" Garimpando Sonetos "
A imortalidade de
um poema não é decretada pela crítica mas pelo referendum popular. Só o
tempo e a memória do povo - fichário de seu coração - consagram realmente um poema.
Homero foi declamado durante séculos pelos aedos gregos, antes
que escribas de Psitrato recebessem a incumbência de fixar pela forma gráfica os
seus dois poemas imortais.
Mas
com os poemas e sonetos acontece às vezes o mesmo que com as trovinhas. À
proporção que se popularizam, ou justamente por
isso, vão sendo envolvidos pelo anonimato. Das trovas,
quase se poderia dizer, talvez pela facilidade
com que podem ser decoradas ou transcritas, que muitas,
das mais belas, correm na boca do povo , esquecidas dos seus
autores. Uma delas, que todos nós sabemos de cor, tem sido atribuída não só a
poetas brasileiros como a portugueses. Leio agora,
entretanto, no número 25 do jornalzinho Trovas e
Trovadores , órgão oficial da União Brasileira de
Trovadores, num artigo de Luiz Otávio, e com documentação irrefutável, que pertence
a um trovador pernambucano Barreto Coutinho. É aquela quadrinha: Eu vi minha mãe rezando aos pés da Virgem Maria. Era uma santa escutando o que outra santa dizia.
Numa crônica anterior, Sonetos
Imortais, referindo-nos aos poetas que se imortalizaram apenas por um soneto,
citamos Romance de Octávio Rocha, que retiramos de velho recorte do
Correio da Manhã de mais de vinte anos, com um comentário em que o redator
Aédo de Carvoliva informa que o transcrevia de uma revista, e estranhava não conhecer o
poeta. Este soneto, que agora incluímos em nova edição de nossa antologia
Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou, volume I, (Poesia Brasileira), já
se encontra identificado. Recebemos uma carta do poeta, que vive atualmente em Campinas,
é jornalista, colabora no jornal Correio Popular, nasceu em Mogi-Mirim,
e conta 76 anos. Teve conhecimento de nossa c rônica
por intermédio de uma filha, residente em S. Paulo,
leitora da revista. Trata-se realmente de um belo soneto lírico,
cuja idéia é um verdadeiro achado, uma novidade, dentro do mais velho e do
mais difícil dos temas: o Amor. Como sugeri ao seu autor uma
pequena modificação, simples apara, em dois versos, para que o soneto
ganhasse em inteireza, sugestão que ele recebeu de bom grado, vou
transcreve-lo novamente, para quem não o recortou:
ROMANCE - Venha me ver sem falta, estou velhinha. Iremos recordar nosso passado. A sua mão quero apertar na minha, quero sonhar ternuras ao seu lado...
Respondi, pressuroso, numa linha: - Perdoa-me não ir... ando ocupado... Amei-a tanto, quando foi mocinha, e de tal modo, também fui amado.
Passou a mocidade, num relance... Hoje, estou velho, velha está... Suponho que perdeu da beleza os vivos traços...
Não quero ver morrer nosso romance: - prefiro tê-la, jovem, no meu sonho, do que, velha, aperta-la nos meus braços!
Quando eu apresentava, pela
Rádio nacional, o programa Encontro com a poesia, solicitei aos meus ouvintes
que, se conhecessem qualquer belo soneto me enviassem sem compromisso, e por isso,
eu lhes ficaria muito grato, já que não pertenço
(nem pretendo) a grupos literários. Pois bem em meio à correspondência, chegaram-me, inclusive, cadernos
inteiros de poesia. De dois destes cadernos recolhi quase cinqüenta
novos trabalhos, que acrescentei a 3.a edição de Os Mais Belos
Sonetos que o Amor Inspirou . Do caderno enviado pela Prof.a Maria José de Menezes,
organizado ao tempo em que era normalista, e onde, para minha alegria,
encontrei uma grande quantidade de meus sonetos, retirei entre outros, um intitulado
Mente Mais, de Raul Giudicelli. Não conhecia o poeta
de nome, e julguei até pudesse ser a t radução de
algum soneto de autor italiano. Pesquisando, entretanto, acabei
por localizar o escritor que mora no Rio, é carioca, da Ilha do Governador,
não tem livro publicado, e faz parte da direção da revista O Cruzeiro. Eis
o soneto:
MENTE MAIS
Sei que os carinhos teus sempre serão carinhos mentirosos, aparentes, mas não sei se é vaidade ou compaixão o secreto motivo por que mente...
Sei que não falas pelo coração quando falas do amor que por mim sentes, mas tens finuras tais de sedução que das próprias mentiras te desmentes...
Se puderes dizer-me sempre sim com ternuras e olhares sempre iguais, sem te cansares de mentir assim,
sem te esgotares de mentiras tais, não te apartes, então, jamais de mim, e eu te peço, querida, mente mais!
E já que estamos garimpando
poesia, e que devo a revista Jóia a identificação de uma gema
preciosa, vou aproveitar a oportunidade, e encerrar esta croniqueta com um soneto,
retirado ao caderno de outra ouvinte, onde foi copiado sem o nome do autor. Publicado, talvez os leitores me ajudem a
descobrir o poeta. Escrevam-me enviando os dados biográficos, pois que o soneto figura
também na nova edição da antologia, mas como anônimo.
RÉU DE AMOR
Sou réu de amor! Confesso o meu pecado porém não me arrependo desse crime, que amar alguém e ser também amado é o crime mais gostoso e mais sublime!
A confissão por certo não redime a quem quer continuar a ser culpado, e seu for, por acaso, condenado, não há razão para que desanime.
Pelo contrário. Altivo, embora fique meu coração partido em mil pedaços, eu quero que a justiça se pratique...
Sou réu de amor, e julgo-me indefeso! Pela justiça, entrego-me a teus braços: eternamente quero ficar preso...
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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