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" Um Soneto de Amor, Espanhol "

        
              Traduzir é fácil? É difícil? Eis uma experiência nova, a que me submeti, quando resolvi organizar os volumes II e III da antologia
“Os Mais Belos Sonetos Que o Amor Inspirou ”,  constituídos  por  sonetos  de  poetas  de   todo  o  mundo, transladados para o português.           A tentativa transformou-se numa aventura empolgante, num desafio, atraente como um novo amor.        E o resultado é que traduzi  mais  de   cem  sonetos,  e  com  a  equipe que me ajudou, acabamos por proporcionar aos leitores brasileiros, a maior mostra de poesia latino-americana
já vertida para o nosso idioma.
    Encontro-me, pois em condições de tentar uma resposta àquelas perguntas: às vezes, é fácil, os versos parecem que já estão prontos, inteiros, é só ir ajeitando as palavras  correspondentes,  como  um  delicado   jogo  de  paciência.      Neste caso incluímos   alguns  trabalhos  de  poetas  espanhóis,  franceses   ou  italianos,  cujas línguas, neo-latinas, são irmãs da nossa.
        Mas,
(e isto é o mais comum), as dificuldades são quase intransponíveis. Basta
às vezes uma pequenina
“pedra no caminho” para que não se possa seguir adiante. O  detalhe , aparentemente  insignificante,   permanece  irredutível,  e inutilmente tentamos contorna-los por mil atalhos diferente.     Em vão.
           Redunda inútil o nosso esforço. E vamos chegar à conclusão de que, ou nos despojamos  de  alguns   apetrechos  clássicos, formais, (as rimas, a métrica, a fiel reprodução de cada figura de linguagem), ou não conseguiremos atingir o objetivo. Tive um exemplo do que afirmo, quando  traduzi o belo soneto,  claro todo ele, em sua construção   léxica  e  lírica:  Anhélos,  do  moderno   poeta espanhol Francisco Rodrigues Marin.
    O “nó Gordio” estava em seus dois primeiros versos, tão fáceis, tão simples na aparência:

                                   “Agua quisiera ser, luz e alma mia,
                                que com su transparencia te brindara”.


    Mantendo as rimas, teria em português inha e não ia, do espanhol. E agravando o caso, o  célebre  cacófato  camoniano,  perdoável   no  genial  português,  em sua linguagem quinhentista, mas imperdoável hoje:

                                 “Água eu quisera ser, luz e alma minha”.

            As rimas são
“pequenos déspotas” que nos impõe suas idéias, e nos obrigam muitas vezes  a   enveredar  por  caminhos imprevisíveis.   É bem verdade, que nos levam, também,  a  surpresas  agradáveis,  em  nossa   criação.    Mas, de qualquer forma,  desvirtuam  a   idéia matriz, e quando nos damos conta, encontramo-nos em roteiro   inteiramente  diverso  do  que  programáramos.      Os poetas, inadvertidos Argonautas,  se  deixam   arrastar por seus cantos de  sereia. Nós que convivemos com elas, que as conhecemos de longa data, percebemos suas ciladas, embora nem sempre possamos nos livrar delas.
    Pela simples observação das rimas de um poema, de suas   correspondências em nosso idioma, concluímos logo se deveremos mantê-las ou não. Nas tentativas que fizemos para traduzir o soneto de Rodriguez Marin, se nos mantínhamos presos às rimas, e à fidelidade das palavras,  nada   conseguíamos.    Optamos então por uma libertação de certos detalhes, para  nos  fixarmos  apenas  na  concepção   geral da obra. E acabamos por vencer a “ batalha ” com uma adaptação.    O importante, no original, é a idéia que serviu de tema à inspiração.     Baseou-se o poeta na velha e primitiva teoria dos filósofos gregos que o
Universo é formado de quatro elementos  água, ar, fogo e terra. Partindo daí, e apropriando-se da idéia, conscientemente ou não, transfigurou-a   pelo  sentimento,  transformando-a  de  filosofia em poesia, de concepção filosófica numa das mais lindas declarações de amor que já li.
    Eis o original, em espanhol:

ANHELOS
Agua quisiera ser, luz y alma mia,
que com su transparencia te brindara;
porque tu dulce boca me gustara,
no apagara tu sed, la encenderia.

Viento quisiera ser: em noche umbria
callado hasta tu lecho penetrara
y aspirar por tus labios me dejara,
y mi vida en la tuya fundiria.

Fuego quisiera ser para abrasar-te
en un volcán de amor, ah! estatua inerte,
sorda a las quejas de quien supo amar-te!

Y después, para siempre poseerte,
tierra quisiera ser, y disputarte
celoso a la codicia de la muerte.


E agora a nossa adaptação:

ANSEIOS

Água eu quisera ser, pela alegria
de te dar a beber meu próprio ser;
por tua sede, que eu não mataria,
para molhar teus lábios por prazer.

Vento eu quisera ser, e à noite, iria
adormecida, te surpreender
ressonando em teu leito, e então seria
o ar que precisas pra poder viver!

Fogo eu quisera ser, e em rubras chamas
num delírio de amor, toda abrasar-te,
para ter a certeza de que me amas.

Depois, para possuir-te, de verdade,
terra eu quisera ser! E disputar-te
ciumento, à morte, pela eternidade!

     O leitor mais atento verificará que consegui manter a idéia, a sonoridade de algumas  rimas,  um  certo  ritmo  peculiar,   do  original.     Mas não pude evitar, estimulado pela emoção, que acabasse por participar do poema, integrando-me a ele, e até recriando poesia em algumas passagens. Toda tradução, não deixa de ser, de certa maneira, uma recriação literária.                                                         
    Para o leitor poder comprovar a pertinácia com que me empenhei no trabalho de tradutor, vou citar uma outra tentativa. Aquela em que procurei ater-me ao léxico espanhol, tanto  quanto  possível,  e  reproduzir, com   o  máximo  de fidelidade, as expressões de cada verso.      Abri mão das rimas, - esses dourados e sonoros grilhões medievais - e deixo aos leitores o confronto das duas peças, esta em versos brancos:                                                                                                    

ANSEIOS

Água quisera ser, luz da minha alma,
e com sua pureza te brindar;
e porque tua boca me provara
não mataria a sede, aumentaria.

Vento quisera ser; em noite fria
chegaria a teu leito, silencioso,
deixar-me-ia aspirar por tua boca,
e minha vida à tua fundiria.

Fogo quisera ser para abrasar-te
em um vulcão de amor! Ah, estátua inerte
surda a estas queixas de quem soube amar-te!

E depois, para sempre possuir-te
Terra eu quisera ser, e disputar-te
amoroso, à cobiça vã da morte!


    Qual das duas formas escolheria?
         

( Crônicas  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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