" O Dois Natais "
O Natal foi sempre um belo
tema para a poesia. Em
que pese o meu agnosticismo; imagem do presépio e do menino Jesus, as belas árvores
empoadas de algodão, e iluminadas, a figura lendária do Papai
Noel, motivando-me desde criança o espírito e a imaginação. E aí estão pela minha obra,as
mais várias impressões suscitadas pelo Natal. Mas como não tive Natal, apesar de uma
infância rica de liberdade e aventura, ou por isto mesmo, carrego comigo o que poderia
chamar de frustração natalina, e um permanente inconformismo, diante
do quadro de desajuste social, agravado durante a grande
festa cristã. Não consigo me
esquecer de que há milhares, milhões de crianças, para quem este dia é um dia
comum, ou pior, um dia em que podem perceber mais intensamente que não são felizes,
junto à felicidade gritante de tantas outras crianças. É impossível para uma criança
pobre não ser infeliz no Natal. Por isso, aquele poema Festa Triste,
de Cantiga do Só:
Não, o Natal não é uma festa alegre é uma festa triste.
De repente, as crianças (logo as crianças!) separam o mundo em duas metades desiguais: - de um lado, a abastança, indiferente ou a piedosa; - do outro, a necessidade, a mendigar seus restos, como há milênios faz.
As crianças (logo as crianças!) - algumas, com presentes, brinquedos, esperanças, e as puras alegrias que o bom velhinho lhes traz do céu; outras, sem terem nada (e mesmo tendo pais são órfãos de Natal) - não tem Papai Noel.
Não. Neste mundo como está, neste mundo profano que a um olhar mais humano não resiste, o Natal pode ser uma festa (quem contesta?) mas é uma festa triste.
Desde o meu primeiro livro, Meu Céu Interior, que o Natal
está presente. No poema Jesus esbocei uma visão ingênua do
presépio, e um retrato vagamente renaniano de Cristo: Foi outrora, passou, já vai distante, além!
Jesus da Palestina, o humilde de Belém era assim como nós na vida, um sonhador!
Em Amo! retocaria esse retrato. Mais que o mito Noel, o
Cristo, está claro, é a figura do Natal:
Serviu-te a manjedoura humilde de começo nem palácios reais, berços de cetim, aliás, para pregares a obra que conheço tu só podias mesmo ter nascido assim.
Em Eterno Motivo permanece o Cristo, de Renan, ou dos heréticos bizantinos:
Longe, surgem no céu clarões de um novo dia! Porque terá fugido o ignorado pastor? Na tosca manjedoura, os olhos de Maria falam de um infeliz e imorredouro amor!
Mas sem negar, antes sempre exaltando a sua missão:
Jesus! Seu próprio nome já sugere a luz! Seu corpo foi, mais tarde, a bandeira ferida desfraldada, a sangrar, nos braços de uma cruz.
Não teve pai, no entanto, o seu amor, profundo, divinizou o ventre que lhe deu a vida e humanizou e deu paternidade ao mundo!
No Canto da Terra, livro de preocupações sociais, e
nascido delas, o Natal se amplia em cantos de paz, diante das visões apocalípticas do
nosso tempo. Em Mensagem do Dia de Natal, confesso: Eu não penso nos heróis, cujos nomes ficaram perpetuados na
História, Eu não ouço os clarins frenéticos, nem os toques da vitória pelos espaços, Eu não vejo as ruas embandeiradas, nem as fardas vistosas, e os instrumentos brilhantes passando; eu penso É na juventude que se apaga como um meteoro dentro da noite, Eu ouço são os gemidos de todos os que caíram e ficaram abandonados à própria sorte e à espera da morte, Eu vejo é a terra devastada, os céus turvos, retintos, e a conclusão: Neste dia de Natal oh, companheiros do mundo! Oh, companheiros cristãos! Eu ouço é aquela voz que atravessou os séculos, num grito fraternal/ de paz:/ Amai-vos uns aos outros, sede irmãos!
Em todos os meus livros, aí estão as imagens do Natal. No
Cantiga do Só há uma pergunta que, infelizmente, não será feita amanhã. A
igreja de João XXIII e Paulo VI, está se recristianizando, retornando às suas origens
evangélicas. As recomendações do Concílio Vaticano II vão despojando o clero de
ouros e pompas. Mas a indagação aí esta, ainda, e por quanto tempo? É a
Pergunta de Natal.
E a criança parou e perguntou diante da rica e imensa catedral:
- Mamãe por que é que o Jesus que mora nesta igreja não convida para vir morar com ele o Jesus do presépio de Natal?
Sim. Em que pese o meu agnosticismo, acredito no Natal. No Natal do
presépio, dos Reis Magos, da estrela de Belém. E num outro Natal, aquele que cantei em
Estrela da Terra e em Mensagem.
Não está no céu a estrela. Está na terra. Não indicará o nascimento do Senhor não prometerá o céu, indicará o nascimento do homem prometerá a terra.
Está na terra a estrela, há séculos enterrada, como um diamante, um filão de ouro ignorado, talvez uma lágrima. Quando os homens a encontrarem todos terão e todos serão ricos. Sou rico porque a encontrei, ? aqui está a estrela da terra! Faiscará nas minhas mãos como a pepita da bateia, coloquei-a na cabeça, como lanterna de mineiro para iluminar as galerias.
Não a procurarão os Reis Magos, os poetas a procurarão, não indicará o caminho do céu indicará o caminho da terra.
Ricos serão os poetas que encontrarem a estrela da terra porque cumprirão o seu destino e transmitirão a sua mensagem.
Vinde, irmãos de todas as terras! Eu vos ofereço a estrela da terra olhai a estrela no chão, ela tem todas as cores como luz e irá a nossa frente, caminhará conosco.
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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