" Poesia, De Longe "
Ana Amélia
(Ana Amélia Queiroz Carneiro de Mendonça) é uma das mais
ricas sensibilidades que conheço. Sua obra, de feição clássica, neo-romântica, a
coloca entre os maiores nomes femininos de nossa poesia, ao lado de Gilka machado,
Adalgisa Nery, Benedicta de Melo, Beatrix dos Reis Carvalho, Ilka Sanches, Seleneh de
Medeiros, Maria José Giglio, e tantas outras. Seu soneto Mau de Amor
tornou-se peça natológica. Incluí-o em minha antologia Os mais belos sonetos que
o amor inspirou, volume I, dedicado à poesia brasileira.
Minha admiração por Ana Amélia vem de longe, de meus tempos de
estudante secundarista do Pedro II. Ela era nossa rainha dos estudantes, e me
lembro de que participou da festa que escolheu os príncipes da poesia e da
prosa do velho colégio. Festa memorável a que compareceram muitos
acadêmicos, e entre eles Coelho Neto e Alberto de Oliveira, então os príncipes
da prosa e poesia brasileiras.
Mas, além de sua própria poesia, Ana Amélia é uma excelente
tradutora. Talvez nenhum outro poeta tenha conseguido passar para o nosso idioma, com
tanta facilidade, os versos de Shakespeare, mas de outros poetas
ingleses e norte-americanos.
Nesta pequena nota quero destacar uma das traduções de Ana Amélia,
em que sua capacidade de transferir para o nosso idioma, intactas, todas as belezas do
original, acabou por nos oferecer uma obra-prima, de lirismo inigualável. Trata-se de sua
tradução do soneto XIX da poetisa norte-americana Edna St. Vincent Millay, que, com
outros trabalhos de Ana Amélia, figuram no volume III de Os mais belos sonetos que
o amor inspirou. Não me poupo a alegria de oferecê-lo aos leitores.
SONETO XIX Tu também morrerás, cinza adorada. Essa beleza é certo que pereça, essa mão, essa esplêndida cabeça, esse corpo de argila iluminada.
Sob o gume da morte, ou sob a geada, serás mais uma folha que estremeça e com as outras te vás, verde e travessa, depois morta, sem cor, desintegrada.
De nada o meu amor terá valido, apesar deste amor, tu chegarás ao fim do dia e tombarás vencido,
obscuro como a flor que cai, por mais que tenhas sido belo, e tenhas sido mais amado que todos os mortais.
Edna St. Vincent Millay
* * *
A maior sonetista contemporânea de Portugal desapareceu há apenas
dois anos: Virgínia Victorino. Depois de Florbela Espanca, e ao lado de Maria Helena,
forma a trindade das grandes vozes do lirismo português de nossos dias. É a poetisa de
maior público em sua terra, e seus livros esgotam edições sucessivas. Perfeita na
forma, simples e comunicativa na linguagem, despida de quaisquer artificialismo, a poesia
de Virgínia Victorino é uma flechada no coração. Dos três livros que deixou:
Namorados, Apaixonadamente e Renúncia, possuo os dois
primeiros.
Quando selecionava sonetos portugueses para o volume II de Os
mais belos sonetos que o amor inspirou vi-me em dificuldades diante da obra de
Virgínia Victorino: Tinha vontade de incluir todos os seus trabalhos. Como Guilherme de
Almeida, que foi nosso príncipe dos poetas, seus sonetos são pequenas
jóias, inconfundíveis, singulares, e não se pode tentar escolher uns poucos sem se
correr o risco de cometer injustiças. E, por isso mesmo, excepcionalmente, Virgínia
Victorino figura na antologia com o maior número de trabalhos: onze sonetos. Ao preparar estas notas, estou atendendo a uma leitora que me pediu
para que citasse algumas poesias de poetisas estrangeiras, das que mais gosto, tal como
fiz aqui com as poetisas brasileiras.
Eis, portanto, um soneto de Virgínia Victorino, talvez o de minha
preferência:
MÁGOA Eu que cheguei a ter essa alegria de junto ao meu possuir teu coração, eu que julgara eterna a duração do voluptuoso amor que nos unia,
sou,- apagada a última ilusão, morto o deslumbramento em que vivia, - um cego que ao lembrar a luz do dia sente mais negra ainda a escuridão.
Tu me deste a ventura mais perfeita, perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita dessa imensa paixão com que te quis...
Hoje, o que sinto, inútil, revoltada, não é mágoa de ser tão desgraçada, é pena, de ter sido tão feliz.
Virgínia Victorino
* * *
Ela é cognominada Joana da América, pela projeção literária de seu nome em todo o
continente, e até no Brasil.Nasceu na pequena vila de Melo, em Cerro Largo, no Uruguai, e
tem hoje mais de 70 anos. Poetisa de grande expressão lírica, seus primeiros livros são
de versos exaltados, sensoriais, apaixonados, em linguagem clássica e pura. Ultimamente
sua poesia ganhou certa expressão mística e até religiosa. A panteísta, algo pagã, de
Cântaro fresco e Raiz
salvage, hoje pinta vitrais em Estampas de la
Bíblia.
Minha velha e grande admiradora pela sua poesia levou-me a procurá-la em Montevidéu,
quando, ainda estudante, participei de uma caravana, e fui a Buenos Aires e ao Chile.
Infelizmente ela estava em visita à sua terra natal, e não a encontrei.
Ao selecionar os sonetos de poetas latino-americanos para o volume II de Os mais
belos sonetos que o amor inspirou, apesar de contar com traduções de trabalhos
seus, feitas por Murilo Araújo, Melo Nóbrega e Othon Costa, fiz questão de transladar
para nosso idioma algumas de suas páginas. E, sem nenhum favor, um dos seus mais lindos
sonetos é este:
A PROMESSA
...E todo o ouro do mundo parecia diluído na tarde luminosa. Apenas um crepúsculo de rosa a alta copa das árvores tingia.
Súbito amor a minha mão unia à tua mão morena, carinhosa. Éramos Booz e Ruth, ante a formosa terra que aos nossos olhos se estendia.
-- Me amarás? Perguntaste. Lenta e grave veio-me aos lábios a promessa suave da amante moabita, tão querida;
e foi como um Amem! que nesse instante se ouviu, num toque de oração, vibrante bater o sino da pequena ermida!
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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