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" O Primeiro Amor "

Somos simples metades:  biológica e   sentimentalmente.  Como as  moedas, temos   duas   faces: cara e coroa.  No   singular, não existimos, não podemos continuar. Até porque, surgimos de  dois,trazendo  o destino de "Ser", no plural: não "sou", não "és" Somos. Ora, a vida.

"Matemática esquisita
que das suas sempre faz,
ao final de nove meses
somando dois, multiplica,
e ao invés de dois, às vezes,
são três, são quatro, e até mais
."

Estou pensando estas coisas, quando me perguntam o que acho do primeiro amor. É  uma   entrevista  com  colegiais.   Sim,  eu  já   escrevi  sôbre  o  primeiro   amor.   Também  já  acreditei  que  existia,  ou  que  existiu. Ficou  naquela visão  trêmula como as imagens no espelho dos igarapés da infância.  Sobreviveu em lembranças concêntricas,  que  se    ampliam  e  diluem  infinítamente  no    coração,  quando  a pedrinha  de  um  fato   cai  sobre  a  superfície  das  águas  do   igapó da memória.

"Onde está o meu primeira amor
a menina morena de cabelos negros
e de olhos da cor do rio
que nunca será esquecida?

O tempo ladrão roubou
de parceria com a vida."

Sim, acreditei nele, como toda gente.  E porque apascento versos desde menino, como um nômade pastor, lembrei-o muitas vezes:                                                   

"O meu amor primeiro, o meu primeiro amor
foi anseio, e viveu a incerteza de uma ânsia;
botão que não se abriu, que não chegou a flor
um pedaço de céu quase limpo e sem cor
perdido nos senfins azuis da minha infância..."

Andei com êle por aí:

"Braços dados, nós dois vamos sozinhos,
o teu olhar de encantamento espraias
pelas curvas e sombras dos caminhos,
debruados de jasmins e samambaias. . ."


E por isso, também identifiquei-me com os casais em tempo de sonho:

"Nada tolda os seus olhos, nem um véu...
Andam sem ver os lados, vendo o fim,
e o fim que vêem é o azul do céu...

Ah, se a gente, tal como os namorados
pudesse eternamente andar assim
pela vida, a sonhar de braços dados..."

Mas fui vivendo, como toda gente, ou como quase toda gente.  E um dia, quando relia as provas dos meus versos, comecei a perceber que me enganara, como toda gente,  ou   como quase  toda  gente.  O  primeiro  amor  não   é  o  primeiro   amor. 
Ou  pelo  menos  o que  chamamos  de  primeiro   amor.   Deviam  ter  outro   nome aquelas emoções que esvoaçaram sem deixar pegadas, quase e apenas como nuvens brancas   no    limbo   do coração; aquelas lembranças de mãos dadas, assexuadas, beijando   só com os  olhos,  olhando sem nada ver.  Se, na realidade, nós nem nos apercebemos   dele !  E só o encontramos    quando  o  tivemos  perdido, e há tanto tempo que é quase impossível reconstituí-lo!
E então a pergunta: afinal que é o primeiro amor?  E  a  conclusão   que  só a vida nos pode dar: é aquele amor completo em todas as direções, dos pés a  cabeça, não apenas no céu, mas  na  terra,  nas   nuvens e nos ventos, nas  raizes e  na solidão.  Quando    se beija  não apenas  com  os  lábios, mas com todos os sentidos, quando tudo se vê, mesmo de olhos fechados, e se sofre, até com o pensamento.  Para que possa ser perfeito, Buda aconselhou: não deves pecar.  Os cristãos repetiram como um eco: guarda a castidade.  Tolice, porque estamos sempre puros diante do amor, e quando ele chega, é sempre novo, é sempre o primeiro.                                                                                                                        
Há infinitos primeiros amores.  Ama-se tantas vezes a primeira vez!  Renascemos em suas ânsias e toda vez que o  perdemos,  ficamos  à  deriva   em  nosso  destino.  Felizes, ou infelizes - que importa? - os que encontram o primeiro amor. Porque há  homens  também  que passam a vida inteira  amando, de amor em amor, e não amam  nunca  a  primeira   vez.  Bom  é  amar  a  primeira  vez muitas vezes, tantas quantas a vida inventar, e o coração puder!  Há tanta coisa por aí se chamando de amor  que  de  amor nada  tem, não justifica a dor e a alegria, não revela nenhum mistério; de nenhum milagre é capaz !                                              
Ah, o primeiro amor! Às vezes não nos chega propriamente num dia, mas durante a vida toda, em que o vamos construindo de tantas e insignificantes grandezas, sem mesmo tomarmos conhecimento de sua importância.  E entretanto, é tudo.  Basta que, de repente, vacile, nos ameace, e falta-nos a luz, o ar!
Outras  vezes,  irrompe  como  um  pé-de-vento  abrindo uma janela, abrindo-a ou fechando-a instantaneamente, e nos aparece como algo que emergiu da sombra em que o velávamos, subitamente belo e iluminado.                                                 
Ou, ainda, pode explodir como uma granada,  e  nos  cegar até, e nos atordoar.  E caímos nele, feridos mortalmente, sentindo-o escorrer quente no corpo, doendo de tanta alegria!                                                                                                                 
Muitas ocasiões, pensamos encontrá-lo, quando na realidade saltamos sobre ele, e caímos adiante, em duro leito de pó, onde se espoja.  Não era amor, mas sua filha bastarda:  a  paixão. Como  surge  desaparece,  em disparada - potro selvagem em pasto  aberto.  Mas, então, que é o amor, esse que é sempre o primeiro, múltiplo e infinito como o mar?  Dele tentei dizer:

"E de repente. . . (parece incrível)
o tudo de antes não existe mais
não interessa . . .

Um novo amor, amor
é sempre um mundo novo
que começa.

Não importa o percorrido
o conquistado,
ou o que antes foi desejado
por teu marinheiro coração:
um novo amor
começa tudo de chão.

É como se abrisses os olhos para a vida
naquele instante,
como se para trás nada tivesse havido.
Nasces com um novo amor!  E então reviverás
o mistério, deslumbrante
do que há de acontecer, como se nunca tivesse
acontecido. . ."


Talvez seja aquela força indômita do coração que levou o poeta a penitencias como esta:

"Chegas.  E de repente me pergunto
que amor é esse que existiu sem ti? 
Que flores?  Se não houve primavera. . .
Ah, nascemos agora, um para o outro,
e antes, não fomos mais que vã espera. . ."

Ou a esta confissão final:

"Éramos apenas dois bichos...
(ou deuses?)
...Nem podia ser mesmo humana
tão louca felicidade..."

( Crônica  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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