" O Mais Belo Tema "
Há na maternidade um
toque de deus, pois nela se encontra o milagre da Criação. Diante da mulher que acaba de
ser mãe, o sentimento do homem e das coisas como que se prosterna e ajoelha. Realmente, algo de santidade transluz no olhar da mulher, diante de um berço, onde um
novo ser alvorece. Esta a razão porque os poetas, não poucas vezes, tornaram como termo de suas
figurações líricas a imagem da mãe perfeita, a Mãe do Céu. Uma das mais belas
poesias que conheço é aquela trovinha anônima:
Eu vi minha mãe rezando aos pés da Virgem Maria era uma Santa escutando o que outra Santa dizia.
Na
mesma linha de inspiração, outro trovador, Américo seixas, confessa:
Minha mãe que tanto chora carregando a sua cruz só não é Nossa Senhora por não ser mãe de Jesus.
Recebemos, com o nosso
idioma, um legado inestimável. E há nele duas palavras especialmente carregadas de
emotividade: mãe e saudade. Em que pese à poesia portuguesa que,
devido à prosódia, conseguiu encontrar rima para a
palavra mãe, Belmiro Braga, o grande trovador mineiro, assim exaltava o tema:
Mãe - acima de tudo, acima do céu te devemos por... O teu nome não tem rima nem limite o teu amor.
Minha mãe sempre me contava a história de um amigo de papai que,
depois de casado, continuou a morar com a mãe. Quando a mulher e a mãe se desentendiam,
tomava sempre o partido da última, e sentenciava: Mulheres há muitas; mãe uma só.
Cheguei a escrever uma quadrinha glosando o assunto, mas a minha trova que tem merecido
maior número de citações está em Trevos de Quatro Versos:
Ó minha mãe, em meus cantos num grato e eterno estribilho bendigo a Deus que, entre tantos, me escolheu para teu filho.
Poderia organizar uma antologia se me dispusesse a citar poemas sobre o
assunto. Gostaria, entretanto, de destacar alguns, que me parecem os melhores. Constancio
Alves possui um soneto que vale pela sua originalidade:
MATER Eras em plena mocidade, quando da nossa casa, um dia, te partiste; e eu, coitado, sem mãe, pequeno e triste, fiquei por esta vida caminhando.
Assim - no meu amor, teu rosto brando do tempo à ação maléfica resiste, e o meu é, hoje, como nunca o viste tanto o passar da idade o vai mudando.
Tão velho estou que já não me conheces, nem poderias ver no que te chora esse a quem ensinaste tantas preces;
e tão moça ainda estás que (se memora a saudade o teu vulto) me pareces como se fosses minha filha agora.
Martins Fontes deixou outro lindo soneto em que diz que o M que
trazemos gravado na palma da mão é a inicial da palavra Mãe. Há um soneto de Hermes Fontes, de que não gosto, mas cujo terceto
final é um verdadeiro achado sentimental:
Ao pé de nossas mães - todos nós somos crentes... Um filho que tem mãe tem todos os parentes, e eu não tenho por mim, ó minha mãe, ninguém! Dos modernos, Mauro Mota, poeta pernambucano, possui em seu livro
Elegias, em memória à esposa, está página de tocante lirismo:
ELEGIA N. 10
Insone e inquieta na pequena cama Na longa noite, Luciana chora, e a mãe tão distante chama, chama, como se ela pudesse ouvi-la agora.
Não quer o pai, não quer também a ama; só a mãe que a deixou e foi embora. No seu choro sem fim, pede e reclama a canção de dormir que ouvia outrora.
Mas, aos poucos, na noite, vejo-a calma. Para alguém os seus braços se levantam. Junto do berço, maternal, tua alma
canta a canção de doces estribilhos que as mães, mesmo depois de mortas, cantam para embalar os pequeninos filhos.
Mas uma das mais belas composições que conheço é a de Mário de
Andrade:
MÃE
Existirem mães,
é
fato, ela prende isso é um caso sério
os erros da
gente Afirmam que a mãe
e era
bem melhor Atrapalha tudo,
não
existir mãe. Mas em todo caso
entende
a verdade quando a vida está
que
a gente confessa mais dura, mais vida,
por trás
das mentiras? ninguém como a mãe
Só mesmo
uma mãe... pra agüentar a gente
Só
mesmo essa dona escondendo a cara
que
apesar de ter entre os joelhos dela.
a cara
raivosa -O que você tem?
do
filho entre os seios, Ela bem que sabe
marcando-lhe
a carne, porém a pergunta
sentindo-lhe
os cheiros, é pra disfarçar.
permanece
virgem Você mente muito
e
o filho também... Ela faz que aceita, e a desgraça vira
Ó
virgem perdei-vos mistério pra dois.
pra
terdes direito Não vê que uma amante
e essa virgindade nem outra mulher
que
só as mães têm!
E já que começamos esta croniqueta com os trovadores, voltemos a
eles. E encerremos, com uma pequenina chave de ouro esta página ? Mosaico de Poesia ? em
homenagem ao mais belo dos temas líricos. Citemos a trovinha de Tito de Barros:
Não choro a minha cegueira choro a falta de meu guia... Minha mãe quando era viva Eu era um cego que via...
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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