" Com Os Moços "
Imagine-se a notícia, em manchete, no jornal sensacionalista:
"Cabeludo pulava todas as noites a janela do apartamento da namorada!"
E a história: as famílias se odiavam, não queriam o namoro. Mas eles desobedeciam
os pais, e resolviam a seu modo o romance proibido. Os comentários viriam unânimes:
"Transviados!"
Se transferíssemos, cena e romance, para os fins da
Idade Média, para uma pequena cidade italiana no sopé dos Alpes, teríamos o drama
imortal. Quem não se emocionou com o idílio de Romeu e Julieta -
o amor que acabou em tragédia pela rivalidade das famílias Montecchio e Capuleto?
E embora se negue a existência real dos dois
amantes shakespearianos, eles ficaram como um símbolo dos
arroubos e da paixão dos jovens, reagindo, e às vezes pagando caro a
incompreensão e os preconceitos levantados pelas velhas gerações.
E que me conste, nunca chamaram a Romeu e Julieta de "transviados"... Na verdade, quando penso na juventude, lembro-me do verso de Keats:
"A thing of beauthy is a joy for ever"
Não sei quem teria inventado
a frase infeliz com que se procura ferretear indistintamente os
moços: "juventude transviada".
Toda juventude é naturalmente
explosiva, exuberante, excessiva, apresenta transbordamentos
inevitáveis. Do contrário seria madureza, velhice
precoce. Não compreendo um moço comedido,
meticuloso, voltado para dentro de si mesmo. Nessa idade, o mundo exterior é todo
encantos, atrações, convites.Não há trilhos, nem trilhas, ou roteiros
preestabelecidos. É a época das descobertas, da aventura, da ânsia
por obstáculos que sejam desafios à coragem,
à audácia, à necessidade de auto-afirmação.
E é, ao mesmo tempo, uma idade
dramática, fase de transição, alvorada de contradições, de conflitos, de
dúvidas, quando faz falta uma luz à frente, uma mão companheira, um guia.
E eis também, de certa forma, justamente, o que não
têm encontrado os jovens de nossos dias.
Posso testemunhar: convivo
com eles há muitos anos. Encontro-os todos os dias como professor. Nem
está tão longe o meu tempo de moço que não possa
lembrá-lo, ou tenha me esquecido de seus impulsos,
seus " vôos cegos ", seus desregramentos e
sonhos.
Se tivesse que diferenciar a juventude de hoje
da minha, diria que nós éramos mais " acadêmicos ", mais "
clássicos ", posávamos mais de sérios. E, de
certa forma, mais ingênuos. Que de caminhos a realidade tinha que percorrer
antes de nos encontrar. Os veículos de comunicação eram poucos e tardos.
Entre nossos mundos, o historiador de amanhã colocará
certamente o marco que separa dois períodos históricos.
A juventude de hoje é mais dinâmica, inquieta, politizada.
Constato isto, por exemplo,
por um caderno de recordações onde recolhi
impressões de meus antigos companheiros de turma no Colégio Pedro II,
e pelo nosso álbum de formatura - "Adeus", - onde,
sob as fotografias, aparecem os lemas de cada um: todos
ingênuos, românticos, jactanciosos.
Assim éramos nós, nas atitudes e nas
palavras. Absorviam-nos preocupações literárias e esportivas.
Fundávamos e dirigíamos jornais, grêmios
culturais, academias. Poucos de nós espiavam sobre os altos muros que nos
cercavam para descortinar outros horizontes. As lutas políticas nos
esperavam mais adiante, no Curso Superior, nas Faculdades, onde
nos engolfaríamos em agitações nacionalistas, em campanhas
democráticas contra o fascismo e a ditadura.
A juventude de hoje ( e tinha que ser assim) é
atraída, desde cedo, pelos grandes problemas.
As fronteiras secaram. O homem devassa o espaço. O mundo encolheu. A história não, vem nos livros, acontece
diante de seus olhos. É testemunha dos fatos. Os povos se debatem. Sucedem-se
crises e guerras. A fantástica visão dos cogumelos atômicos é uma ameaça sinistra no
ar! Os moços não podem fugir às contingências de seu tempo. Seria
deserção e covardia.
Sou dos que pensam que, desde o
curso secundário, a juventude pode e deve tomar conhecimento da realidade que a cerca,
sem prejuízo de seus estudos. É um conhecimento necessário, uma
aprendizagem humana e cívica que deveria ser considerada
como uma atividade extra-escolar normal.
Não concebo um moço que não seja idealista,
generoso. Mocidade é sinônimo de pureza de intenções, entusiasmo, lealdade.
Sua presença na política se
constitui sempre num elemento decisivo para distinguir as
boas e más causas, os bons e os maus propósitos. Só os que receiam ser
desmascarados em seus objetivos escusos a temem.
Por isso escrevi "Posição", um poema de "Mensagem".
Parece haver uma atitude preconcebida dos
mais velhos, de gerações frustradas, contra os
jovens. Esta atitude deixa à mostra um
complexo de inferioridade, ou um sentimento de culpa, diante de uma mocidade que caminha
por si, e vai se realizando apesar de tudo, sem orientação, ajuda, e, o que é pior,
compreensão.
Uma mocidade que não vê, portanto, porque tenha que seguir os mais velhos Afinal, por
quê;? Para onde? E para quê? Para que o mundo continue como está.;
Então, é preferível seguir só, denunciando inclusive os culpados pela
herança que terão que receber.
A verdade é que a mocidade de hoje é uma mocidade que não se
envergonha de pensar por si, de sentir, de se olhar no espelho sem qualquer hipocrisia.
Afirma-se tal como é, choque a quem chocar. E daí? Não terá ela também o
direito de se sentir chocada com o mundo que seus pais lhe deram?
Compreendo os moços. Sinto que poderia ser um deles, e que, de certa
forma, continuo sendo. Que alegria quando escuto dizer que sou o "
poeta do povo e da mocidade"! Eles querem apenas
ser. Ser como são, e melhor que nós. Confio neles.
Tenho a certeza de que podemos p assar-lhes o bastão
sem medo. Eles encontrarão o caminho que não lhes
indicamos, e reconquistarão, por nós, não para nós, o tempo e o mundo
perdidos.
( Crônica de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 ) ***************************************** 
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