9 - A OUTRA FACE (1a edição - 1949), em 4a  edição.

Este livro marca, sob o ponto de vista de estilo, uma transformação
na poética jorgeana já em "Estrela da Terra", o poeta, talvez levado
pela força da inspiração e pelo sentido épico de alguns poemas,
rompe certos moldes clássicos até então adotados.  A partir de "A
Outra Face", Araujo Jorge maneja o verso com maior liberdade
rítmica, e com uma tendência subjetiva, anti-parnasiana.
Este livro, como os demais, fixou uma nova etapa de sua obra. 
Há um como que amadurecimento por dentro, do poeta, e, um
aburguesamento por fora, de sua vida.  Temas prosaicos e sociais
se alternam com notas líricas, vagamente filosóficas.
Ao mesmo tempo em que o leitor encontrará um poema com o título
de "A geladeira", encontrará outro como este:

MEU MUNDO

Toda tarde digo para mim mesmo: afinal,
eis o meu mundo.

O mesmo beijo, o mesmo quarto claro, com seu assoalho brilhante
refletindo o meu passo;
as mesmas paredes brancas me envolvendo com afáveis gestos de
paz; o mesmo rádio silencioso, entre livros empilhados, a mesma
estante fechada que a um gesto meu descobre tesouros como velha
mala  de pirata.

Afinal, eis o meu mundo.
A mesma insubstituível companhia,
a mesma presença até
quando longe dos olhos,
a mesma voz perguntando, a mesma voz respondendo,
o mesmo odor suave da janta, do tempero cozinhado,
a mesma impressão de quem chega de ombros nus e veste
ajudado um macio agasalho.

Afinal, eis o meu mundo.
Como o pescador solitário, diante das vagas:
- eis o meu mar.

Como o pássaro do dilúvio diante do primeiro ramo:
-  afinal, eis a terra !