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10- HARPA SUBMERSA ( 1a edição - 1952 ), em 3.a edição.
Os instrumentos de Araujo Jorge que eram apenas violino e piano,
agora se desdobram. O piano, é harpa. O violino, é saxofone. Sem
perder o ritmo clássico, o embalo de sua formação, a poesia jorgeana
ganha novas formas de expressão. Tende a um certo impressionismo
poético, liberta-se ou evita o descritivo parnasiano. Harpa Submersa
é um longo e doloroso poema de amor. De amor, ou de amores?
Um, dois, talvez três amores se alternam em páginas de grande
densidade lírica. Os primeiros fastios, os primeiros cansaços de um
coração marinheiro. O poeta mesmo se define: "Eu sou um
marinheiro morto." Entretanto, deixa vivos para sempre, poemas
como este:
VÍCIO
Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invades tudo, e é impossível
te expulsar por que então já sou eu que te procuro.
Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim
mesmo entras pelo pensamento, - clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.
E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
e me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
e a caminhar a esmo...
Chegas - como uma crise a um asmático, - e então preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço, se não te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo...
Depois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão, alcançar-te é um suplício...
Teu amor para mim - é humilhante a confissão, -
não é amor, é vício...