" Universo à Vista "
Estamos nos
limites de uma época - momento grave da entrega do bastão, na maratona da História.
Fim de etapa, começo de outra. Dialeticamente chegamos a uma nova
síntese. O homem se encontra, não apenas em face de um mundo novo, mas de novos
mundos, tal como a civilização medieval na era dos grandes descobrimentos
marítimos. Não foi sem razão, portanto, que chamaram os astronautas da Apolo-8 de
Colombos do espaço. Do mesmo modo que os Colombos, os Magalhães, dilataram o
mundinho mediterrâneo, o fechado maré nostrum romano, e deram ao Atlas
terrestre suas proporções atuais, os recentes feitos da Astronáutica subverteram as
dimensões da nossa acanhada geografia.
-Universo à vista!
O Gênesis tem que ser reescrito. No princípio Deus criou os
céus... e as terras. Muitas terras gravitando em imensos vazios, mas com certeza
habitadas por outros seres, parecidos ou não com os Adões e Evas do perdido Éden. Subitamente somos passado e futuro. Decolamos de nós mesmos, do que
éramos, como um foguete rompendo a área gravitacional da Terra, e investindo
o desconhecido. Olhamo-nos no espelho, e não nos reconhecemos em corpo e alma. Nossas
idéias terão que ser reestruturadas em função deste deslocamento físico, das
alterações de nossa visão cultural; da imprevista realidade descortinada; do homem
inédito em que nos sentimos. Saímos da casca, como o pinto, e devemos encarar tal fato
como uma projeção natural do nosso eu ante as espantosas conquistas da ciência moderna.
Todos nós crescemos, e vivemos, sabendo que a Terra é redonda, que
gira em torno de si mesma, e entorno do Sol. Está nos compêndios que compulsamos desde o
curso primário, no globo terrestre que a professora tinha em cima da mesa. Mas, no fundo,
todos nós esperávamos pela prova real dessa velha lição. Como S. Tomé:
Ver para crer. Já ouvi um garoto perguntar ao pai, como é que o japonês
podia andar de cabeça para baixo, do outro lado do mundo? E da ingênua conjetura de um
companheiro: por que um avião parado no ar, não fazia a volta à Terra em 24
horas, se ela completa seu giro nesse tempo?
As explicações da lei de Newton nos deixavam incrédulos, a pensar
neste estranho mundo redondo, a rodar nos céus, com todas as coisas presas no chão, sem
que as imensas massas líquidas dos oceanos não se soltassem, e com elas, algas, peixes,
baleias, tubarões, a voarem como pássaros!
Os garotos de agora não terão motivos de dúvida. Viram, como eu vi,
na televisão, os filmes tirados por Borman, Lovel e Anders, quando a mais de 400 mil
quilômetros de nosso planeta, circunavegavam a Lua (Três meses depois de
escrita esta crônica, a 20 de julho de 1969, Armstrong, Aldrin e Collina, os três
astronautas norte-americanos chegaram a lua, tendo os dois primeiros descido na
superfície lunar). E todos compreendemos, então, que o homem deixou de ser um
simples habitante terreno. Seu espaço ampliou-se. Até
agora, víamos tudo, do chão, colados, como as serpentes. De repente, ultrapassamos as
próprias aves - somos aves de infinito vôo, - e é como se descobríssemos a Terra -
habitantes de outro planeta - livres das milenares raízes que nos agarram ao solo.
Einstein se imaginou numa estrela, Arturus, para, livre da lei da gravidade, descobrir a
sua teoria da relatividade. Borman e seus companheiros se encontram realmente na situação
imaginada pelo gênio de Einstein, e devem ter descoberto uma teoria mais simples: a da
humanidade. Paradoxalmente foi preciso que se afastassem da Terra para se humanizarem,
no sentido de compreenderem ao mesmo tempo a insignificância e a grandeza do homem. O
Universo, apenas palavra, poesia - tem agora um sentido tão próximo, palpável, como
praia, mulher, edifício, sorvete.
Lovel declarou, vendo a Terra à distância, como uma bola iluminada,
que, naquele momento, duvidou que ela pudesse ser habitada.
Assistindo o filme, e a nos repetirmos a cada instante: inacreditável!
- também perguntamos: será que há seres naquela lua grande? E Lovel
concluiu: O mundo pareceu-me então, realmente um mundo só. Positivamente, como se falar em guerras por palmos (palmos, mesmo) de
terra, diante dessa imagem extraordinária? Eu, por mim, não pude conter a irritação,
quando, logo após o locutor se referia à disputa entre árabes e judeus, por nesgas de
deserto, de areal, na península do Sinai. Tudo me pareceu de proporções liliputianas!
Que tacanha a mentalidade de nossos estadistas! Se eu fosse Borman, a primeira coisa que
teria proposto ao meu governo ao sair da cápsula, na volta seria: Que seja criado um governo Universal! Não somos mais que um átomo a girar nos espaços. É estúpido que
permaneçamos a usar um sistema métrico mental ultrapassado; que insistamos em nos
autodestruir e a nos entre devorar.
Tal apelo, hoje, não saberia mais a utopia. Se Borman o fizesse, teria
completado a sua oração, ao ler, no Cosmo, um
capítulo do Gênesis. Sim, o Gênesis terá que ser reescrito. Esta é
a hora de revisarmos valores, idéias, e até palavras. Fronteiras, pátrias, religiões,
formas arcaicas de uma civilização para trás, devem e terão que ser necessariamente
reconceituadas. As ONUS, OEAS, UNESCOS, meras siglas sem significado real, não
funcionarão enquanto o nosso mundo subdividido continuar sujeito à espoliação dos
fracos pelos fortes, às competições desleais entre ricos e nobres, com uma
infra-estrutura anterior à era da energia atômica, da astronáutica, dos transplantes,
da eletrônica.
Há um mundo novo pela frente. Um mundo que deverá se organizar à
base das necessidades fundamentais do homem, físicas e culturais, despojando as
sociedades de inúteis e anacrônicos aparatos bélicos. As fardas, para os museus. As fronteiras não estão mais na terra. As pátrias têm novo sentido.
As religiões serão reinventadas, para que permaneçam arrimo e esperança. A Bíblia,
velha colcha de retalhos, remendada pelos hebreus, será relegada à sua condição de
mitologia lendária do Oriente. A Igreja não considera mais a Terra o centro do Universo,
renegou Ptolomeu, admite outros mundos habitados. Concordou afinal com Galileu, e quem
sabe? -com Renan. Re-estudar a natureza mística de Cristo não será mais heresia.
De quantos Cristos precisaria Deus para redimir incontáveis humanidades? As fronteiras são rabiscos de giz, num quadro-negro, que as gerações
apagam com facilidade espantosa. O nacionalismo, já o definia Goethe, como sarampo
dos povos, doença primária, e passageira. As pátrias, armadas, mais que amadas,
caducaram. Absurdo que se justifiquem genocídios brutais, à base de conceitos
artificialmente alimentados ao som de bandas de música e de discursos políticos. O homem
é um só. O Universo, o seu mundo. E é diante desta visão, desta realidade nova, que
deveremos reconstruir-nos para conquistar os caminhos que Deus projetou à nossa frente.
À maneira dos velhos marinheiros, do alto dos mastros das caravelas, agora podemos
gritar: - Universo à vista!
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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