" O Carnaval de Cada Um "
No fundo mesmo, não gosto de
carnaval. (Nunca me encontro no palco: sou sempre espectador). Como não gosto também de
todas as grandes festas coletivas, antecipadamente estabelecidas pelo calendário.
Ninguém nos pergunta se estamos felizes ou desesperados. É dia de felicidade, então,
toca a pular e a cantar! Como se fosse possível estabelecer por decreto: hoje é dia de ficar
triste; amanhã, é dia de amar; depois é dia de ficar só; e no Natal, e no último dia
do ano, e nos dias de carnaval, a ordem é rir, brincar, ninguém tem direito de estragar
a festa dos outros. E obedecendo a esta ordem, possuída por imprevista e repentina
loucura, toda uma multidão se agita num transe incontrolável, numa explosão instintiva,
sonora e colorida como uma mostra de fogos de artifício. Vocês me desculpem esta conversa desmancha-prazer. Sei que o defeito
é meu. Ninguém tem nada com minha tristeza, com o meu cansaço, com as minhas
frustrações. Ó benditos os felizes, os realizados, os que conquistaram essa cômoda e
sonhada felicidade horizontal! Paro no meio do caminho, ao cair da tarde, com os olhos e o coração
cheios de noite, e vejo que estou perdido. Cada vez mais insatisfeito, cada vez mais,
partindo... Há os que têm a coragem de uma felicidade dopada, artificial. Para se
misturarem com a alegria alheia, e não destoarem, embebedam-se. Fogem de si mesmos, pela
porta dos fundos. Covardia? Sei lá! Mas não é de meu feitio. Sempre vivi o pouco que
colhi, plenamente. Foram migalhas, que importa? Mas saboreei-as, lentamente, com todos os
sentidos, como um provador de vinhos. Embriaguez, só com amor verdadeiro, com a própria
vida. Por isso já confessei:
Temo as grandes alegrias, o carnaval quando explode, pois minha alma nesses dias quer ser feliz e não pode...
Não sou de carnaval. Nunca fui. Mais moço, muitas vezes, confesso que
me deixei levar pelo arrastão. Mas meu fígado - um velho policial - sempre barrou minhas
fugas para a alegria. Naquele poemeto de Harpa Submersa já o denunciei: O fígado - esse infame policial - não me entrega o
passaporte/ para as viagens que eu realizaria.../ e me obriga, como um condenado, a
escutar, dia após dia,/ meus entediados passos sem saída no pátio do presídio./
Apenas, vez em quando, uma espiadela sobre os altos muros/ um rápido olhar para a vida
distante/ onde homens e mulheres sonham e se confundem./ Em vão tenho tentado a fuga, ele
está sempre presente/ e me derruba como um policial a cada nova tentativa.../ Ah! Não
ter fígado! Ter o mundo ao alcance do sonho, em seis doses de uísque... Já se foi o tempo em que tentava escalar o muro de minha tristeza, e
escapar por três dias e noites, mesmo com o velho tira violento, a
desancar-me com suas borrachas, deixando-me imprestável na quarta-feira de cinzas... O carnaval sempre me amedrontou, não como a uma criança. Muito mais
por ele próprio que pelas máscaras de seus foliões, que, estas, afinal, até me
distraem. Não sei porquê. Quem sabe a resposta esteja na minha trovinha:
Por certo a solidão é aquela que a gente sente sem ninguém no coração no meio de muita gente...
Mas, sentindo-me à margem, consigo às vezes, distrair-me com a
alegria dos outros. Afinal, no carnaval, ela não faz tanto mal como em outras ocasiões.
Talvez porque não nos pareça autêntica, encerre algo de teatral, de representada. Me
deixo, por isso, ficar na calçada, a ver a rua humana que passa como um rio de euforias e
esquecimentos. Tenho assistido a muitos carnavais. E o que realmente me agrada no
carnaval não é tanto a expressão coletiva, a apresentação dos grandes blocos,
ranchos, sociedades, escolas de samba, estas, por si só, um espetáculo à parte. Mas o
carnaval individual, pequeno, o carnaval no singular, de cada um. Dos foliões que não
bebem, que são centelhas de pura e lúcida alegria, e que antes de divertirem os outros
estão realmente se divertindo a si próprios. E é observando esses tipos de rua que
quase me convenço de que o brasileiro é um povo alegre, de música alegre, em que pesem
as palavras do poeta que viu a nossa música a flor amorosa de três raças
tristes. A grande festa não é apenas uma válvula de escape para seus impulsos
recalcados, para suas tristezas irremediáveis, suas preocupações de todo dia. É
também a oportunidade para que se reencontre a si mesmo, para que tire a máscara que é
obrigado a usar durante trezentos e poucos dias no coração. Nisto resumo meu carnaval: observar o carnaval dos autênticos
foliões, cuja presença vale por uma festa! E que inveja dessa alegria acesa como uma
chama colorida, a consumir-se numa emoção verdadeira! Que inveja desse mascarado que
não precisa de se mascarar (qualquer que seja a sua fantasia) porque
traz em si a alma do próprio carnaval. Em sua homenagem, aqui fica uma lembrança (um poemeto do livro
Amo!), justamente uma lembrança de
CARNAVAL Ela passou na minha vida vazia de boêmio e sentimental, como passa num ano de tristezas o relâmpago de alegria do carnaval...
Seus braços me envolveram como serpentinas frágeis, de papel, e se romperam, como as serpentinas que se arrebentam quando o vento passa e se soltam no céu...
Ela passou na minha vida, assim como passa, na monotonia de uma existência banal, e furtiva beleza e a loucura de um dia de carnaval...
Nossa história - o romance desse dia - sem ódio, sem despeito, sem rancor, sem ciúme, nem podemos lembrar,
teve o destino irreal de toda fantasia e a existência de um jato de lança-perfume atravessando o ar...
O nome dela, não sei; ela não sabe o meu, - que importa ?- não faz mal... Não fossemos nós dois apenas fantasias não fosse a nossa história apenas carnaval!
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
***************************************** 
|