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Uma Aventura "Espacial"

        
         Uma operação cirúrgica é sempre uma aventura. Como a de um astronauta que se mete numa cápsula, ou mais emocionante ainda. O astronauta sabe que sua viagem tem volta. Nós, pacientes, quando “entramos em órbita”, com a anestesia geral, estamos sempre em vôo cego, a caminho de mundos imprevisíveis.
    Me lembro daquela hora glacial em que me apanharam no quarto, como inválido, colocaram-me num carrinho, metido apenas numa vaga e curta camisola, pelado como um bebê, e me tocaram para “o espaço”...
    Para trás: dois olhos com lágrimas, um embargado “até logo”.
    Para a frente, o que Deus quisesse, como eu gostaria de dizer, com a convicção da verdadeira fé. Pelos lados, os corredores cheios de gente, de gente de um mundo fantástico, subitamente irreal, que (ó surpresa!), não tomava conhecimento de minha passagem. Enfermeiras, médicos, doentes em pijamas, camas com enfermos, e o carrinho deslizando.
    Portas se abanando, abrindo, fechando, e o carrinho deslizando. Outras enfermeiras se aproximando, confirmando a entrega. Eu não me sentia um ser, era uma coisa, um embrulho, um pacote que ia ser despachado, com destino certo (?). E finalmente, a sala de operações. Sideral. Refrigerada. Estava já fora da cápsula. Um medo primitivo, como um lagarto a disparar pela espinha. Um cheiro forte de éter.
    A instrumentista, morena, minha fã, (soube depois), sorriu, e disse qualquer coisa. O anestesista (não o vi), por trás, ajeitou-me o braço direito, descobriu-me o abdome. Duas mãos envolveram-me a cabeça em lençóis, como se me botassem um turbante de faquir.
    De repente, uma voz quente, cordial, de um médico: (Soube depois seu nome: Dr. Joseph Schindler, baiano).
    ? Como é, poeta? O negócio da pra um poema?
    Sorri gelado. Pensei: “Isto é tragédia grega em ato talvez”. Mas não tive coragem para o humor. E calei.
    As enfermeiras comentavam: “O Dr. Pedro Abdala não deve demorar. São 9,30, é a hora dele”. E era. A dele e a minha. 9,39, da manhã, do dia 29 de novembro, (1968) 2a feira, no HSE no Rio.
    Sorridente, afável, o D. Abdala chegou, cumprimentou-me rapidamente, e fez o sinal convencional para a enfermeira. A dose já estava pronta, o braço também. É como desligar uma lâmpada, apaga-la.
    Voltei a mim, duas horas depois, já no quarto, ouvindo vozes distantes comentando os fatos. Não podia me assenhorear deles, mas compreendi que tudo correra bem.
    Bem, mas não falemos das primeiras 48 horas, nos dois dias pós-operatórios. Eu me sentia como um robô ligado ao mundo por tantas sondas, alimentando-me artificialmente como um parasita, com os tubos plásticos de soro, coloridos, pendurados a minha frente, a se sucederem.
    Sim, tudo correra bem. Tirando a vesícula, os exames pré-operatórios provaram que tudo estava bem. Quanto à vesícula, podia adaptar o verso de Drummond: “No meio da vesícula tinha duas pedras.”
    Ainda bem que as “pedras no caminho” eram pequenas (como duas azeitonas), fáceis de remover. Tantas há que barram definitivamente a passagem!
    Mas, o que desejo especialmente contar-lhes, é sobre certa madrugada. As noites nos hospitais são longas como trilhas no deserto; povoadas de infinitas sugestões.
    Depois que conseguira a minha passagem de volta dos “espaços siderais” da anestesia, eu não pudera dormir. As primeiras noites, não estranhei: sou noctâmbulo nato. Como os gatos, ou como a lua, me revelo melhor no negativo da noite. Às vezes, o imenso Hospital dos Servidores, que durante o dia fervilha de sons, de vozes, de ruídos de carretas e até de rumores de pratos e panelas (meu quarto ficava próximo à copa), mergulhava num silêncio grave de catedral enferma. Meu quarto, o 941, no 9? andar, abre sua larga porta avarandada, para a paisagem do porto. Lá embaixo os armazéns, à noite, também silenciosos, empanzinados como ventres burgueses; os finos guindastes recurvados, em longas filas, em guarda. A diante, os mastros e chaminés decepados pelos telhados das docas; depois, a baía e os vultos dos navios ancorados ao léu. Pude analisar em detalhes a paisagem, durante dias e noites. Ao fundo, o perfil da Serra dos Órgãos, com as tubulações de granito das montanhas, sugerindo mesmo órgãos musicais, e o Dedo de Deus.
    Um dos navios era a minha árvore de Natal: o “Princesa Isabel”, todo iluminado. Mudava lentamente de posição, ao empuxe das correntes, e suas fieiras de luzes multiplicavam-se no espelho do mar. E eu ficava a imaginas a vida e a alegria dos que, àquelas horas, se encontravam a bordo, enquanto do meu dolorido mirante, anonimamente, sonhava com uma viagem, algum dia.
    As primeiras noites, portanto, não estranhei. Não pedi ajuda médica. Às 12,30, religiosamente, a enfermeira acendia a luz, me aplicava uma injeção, me mandava engolir duas ou três drágeas e saía, para voltas às 6 da manhã.
    Mas, na quarta noite, eu me sentia exausto. Não eram apenas o desconforto natural do corpo na mesma posição, a fraqueza geral, era um cansaço que se localizava principalmente na cabeça pesada, nos olhos ardendo, um mal-estar crescente. Eu já emitira o meu SOS. E às 23,30, a enfermeira, de seringa em punho, manipulou-me a dose benfazeja de paz. Adormeci. E o adormecer não foi nada de extraordinário. O extraordinário foi o despertar.
    De repente, em plena madrugada, lá pelas 4 da manhã, depois de 5 horas de sono, abri os olhos. Da minha cama alta vislumbrava pela janela a noite serena e iluminada, com uma gaze branca de nuvem a esgarçar-se, fora a fora. Uma aragem fresca de serra soprava vagamente. Vagamente, longinquamente, as estrelas faiscavam, nítidas.
    O primeiro momento foi de sobressalto, um estremecimento indescritível. Abri os olhos, e pensara: “Será que não morri? Essa paz, essa beleza serena, essa frescura do ar, essa tranqüilidade que me invadia o corpo e me ausentava dele. Deve ser assim, do outro lado, Tão perfeita era a paz; meu bem-estar, tão completo, tão extraterreno, que temi, sim temi, numa rápida fração de segundo, que tivesse morrido e, como na imaginação infantil, chegado no céu”.
    Mas logo tomei posse de mim mesmo, de meus sentidos. Mexi-me, e o corpo doeu. Continuava ancorado a Terra. Mas fiquei por uma hora, de olhos abertos, a agradecer a alguém aquele instante, aquela noite, aquelas emoções.
    São os momentos que contam em nossa vida. Às vezes, depois de anos percorridos, quando tentamos revisar o que passamos, descobrimos que não se viveu nada. Não restou sequer uma hora de enlevo, de paz sublime, de autêntica alegria, um segundo de imorredoura felicidade. Quando fizer um balanço de minha vida, esse segundo valerá uma eternidade, e compensará tantas horas inúteis e vazias. Como disse Keats “A thing of beauty is a joy for ever.”     
         

( Crônicas  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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