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Maio: Um Tema e Duas Variações "
Maio é um mês lírico. Ficaram em nós, através da
herança cultural européia, ressonâncias primaveris.
Maio: mês das flores. Que importa se nossa Primavera
começa em setembro? Maio: Mês de Maria, mês das mães: a do céu; as da terra. Todas
santas, pois que a maternidade é um estado de graça. Disse isso nesta quadrinha:
Pureza maior que aquela da branca e intocada flor, é a da flor ainda mais bela que vai dar frutos de amor.
E nesta outra:
Tens tanta pureza, tanta minha mãe... que me enterneço e chamo sempre de santa a toda mãe que conheço!
Os leitores que me distinguem com seu interesse hão de se lembrar de uma outra crônica:
O mais belo tema.Recolhemos então as mais expressivas poesias sobre a
maternidade, assinadas por Belmiro Braga, Constâncio Alves, Hermes
Fontes, Mauro Mota, Mário de Andrade. Sirvo-me, agora, da minha poesia para a homenagem. Flores
silvestres, mais humildes, em todo caso, poesia, para o mesmo dia de festa. Tenho escrito
muito sobre este tema. Vou destacar, entretanto, apenas dois poemas: duas variações. Um retirado ao livro
Cantiga do Só, e outro, ao Eterno Motivo. Começo por recordar aquele dia em que li num s uplemento literário, a entrevista
de um poeta brasileiro, dos mais festejados pela crítica comadresca. Respondia a
perguntas sérias, ou superficiais. Uma delas, ingênua até. O repórter queria saber qual a coisa mais feia do mundo. Pasmem com a resposta do poeta:
-Uma mulher grávida. (Nada mais, nada menos). Fechei o jornal. E me quedei por segundos, incapaz
de qualquer reação. Mas, surdamente, as palavras começaram a germinar. Era
um protesto contra a heresia. Fui à máquina, e escrevi o poema:
MULHER GRÁVIDA Aquela beleza aquela que fica para além dos olhos, que independe de formas está em teu corpo.
Durante nove meses, silenciosamente, Deus trabalha em tuas entranhas.
Durante nove meses - laboratório de Deus - és um milagre acontecendo em todas as suas fases.
Aquela beleza aquela que fica para além dos olhos, que as mãos não modelam que os homens não sabem, que as crianças não percebem, que está em teu corpo.
(Não a beleza externa, da flor, mas, a recôndita, da raiz; não a beleza do adjetivo, mas a beleza do verbo.
No começo, era verbo).
Até que, de repente, Deus te revela em ti como um novo dia!
Então não és apenas mulher - és símbolo, universo, estrela...
E ao ver-te (e ao vê-la) te sigo como o pastor em direção da alvorada, me curvo como o lavrador sobre a terra já semeada, me ajoelho como o crente ante a imagem venerada, me comovo como o Poeta ao olhar doce da amada. Prosterno-me ante a mais simples e inédita de todas as belezas, (que importa se infinitas vezes repetida?) e, humilde e ignorante, (a alma por um mistério inefável possuída) feito rei e pastor me maravilho ouvindo a Vida cantar no choro de teu filho!
Ontem, vendo nas revistas,
fotografias dramáticas de crianças vietcongues, entre os escombros da cidade arrasada de
Huê, e junto a minha mãe, pude repetir mentalmente, em silêncio, como uma oração, os
versos do poema
NÃO, MÃE, HOJE NÃO SAIREI...
Não, mãe, hoje não sairei... Quero ficar contigo, quero ficar sozinho...
Não procures buscar além da minha face, acharias estranho se te confessasse minha angústia imensa... Hoje... quero sentir que não morri, quero ouvir que me falas, que vives, que está aqui, quero me convencer da tua presença!
Encontro-me só, debruçado à janela, daqui a pouco, bem sei, virás me perguntar: - Estás doente, meu filho? Com uma noite tão bela por que não vais passear?
Não, mãe, hoje não sairei... Quero ficar contigo, embala-me nos teus braços como em tempos de então... Não tenho febre, e até tenho dormido bem, não te preocupes, mãe... não tenho nada, não.
Chegaste, oh! Minha mãe, - e ao ver-te eu murmurei: Que doce a luz dos teus olhos! Que suave e belo o seu brilho! - Nossa Senhora da Paz!
E então me perguntaste: - Que crianças são essas no jornal, meu filho? - Órfãos, órfãos da guerra, minha mãe, crianças perdidas, sem esperanças, crianças tristes sem pais!
Sobre a minha cabeça a tua mão pousaste e um minuto, em silêncio, os dois ficamos... Eu sei que ambos pensamos nos soldados que morrem, nas mães que soluçam, nas crianças sem abrigo... Tão bom, oh! Minha mãe, eu sentir-me ao teu lado! Tão bom, oh! Minha mãe, eu ter-te ainda comigo!
(Eu nunca me encontrei com o espírito estranho e perturbado assim, - quem sabe se a alma errante de um soldado morto que longe dos seus caiu, sem carinho e conforto, não se encarnou em mim?
Por absurdo e inverossímil que esta idéia apareça senti na tua mão sobre a minha cabeça o carinho de todas as mães que não conheço nem nunca me conheceram, como se pelo seu gesto elas todas se expressassem, e com ternura afagassem os filhos que morreram!)
Não, mãe, hoje não sairei... Pensando em todos os órfãos cujos rostos estão nos clichês dos jornais, quero ficar contigo, e ter certeza que vives, ter certeza que vivemos e ainda somos felizes e ainda estamos em Paz!
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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