" Sonetos Imortais " Todos
os sonetos citados nesta crônica encontram-se em minha antologia Os
mais Belos Sonetos Que o Amor Inspirou. Volume I - Poesia Brasileira.
Na história da literatura brasileira temos o fato curioso de
três grandes poetas que se celebrizaram apenas com um livro: Augusto dos Anjos, com
Eu e Outras Poesias, Raul de Leoni, com Luz Mediterrânea, e
Moacir de Almeida, com Gritos Bárbaros. Eu acrescentaria um nome bem mais
recente, cuja obra Cânticos Bárbaros, mereceu em 1934 o Prêmio de Poesia da
Academia Brasileira de Letras: trata-se de Mário cruz, que vive em Petrópolis, e é
técnico do Museu Imperial. Por acaso, são todos poetas de minha predileção, em que pese à
diversidade de estilos e temperamentos, ou justamente por isso. Mas, do mesmo modo que há
escritores de um único livro, ou que se consagraram por uma de suas obras, há, entre os
poetas, os que se celebrizaram apenas por um poema, um soneto. O exemplo clássico é o de Felix Arvers, autor de Mês Heures
Perdues, e que teria mergulhado no mais completo anonimato não fora o seu famoso
soneto inspirado por Marie Nodier. Só em língua portuguesa há cerca de 200 traduções
conhecidas. No Brasil há alguns casos mais ou menos semelhantes. Autores de
sonetos célebres, ou que se celebrizaram por um soneto, mas com muitas outras produções
de valor pelo menos idêntico ao do trabalho consagrado. São por demais citados Bilac com
o seu Ouvir Estrelas; Raimundo Correia, com As Pombas e Mal
Secreto, e Machado de Assis, com Carolina. Carlos Ribeiro, o mercador de
livros, me referiu que, às vezes, entram porta adentro de sua livraria e lhe perguntam à
queima-roupa: ? O senhor tem aí a Carolina, de Machado de Assis? (hoje há outra Carolina concorrendo com a de Machado de
Assis: a do Chico Buarque de Holanda, poeta moço, que ainda se dá ao luxo de música nos
belos poemas que compõe). Citemos outros: Raul de Leoni está nos álbuns, nos recitais, na
memória do povo, cada vez mais, com aquele soneto que não incluiu em sua obra, e que é
apresentado ora com o título de Perfeição, ora com o título de
Argila. Eu prefiro Perfeição. Quem não será capaz de dize-lo?
Nascemos um para o outro, desta argila de que são feitas as criaturas raras, tens legendas pagãs nas carnes claras e eu trago a alma dos faunos na pupila...
Mário Pederneiras, poeta carioca, cantor de sua cidade, hoje quase
esquecido, ficou com seu Suave Caminho, de um lirismo envolvente:
Assim, ambos assim, no mesmo passo...
E o final:
Placidamente pela vida iremos
calçando mágoas, afastando espinhos, como se a escarpa desta vida fosse o mais suave de todos os caminhos...
Nilo Bruzzi, o biógrafo de Casimiro de Abreu e Júlio Salusse,
romancista e poeta conquistou seu lugar com um único soneto: Única. Pelos
primeiros versos vocês se lembrarão logo:
No turbilhão da vida cotidiana há sempre oculto um rosto de mulher...
Há outro poeta que não deixou se quer livro publicado, cearense,
falecido em 1941, cujas poesias ficaram esparsas por jornais e revistas de sua terra: o
Padre Antônio Tomás. Seu soneto Contraste é uma página que traz a marca da
perenidade. Canta o poeta: Quando partimos, no vigor dos anos,/ da vida, pela
estrada florescente,/ as esperanças vão conosco à frente/ e vão ficando atrás os
desencantos... Mais tarde, no entanto, conclui: Nós enxergamos claramente/
quando a existência é rápida e fugaz,/ e vemos que sucede exatamente/ o contrário dos
tempos de rapaz:/ os desenganos vão conosco à frente/ e as esperanças vão ficando
atrás! Julio Salusse, o último Petrarca brasileiro, apaixonado
pela sua Laura, filha do Conde de Nova Friburgo, criou a imagem do amor eterno com o
soneto Cisnes. Ainda hoje figura em todos os cadernos de poesia:
A vida, manso lago azul, algumas vezes, algumas vezes mar fremente, tem sido para nós, constantemente, um lago azul sem ondas nem espumas...
Alceu Wamosy, gaúcho, que morreu pelejando, com apenas 28 anos,
imortalizou-se com os quatorze versos de Duas Almas. Quem não os sabe de cor?
Ó tu que vens de longe! Ó tu que vens cansada entra, e sob o meu teto encontrarás carinho: eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho, vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
Da mesma maneira, Da Costa e Silva, do outro extremo do Brasil, poeta
piauiense, está na memória da gente, com o soneto Saudade, cujo terceto
final ressoa como uma balada de sino:
Saudade! O Paraíba, velho monge as barbas brancas alongando... E ao longe o mugido dos bois da minha terra...
Quero encerrar, entretanto, esta crônica, com uma surpresa para
vocês. Vou apresentar-lhes um soneto inteiramente desconhecido. Recebi-o de um amigo, num
velho recorte sem data, já amarelecido, do Correio da Manhã, e certamente o
incluirei na 3ª edição de minha antologia Os Mais Belos Sonetos que o Amor
inspirou. O nome do poeta? Otávio Rocha. Não o conheço; nunca encontrei seu nome
em qualquer citação. Mas arrisco-me a vaticinar-lhe a celebridade à proporção que se
der a divulgação do soneto. Ei-lo na íntegra:
ROMANCE Venha me ver sem falta... Estou velhinha. Iremos recordas nosso passado; a sua mão quero apertar na minha quero sonhar ternuras ao seu lado...
Respondi, pressuroso, numa linha: ? Perdoe-me não ir... ando ocupado. Ameia-a tanto quanto foi mocinha e de tal modo também fui amado.
Passou a mocidade num relance... Hoje estou velho, velha está... Suponho que perdeu da beleza os vivos traços.
Não quero ver morrer nosso romance... ? Prefiro tê-la, jovem no meu sonho, do que, velha, apertá-la, nos meus braços!
Aí está, o mais velho e o mais belo dos temas, renovado sempre na
poesia e no sonho de um poeta.
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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