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" Caminhos Para a Solidão "

        
A verdade é que à proporção que vivemos, vamo-nos sentindo mais sós, como uma   ilha cercada de gente por todos os lados.Não  a solidão dos cosmonautas,povoada   de silêncios e de  estrelas.  Mas a  solidão  de um carnavalesco, cantando para não chorar, para se esquecer que está sozinho.                                                                   

                                     "Por certo a pior solidão
                                       é aquela que a gente sente
                                       sem niguém no coração,
                                      no meio de muita gente."


     Gente tão perto de nós, com quem se esbarra na rua, que se atropela na corrida para  apanhar  a  condução,  que  se   acotovela  nos  ônibus,  nos trens;  gente  tão próxima, mas na realidade, cada vez mais distante.                                                     
     Gente que não existe.  Ou  por outra, que existe como multidão, anônima, fora de nossas realidades, apenas vago e fantástico cenário.                                              
     Sociólogos,  psicólogos,  têm  procutado   estudar  o  grau  de desumanização do homem e da vida nas grandes cidades. Urbanistas e arquitetos projetam concepões salvadoras  para  esse   pobre  homem criado num caos. Que restará do homem que havia  dentro  de  nós ?    Veja-se  a  indiferença  com   que  encontramos  pedintes miseráveis, crianças abandonadas, criaturas doentes, e seguimos tranqüilos para a nossa sessão de cinema. Sua dor não nos toca; seus problemas não nos preocupam; fazem parte de todo um complexo mundo, em que vamos vivendo, despercebidos de nossa desumanidade. E a nos dizermos cristãos.                                                          
O remorso ficou no poema:

                                           "Às vezes me envergonho
                                            de alguma ajuda recebida,
                                            quando sei que há tantos homens mais necessitados
                                            sem um gesto de apoio ou de acolhida.

                                           Me envergonho de gozar meu reduzido conforto,
                                           quando sei que há tantos homens inteiramente
                                           desabrigados, sem destino nem porto.

                                           Me envergonho de meu egoísmo a se chamar de
                                           altruísmo, quando dou uma esmola
                                           e contínuo para a minha seção de cinema."

Bem diz a amarga 1etra da canção:
"Ninguém é de ninguém"

  Não temos tempo para os contatos cordiais, para cultivar a amizade , para trocar idéias em  torno  da  mesa  de  um bar, ou  de  um café. Inventaram uma profissão
"relações públicas", mas para se ganhar mais dinheiro. É diferente.                        
      Os cafés que tinham mesas, os antigos cafés que eram como salas-de-espera de populares academias literárias,  há muito desapareceram.   Os próprios bares já se transformaram. E não só o cafezinho, ou a laranjada, tudo é tomado às carreiras, de pé, sem oportunidade para uma pausa amistosa, sem esse calor humano que faz do homem um ser integrado em sua coletividade.                                                        
      Vivemos nas grandes cidades a pior de todas as províncias, cada um com a sua pequena
"linha-circular". Passamos, diariamente, a carbono, a nossa vidinha.       
      Acordamos  à  mesma  hora,  apanhamos a mesma condução,  encontramos as mesmas pessoas, trabalhamos com os mesmos colegas e companheitos.                     Conhecemos   as  caras  dos  cabineiros,  motoristas garçons, jornaleiros. São os habitantes  da  nossa " província   cotidiana ", mas, no  fundo, nada  ou  pouco representam. São apenas acidentes do nosso itinerário, e a eles não nos prendem laços mais profundos que cumprimentos convencionais ou comentários supérfluos.
O
"cafezinho" - essa expressão que encerra, no fundo, uma indisfarçável ternura do brasileiro por alguns efêmeros minutos de convívio humano, - é o último refúgio de sua inevitável desunanização. Saturado de trabalho, de tédio, ou da vida, da repartição ou do escritório ele tenta a escapada:
"Vamos tomar um cafezinho?"
Mesmo em pé, comprando ficha, sem poder sentar-se, ele se refaz um pouco. Tenta lembrar-se de si mesmo, dos outros. É o seu segundo de higiene mental, seu resto de sociabilidade. A oportunidade para um "papo" com o amigo eventual, ou com o conhecido. Para olhar as belezas que passam tão perto dos olhos, e tão longe... Para rir-se um pouco. Ouvir, ou contar a última anedota. Para sentir-se, durante uns poucos momentos, uma pessoa humana.
As grandes cidades vão asfixiando o homem, como um imenso polvo em seus tentáculos de concreto e de asfalto. Homem de infância no interior, o Rio (de Janeiro) às vezes me angustia, me oprime. Quase diria: me amedronta. Sinto necessidade de fuga. Mas, para onde? Fuga, não só ao ar cinzento, aos ruídos, letreiros luminosos, mas, principalmente à multidão indiferente que escachoa ao redor, atordoante e estranha. Que não sabe que existimos, não se interessa por nosso destino, não participa de nossas emoções; tão ao nosso lado, mas da qual nos mantemos capilarmente isolados.                                                                         
Li, não me tembro quando, que um arquiteto suíço, Honeger, tendo construido um bairro, numa cidade africana, para tribos pouco civilizadas, projetou-o com todas as comodidades modernas inclusive água encanada. Para sua surpresa, quando expôs seu plano, as mulheres não gostaram. Preferiam suas antigas choças, mesmo sem tanto conforto, e sem água encanada.       Preferiam continuar indo à fonte de águas limpídas, onde    enchiam     seus      vasilhames de barro, ou suas latas. Era justamente     nesses    momentos que elas esqueciam um pouco o trabalho de casa, perdiam tempo conversando, tagarelando, e se sentiam humanas, deixando de lado problemas e preocupações. Era, digamos assim, para aquelas humildes criaturas, a sua vida social.                                                                                                             
A civilização atual vai tirando ao homem todas as oportunidades de poder perder tempo. O homem vai se esquecendo de que, o que ele perde em tempo, ganha em vida.                                                                                                                               
Esses que não têm tempo a perder, são justamente aqueles que perderão a vida num passo adiante. Os homens se esqueceram de que não são máquinas, de que o coração não é um dínamo, de que os nervos e o espírito não possuem a estrutura ou a resistêncta do aço.                                                                                                
      Já que somos uma ilha cercada de gente por todos os lados, vamos lançar, ao menos, vez por outra., uma ponte para o grande continente da convivência e da solidariedade humanas. A soliddo dos homem normais é aquela que não prescinde das alegria da amizade, da companhia do amor.                                                         
    Oh, a inveja que sinto, hoje, dos moradores das pequenas cidades. Os que ainda têm   tempo   para se sentar   nos  bancos das praças, nas mesas dos cafés, olhar as belezas que passam, discutir política, "salvar" o mundo dos outtos, porque o seu está seguro.            Os que se visitam e são visitados. Os que ainda podem ter uma província verdadeira, mesmo violentada  pela    televizão,    mas sem a subversão do tempo.                                                                                                                             
     Os que  ainda tem  tempo para ler  livros, ouvir música, olhar o céu, admirar a paisagem.   Os  que  ainda  têm   tempo  para amar a paisagem  e os seres e   - Oh!, suprema ironia! - até para se lastimarem da vida monótona de sua cidadezinha, o seu Paraíso impercebido.                                                                                              

         

( Crônicas  de JG de Araujo Jorge extraído do livro
" No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )

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