" Uma Casa Na Lembrança "
Com a mecanização avassalante da vida moderna, muitas
vezes me pergunto qual será a imagem do lar do futuro? A dona-de-casa trabalha fora, absorvida por mil e uma preocupações
estranhas ao seu tradicional mundo doméstico;
desaparecem as empregadas; os apartamentos se resumem
a cubículos, com peças únicas, escamoteáveis, armários embutidos, sofás
e poltronas-camas, quitinetes; aparelhos elétricos capazes de
improvisar papas liquidificadas à guisa de refeições. Os filhos
amontoam-se em camas-beliches, em espaços exíguos de camarotes de navio.
Amanhã, numa sociedade-síntese, em que se unirão as conquistas do
conforto capitalista ao sistema de vida socialista, como sobreviverão o homem, a mulher e
os filhos?
Francamente, não sei se serão agradáveis as casas dos nossos
tetranetos. E quando digo casa, na me refiro apenas ao espaço onde nos recolhemos depois
da luta de cada dia, mais justamente aos elementos humanos que a compõem e que, somados,
transforma a casa em lar.
Confesso que não gosto de imaginar essa casa solitária, despojada de
tantos valores tradicionais, espécie de robô habitado,
onde as coisas acontecem sumariamente, a simples toques mágicos,
sem a presença necessária e o calor da convivência humana.
Lembro-me de como me senti, certa vez, num pós-operatório,
imobilizado num leito de hospital, ligado por tubos que me alimentavam e satisfaziam
necessidades, numa cama que se mexia por mim.
Temo que a casa do futuro desumanize o
homem. Tire-lhe uns restos de paisagem que ainda resistem
como decoração. A intromissão da máquina em nossa vida
particular vai reduzindo ao mínimo as perspectivas desse
poético mundo prosaico que é o mundo de nossas casas, tão rico de belezas singelas em
seu aconchego e em sua tranqüilidade.
A casa do futuro talvez acabe tornando o homem mais solitário que o
faroleiro, montado numa penha perdida, em mar alto.
E como será esse homem que prescinde de seus semelhantes, que vive
cercado de instrumentos, alimentando-se de pastilhas, procriando
por inseminação artificial, em companhia de seres que estarão mais longe
de seu espírito que os planetas de seu universo?
Não acredito que a dona-de-casa feliz seja a
dona-de-casa sem casa, sem empregadas, para quem os afazeres naturais que
constituem a sua vida e a sua alegria se transformem em gestos
mecânicos, em atos frios e automáticos. Eu, por mim, gosto das casas grandes,
antigas, impregnadas de histórias, de tradições. Numa delas deixei minha
infância, minha adolescência. E quando falo de casas antigas, lembro-me da casa de meu
avô, o casarão dos Tinoco, na Rua da Piedade, em Bota-fogo. Está num
poema:
Me lembro da minha rua velha rua da Piedade Mudou pra Clarice Índio Clarisse Índio do Brasil; o nome de alguma dama muito importante, quem sabe? Muito importante, quem viu? (A Outra Face).
Bem que o guardo na memória, abrindo suas janelas altas, com grades de
ferro, para a rua; o jardim lateral, a grande amendoeira, as acácias; e ao fundo, como
uma vaga reminiscência das senzalas, as casas das empregadas. E me ocorrem visões de
nossa velha aristocracia patriarcal.
Os romances de Manuel de Macedo e de Alencar fixaram para sempre os
aspectos e a paisagem dessa sociedade de fins do século passado. Casas com telhados
coloniais; janelas com gelosias românticas; amplas
varandas com cadeiras de balanço, com redes preguiçosas, arrastando franjados no
assoalho; quintais com uma infinita variedade de árvores, cada vez mais raras: abieiros,
caramboleiras, sapotizeiros; salas-de-visitas com lustres e candelabros como jóias
cintilantes, espelhos bisotês, estofados rococós; uma
quantidade de quadros, salas, corredores, onde os filhos dos senhores
brancos andavam de cambulhada com toda uma gama de mulatinhos vivos, filhos das escravas,
das mucamas, às vezes com o senhor branco, cuja elástica moral era a do faça
o que eu digo e não o que eu faço...
O casarão do meu avô Tinoco era, evidentemente, mais recente, mas
recendia a sociedade patriarcal, quase ao tempo dos sinhôs e das
sinhás, quando os maridos tratavam respeitosamente as esposas por Vossa
Mercê... Lá estava, junto ao quarto de dormir, o oratório dedicado a Nossa Senhora da
Conceição, com a candeia de azeite sempre acesa, as jarras com flores, a palha benta.
E a copa e a cozinha, enormes, fervilhantes de empregadas e tias (nesse
tempo eu tinha 16!) nos dias de festas, onde pontificava a Maria Cozinheira e seus
quitutes! Minha infância está presa à memória pelo paladar. Falar nela é ficar com
água na boca, e lembrar-me da hora do lanche, quando a grande mesa da sala-de-jantar
(nosso reino encantado!) ficava rodeada por minha avó, tias, primos, primas e
suas amigas. Lá estavam os biscoitos de polvilho, os rocamboles, os pãezinhos de minuto,
de bolos, as tortas, por entre bules fumegantes de chocolate, café, chá, leite. E nos
aniversários e festas vinham os quindins, canudinhos de coco, baba-de-moça, as ameixas
recheadas, bolos de nozes, que sei eu? Sim, ficou-me no coração a nostalgia das casas-grandes, povoadas pelo
bulício e a algazarra de tantos parentes e amigos, numa época em que as próprias
empregadas como que faziam parte da família também. Até hoje com a carapinha algodoada,
ainda vive a Maria Cozinheira, mãe-preta de nossa infância, que recorda com os olhos
marejados de lágrimas aquele tempo. E não me esqueci também da Juventina, da
Conceição, da Adriana, e até das babás, moças e roliças, que me ajudaram em algumas
primeiras lições de coisas... Não sei como serão as casas
do futuro, cada vez mais apartamentos, ou apertamentos. Mas não trocaria, por
nada deste mundo, algumas das casas da minha infância, intactas, de pé, nas ruas da
memória e do coração.
As casas são como seres que nos envolvem, com suas paredes, nos
abrigam e protegem; nos falam; partilham de tantos dos nossos momentos; nos amam e passam,
e às vezes morrem, como entes queridos.
Assim ficou o velho casarão de meu avô Tinoco: não como uma casa
comum, mas como a lembrança de um primeiro amor, ideal que nunca se esquece e que não
morre nunca!
( Crônicas de JG de Araujo Jorge extraído do
livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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