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" Entrevista Comigo Mesmo "

- Que Pensa da arte?
    Insopitável necessidade de emergir. Todos nós que vivemos soterrados em tantos "eus", sentimos ânsias de ar, de sol, de revelação, de comunicação. A arte ajuda o homem a se aceitar, a compreender o mundo que o cerca, a se aproximar de Deus.  A alma humana, como as baleias, vive mas precisa vir à tona para respirar.    

- E do poeta ?
   É um tradutor de realidades subjetivas.  Um transfigurador. Um mergulhador dos mares do espírito.  É através  de  mensagem,  que   o homem comum consegue atingir
"o outro lado" das coisas! Seu trabalho enriquece a todos. Já o poeta é um prestidigitador  - faz   mágicas  com  a  Vida -  transforma  água  em   vinho, para a embriagues da beleza.                                                                                                    
Mas há o reverso da medalha: quantos poetas tenho encontrado que apenas não fazem versos!                                                                                                                  

-E da poesia ?
    É a ciência do coração. Os poetas são os sábios do sentimento. E quantas coisas revelam  sem  se aperceberem  de suas descobertas.     Tenho dito muitas vezes: são seres  que  pensam,   sentindo ou, pensam,  porque sentem.  Constróem seu mundo com emoções.                                                                                                                 
Quando pretendem filosofar, falam de amor.  E falar de amor já é fazer poesia.
A poesia é criada pelo pensamento, mas seu material é o sentimento.  Cobaias de si mesmos, os poetas, em experiências e pesquisas constantes, revelam a vida, são apenas homens que nasceram poetas.                                                                         

- Então, o poeta não é um ser diferente?
É um ser diferente num homem comum. Sou um homem comum, apenas dispondo de recursos para realizar uma tarefa que não está ao alcance de todos.  O poeta é como  um   alpinista, que  já  nascesse  trazendo  em  si   mesmo os  instrumentos e apetrechos para poder realisar escaladas.                                                                     
Sou um homem comum que anda na rua, canta no banheiro, vai ao futebol, toma porre , diz   palavrão,  faz  versos para ela; que ama, briga, sonha, desespera, como qualquer um.   Há um velho adágio latino:
"primeiro viver, depois filosofar".         Bem se poderia parafrasear: primeiro viver, depois poetar.                                         

- E por que acha que faz poesia?
Talvez porque a única coisa que sei, e sei mal, sou eu mesmo.  Se ninguém gostasse de minha poesia ainda assim a faria.  Pois nasci para isso.  Não é tanto que eu goste de minha poesia, mas porque preciso dela, o que talvez venha a ser
a mesma coisa.                                                                                                            
Mas, o fato é que, sem minha poesia., ficaria doente, como um índio confinado numa cela, sem sua selva, seus rios, seus pássaros, sua liberdade.  Me encontro nela como peixe no mar.  Ela me dá a impressão de que não é só do meu espírito, mas do corpo também.  Eu a sinto, quase fisicamente.    Os artistas são como as cigarras: estas, morrem de tanto cantar; nós, se não contarmos, morreremos.       

- É fácil ou difícil fazer versos?
   Fácil, ou impossível.  Impossível, no sentido de ser.    Você pode se tornar um pianista, nunca um "virtuoso".  Você pode aprender a fazer versos, nunca a ser poeta.  Poesia não é só construção.  Se não, poderíamos abrir uma escola para poetas, como há uma escola de Engenharia ou de Direito. E é preciso que se diga isto, quando há uns poetas por aí negando-se a si mesmos.                                       
Quanto a mim, já respondi:                                                                                           
Eu faço versos assim,
como quem respira ou canta
a poesia nasce em mim,
como do chão nasce a planta.

- Gosta do que faz?
        É como se me perguntasse se gosto de rir, ou de chorar.  Gosto de cantar, de mataborrar minha alegria ou minha dor em versos.  Poderia até responder numa quadrinha:                                                                                                                     
Eu faço versos assim
como quem ri, ou quem chora,
e ao arrancá-los de mim
fico nú e vou-me embora. .

- Que acha de sua obra?
    Seria difícil responder, de dentro dela, onde me encontro.Faltam-me isenção e perspectiva. Mas sou um velho fazedor de versos, que em suas releituras muita vez não se reconhece em sua própria obra.   Somos tantos afinal, em nós mesmos, em mortes e renascimentos  que  nos  acabam  e  nos   multiplicam.  Mas  seria um pai desnaturado se não gostasse  do   que  nasce  de  mim,  com  todas  as qualidades e defeitos que são os meus.                                                                                              

- Julga-se um poeta moderno?
            Um poeta  moderno é o que se  comunica  com o seu tempo,  e lhe traduz as esperanças, anseios, desesperos.   Se  os  moços  lêem  os meus versos e os sabem de cor, e os escrevem em seus cadernos, e compram meus livros, então não sou apenas um poeta moderno, de hoje, mas um contemporâneo do futuro, porque já estou me dirigindo ao amanhã.                                                                                                    

- Que acha do amor, como tema poético?
   O mais importante.  Veio explorado, mas inesgotável, só os verdadeiros poetas conseguem, encontrar-lhe novos "filões".  Confessei em "Eterno Motivo": Não me envergonho nunca de falar de amor.  E repeti, em "O Poder da Flor".          
Acima de tudo cantarei o amor.
O de Cristo e Confúcio, o de Romeu e D. Juan,
o de Che Guevara,
acima de todo cantarei o amor.

- Então, o amor é o grande tema ?
    Sim, o amor, a vida.  Está no meu "Cantiga do Só" poesia sem vida, é como flor de papel, de matéria-plástica.  Falta-lhe   seiva, viço, perfume.  Não  será  mel nem fruto.  Não conhecerá pássaros nem abelhas. É uma imitação triste.                       
E a poesia tem que ser múltipla pelas próprias contingências da vida.  Sem falar de minha poesia social e política (sou talvez o único poeta brasileiro com livros de poesia política: "Estrela da Terra", "Mensagem", a segunda parte de "O Poder da Flor), minha obra lírica evoluiu, como é natural, a cada livro.   Hoje, nos meus últimos livros, meu lirismo é um canto dramático, em que o lírico é mais um fio melódico, à distância.

- Há lugar para a poesia em nossos tempos?
Em todos os tempos.  E quanto mais árido o chão, mais sede de beleza sentirão os homens.  Nas bicas, nos cantis, nas mãos, no coração, nas pedras, a poesia é água fresca sem a qual a vida morre. Por isso já escrevi: Alegria / é apanhar no chão,/ a água da minha poesia / a correr, / e dar a quem tem sede no coração / para beber.
Isto me dá a sensação também da constante utilidade da minha poesia, pois percebo que muitos precisam dela, como de um pedaço de pão, ou de um gole d'água.
A poesia é, além do mais, companhia e confidente.  E quanta solidão anda por aí desarvorada, sem uma porta que se abra, um coração que a receba !

-
Que acha da criação?
Não sei defini-Ia.  Sei que após ela, nos sentimos leves e felizes, como devem se sentir as mulheres após a maternidade, as crianças depois das aulas, a terra depois da chuva.  Proust a definiu: decolar. . .


-
Há inspiração?
Sim, é um toque de Deus no artista. Uma espécie de "mediunidade". Um transe, um "estado de graça" tão natural, como a manifestação do amor. O poeta não é apenas "o arquiteto, o engenheiro, o construtor, o operário" como diz Vinícius, mas o próprio morador do edifício, e sem sua presença, a sua construção é menos que uma ruína, será um edifício vazio, sem alma, sem sentido.  Com o pensamento, o homem faz prosa, faz Filosofia, Direito, Teatro, Romance. Sem o sentimento, não há poesia, ou o que há de poesia, será àquela vaga emoção que o pensamento conseguiu perturbar ou despertar.  Alguns, raros, poetas, pensando, se emocionam.   O processo da criação poética é, entretanto, outro; sem trocadilho, inverso: porque se emocionam, os poetas pensam, e então criam.
E o ato de criar verdadeiro é imprevisível.  O poeta, não diz: bem, vou fazer um poema.  O poema é que vem, e diz: estou aqui, escreve-me. Tentei explicar todo um livro, "Harpa Submersa": sua linguagem escorreu como lava de vulcão, fixando todas as emoções e angústias interiores.  Cristalizou-se muitas vezes, como os minerais que constroem ângulos e arestas sem conhecer as leis das cristalografia.

Assim é a poesia.

         

( Crônicas  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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