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Nunca Se Chega a Paris a Primeir Vez " Ton
souvenir em moi luit comme um ostensoir! (Baudelaire)
Como homem e como poeta vou carregando um pequeno drama: conheci Paris
muito cedo, com dezoito anos, e receio revê-la tarde demais. Há idade para se conhecer
Paris, como há idade, por exemplo, para se beber. Muito jovens, não bebemos: apenas nos
embriagamos; muito velhos, o fígado, esse infame policial,
nos mantém temerosos, e já não podemos escalar os muros ao redor, ou tentar fugas ao
encontro da vida e do sonho.
Na verdade, não conheci Paris; olhei-a apenas nos olhos. E, como é
natural, a Paris que encontrei foi a do Folies Bergère, do Maison dês Nudistes, do velho
Moulin Rouge, dos bares alegres, dos cafés mundanos se espraiando
pelas largas calçadas dos boulevards.
Era uma mocidade em férias, um adolescente poeta brasileiro que fora a
Portugal numa caravana de estudantes, e que, depois, se perdera pela Europa enquanto os
seus colegas voltavam ao Brasil.
Lembro-me daquela noite em que saltei na Gare du Nord, vindo do Havre.
De maleta em punho, antes de ir para o hotel, eu só pensava numa coisa: ver a Torre
Eiffel. Queria me convencer de que aquilo era Paris, que não estava sonhando. E só
quando descortinei do alto do Trocadero, no Champs de Mars, a sobra do seu vulto sobre o
fundo iluminado da noite parisiense, me dei por satisfeito.
Mas operou-se, então, em mim, uma repentina transformação, A ânsia
da expectativa, do encantamento, transmudou-se numa tranqüila emoção de reconhecimento.
De repente, percebi que nunca se chega a Paris pela primeira vez. Eu já tinha estado ali,
certamente - quando, não sabia, - e aquelas ruas, aqueles monumentos, aquela paisagem,
tudo me era familiar. Não conseguia olhar com olhos de inédito, nem experimentar a
emoção do forasteiro diante de um lugar desconhecido. E a impressão iria confirmar-se
depois, com mais vagar, enquanto sobrevoava Paris, seus boulevards, seus teatros, cabarés
e lugares pitorescos. Era como se estivesse retornando a uma cidade de onde partira na
infância, talvez. Estava revendo Paris.
De repente, retocava a paisagem esbatida com nova presença. Eu já
passara antes por aqueles vendedores de livros e gravuras, com seus mostruários
debruçados sobre o Sena; aquela pesada Notre Dame, povoada de história e de lendas, com
seus nichos de pedra e seus apóstolos, com seu pequeno jardim e seus pombos, me parecia
tão reconhecida como a igrejinha de S. Sebastião, se pudesse revê-la, nas barrancas do
rio Acre; aquelas ruas do Quartier Latin, pululando de estudantes, e Montmartre,
e Pigale, com seus cabarés, seus bares e cafés literários, eram
um mundo que vinha à tona de regiões imponderáveis. Poderia cruzar em Montmartre por La Goulue ou por Jane Avril, vindas do
Can-Can, ou das pinturas de Toulouse Lautrec; encontrar no Quartier Latin os estudantes
pobres e as costureiras românticas de La Bohème... Ninguém chega a Paris pela primeira vez. É impossível. Todos nós
nascemos, vivemos, amamos, morremos em Paris em infinitas encarnações. Nélson Rodrigues
diria que o abominável Homem das Neves, o mais branco zulu africano, ou o mais frígido
esquimó da Groelândia morreu de amores por Paris sem saber. Como o mar, como o céu,
como o sol, Paris está em toda parte: não é apenas uma referencia geográfica, ou mais
uma cidade. Amá-la não desnacionaliza, antes, amplia o nosso amor até os limites do
universal. O mais ferrenho patriota, ao lado do Hino Nacional de sua terra, entoa, no
coração, a sua Marselhesa. Paris está em nosso sangue, no nosso espírito, na
infância, na adolescência, em todas as idades. É História, nos livros escolares -
Joana dÁrc, Maria Antonieta, Napoleão,- romance e ficção, em Júlio Verne,
Alexandre Dumas, Victor Hugo. Literariamente, moramos em Paris. Clássicos, românticos, parnasianos,
simbolistas, foram vizinhos e companheiros de seus mestres: Ronsard, Musset, Verlaine,
Baudelaire. Somos, por isso, o Petit Trianon. É como se o salão de Nodier abrisse suas janelas, não para a rua
Sully e a ilha de Louvier, mas para a Rua do Ouvidor, ou para a Glória... E já que o
curso destas considerações me levou aos Nodier, lembro-me daquela que foi a namorada de
três poetas, a musa do romantismo francês, e a quem foram dedicadas as mais belas
poesias de amor: Marie Nodier. Uma dessas poesias, um soneto, escreveu-o um poeta menor, então quase
desconhecido, Félix Arvers, no mesmo álbum em que figuram originais autografados de
Musset, Victor Hugo, Vigny, Lamartine, Saint-Beuve. A França vivia seu apogeu romântico. A melhor homenagem a Paris -a cidade luz dos turistas - a capital do
amor e da poesia, para os amantes e poetas de todo mundo, será fechar esta página com o
mais célebre soneto de amor de todas as literaturas. Traduzi-o, ainda agora, para a
coletânea Os mais belos sonetos que o Amor inspirou, volume III:
SONETO DE ARVERS
Na alma tenho um segredo e na vida um mistério um grande e eterno amor, num momento irrompido; é um mal sem esperança, e assim, profundo e sério, aquela que o causou nem sabe que é nascido. Azar! Passo a seu lado, em vão, despercebido, portanto, sempre só, sem nenhum refrigério, e hei de chegar ao fim, à campa, ao cemitério, nada ousando pedir ou tendo recebido.
E ela que o céu criou boa e terna, hei de ver seu caminho a seguir, e a ouvir, sem entender, o murmúrio de amor que a seus pés se erguerá;
a um austero dever, piedosa, se desvela, e dirá quando ler meus versos cheios dela: - Que mulher será essa?... e não compreenderá.
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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