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" Quatro Poetas de Paris "

        
         Quatro só? O título é, evidentemente impróprio. De certa forma, todos os grandes poetas “são” de Paris, pelas vinculações da cultura e do espírito.      
    Mas, aqui, quero referir-me, especialmente, aos poetas que tiveram Paris como sua cidade  natal, apesar  de  acabarem  poetas  do mundo.  Uma curiosidade, portanto.                                                                                                                   
    A verdade é que não nos ocorre que muitos poetas - cuja glória desabrochou em Paris - e cujas vidas se encontram indissoluvelmente ligadas à história da cidade, nasceram em outras regiões da França, e alguns até, em terras estranhas.              Heredia, o
“escultor” de “Lês Trophées”, era cubano. Richepin, poeta e romancista nasceu na Argélia. Leconte de Lisle, mestre do parnasianismo, numa longíqua ilha no Índico, junto a Madagascar. Victor Hugo teve como berço Bensançon, cidade que durante anos pertenceu à Espanha. Ronsard, “ o   poeta  dos reis  e o rei  dos poetas”, era de Vendôme; Rostand, de Marselha; Samain, de Lille; Verlaine, de Metz.                                                                                                                           
    Nesta crônica dedicada à Cidade-Luz, vamos homenagear a capital do amor e da poesia apresentando quatro dos maiores poetas líricos de todos os tempos, nascidos parisienses. Não apenas nascidos: viveram e morreram em Paris. 
São eles: Musset (1810/1857); Baudelaire (1821/1867); Mallarmé (1842/1898) e François Copee (1842/1908).                                                                                     
    Refiro à minha antologia “Os Mais Belos Sonetos Que o Amor Inspirou”, do seu volume III, onde se encontram os poetas franceses, os elementos para estas notas.                                                                                                                           
   
MUSSET
(Louis Alfred de Musset) - poeta do amor, - o mais espontâneo, o mais sincero, o mais comovente de seu tempo. Apareceu, literariamente, na casa dos Nodier. Apaixonou-se por Geroge Sand, com quem viveu, e de quem se separou, escrevendo então os mais sentidos e belos poemas. Seu nome se inclui entre os maiores do Século  X I X,   e  sua  poesia  fixou-se  com  as  características do romantismo desregrado, doentio e inflamado do fim do século. Eis um soneto do seu livro “Nuits”, em tradução minha:                                                                       

LENDO PETRARCA
Lendo Petrarca em tempo já distante
sonhei também com a glória em meu destino;
seu verso, mais que humano, era divino
e ao amar e cantar foi poeta e amante.

Do coração sensível, palpitante,
a fugaz emoção, o desatino,
era o único a gravar em canto, em hino,
e lapidava o verso, qual diamante.

Ó tu, gentil e misteriosa Dama
por quem logo serei abandonado,
tem compaixão de uma alma agradecida;

se Petrarca não sou, na mesma chama
arde o meu coração apaixonado
e a quem o Amor me dá entrego a Vida!


BAUDELAIRE (Charles Baudelaire), um dos poetas preferidos pelos tradutores brasileiros, era praticamente desconhecido até que publicou seu primeiro livro:
“Les Fleurs du Mal”, que  alcançou  um  êxito   imprevisível,  apesar  de os contemporâneos (críticos) o considerarem um poeta medíocre. Na realidade, seu gênio tocou de beleza, e iluminou, tudo que viu ou sentiu. Sua poesia, rica de força, de exotismo, valorizou temas até então considerados prosaicos, e até repugnantes. Eis um de seus sonetos, em tradução de Paulo César Pimentel, poeta e médico fluminense:                                                                                                                     

ENCONTRO DE RUA
A rua num tumulto em torno de mim gritava.
Alta, esguia, vestindo um luto majestoso
linda mulher passou que, num gesto gracioso,
a fímbria do vestido erguia e balançava.

O andar ligeiro e nobre, a perna escultural,
e eu sorvia, angustiado, em seus olhos sombrios
negro céu que produz os temporais bravios,
a doçura que encanta e o prazer que é fatal.

Um clarão... logo após a morna obscuridade!
Ó mulher cujo olhar me deu vida outra vez
não mais te encontrarei senão na eternidade?

Muito longe daqui! Tarde! Nunca, talvez!
Pois não sei aonde vais; tu de mim te perdeste
tu, que eu teria amado e que me compreendeste!


    MALLARMÉ (Stéphane Mallarmé) iniciou-se, como Verlaine, entre os parnasianos. O obscurantismo de certas imagens, o enigmático de muitas expressões, e sutileza do pensamento ou das emoções, marcaram sua poesia requintada e vaga, e caracterizaram a corrente literária a que acabou se filiando:
o simbolismo. Estreou com
“L’Après Midi d’un Faune”, mas em “Vers et Prose” se encontra o melhor de sua criação. Eis um de seus poemas, traduzido por Luís Martins:                                                                                                                      

ANGÚSTIA
Não venho aqui vencer teu corpo, ó ser obscuro
que os pecados de um povo juntas; nem desejo
revolver tristemente o teu cabelo impuro
sob o incurável tédio oriundo do teu beijo.

Quero o sono sem sonhos do teu leito; insano
sono que os panos do remorso envolveram,
e que podes gozar após teu negro engano
tu que o nada conheces mais que os que morreram.

O Vício que polui minha nobreza inata
pôs em mim como em ti, um selo condenado.
Mas enquanto o teu peito pétreo é habitado

por um tal coração que nenhum crime mata,
eu fujo atormentado, envolto em seu sudário
com pavor de morrer se dormir solitário.

FRANÇOIS COPÉE (François Édouard Joaquim Copée) foi um dos chefes do parnasianismo. Sua poesia simples, comunicativa, romântica, granjeou-lhe um grande público. Aos 24 anos publicou seu primeiro livro:
“Lê Reliquaire”. Um dos seus  sonetos  mais  conhecidos  foi t raduzido  para  o   português  por Raimundo Correia:                                                                                                                         


NA TASCA
Dentro, da esconsa mesa, onde fervia
fulvo enxame de moscas sussurrantes,
num raio escasso e trêmulo do dia
espanejando as asas faiscantes,

vi-o - bêbedo estava e, inebriantes
a capitosos vinhos mais bebia,
e em tédio, como os fartos ruminantes
a larga boca, estúpida, movia...

E eu pensativo, eu pálido, eu descrente,
aproximei-me do ébrio com tristeza
sem ele quase o suspeitar sequer,

e vi: - seu dedo, aos poucos, lentamente,
no vinho esparso que ensopava a mesa
ia traçando um nome de mulher...
         

( Crônicas  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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