao próprio
bestunto. Neste livro reuni poemas de sentido social e político, de sete
livros publicados e de um ainda inédito. Uma face da minha poesia.
A que sei fazer. A que, para minha alegria,  "faz ciranda com o povo
nas ruas".
-J.G. de Araujo Jorge
Brasília, maio de 1981

Obs: Os oito livros  que compõe "O Poeta na Praça"  são:
TEMPO SERÁ - ..........( 1986).Publicado alguns meses antes da sua
morte.
O PODER DA FLOR .......(1970)
CANTIGA DO SÓ......... (1965)
MENSAGEM ..............(1966)
A OUTRA FACE.......... (1949)
ESTRELA DA TERRA...... (1947)
O CANTO DA TERRA ..... (1943)
CÂNTICOS.............. (1941)