" Brinquedos Para a Paz "
Ainda recentemente tive oportunidade de tomar conhecimento
de declarações e de um apelo do Papa Paulo VI, inteiramente
coincidentes com os meus pontos de vista, nesta crônica.
Ontem surpreendi, diante de
uma vitrina de casa de brinquedos na Avenida Copacabana, três meninos.
Três meninos; como todos os meninos, com aquele
olhar de espera das coisas, aquele encantamento
que nem a miséria consegue manchar. Três meninos com desejos de meninos, com alma
de meninos. Com uma diferença: sem infância, filhos
de gente pobre. Talvez sem pais.
Eram três pretinhos, destes que andam soltos pelas ruas, de pés no chão, sujos,
que vivem ou vegetam nos casebres dos morros, que se defendem da vida como podem. Vamos encontra-los por toda parte: vendendo amendoim;
engraxando sapatos; ajudando, com seus toscos carrinhos de
caixote, o transporte das compras, nas feiras; e ainda, tarde da noite, à
porta dos cinemas e de outras casas de diversões, tentando vender balas e dropes. Mesmo que tenham pais, são ó
rfãos do Natal, não têm Papai Noel. Nunca o conheceram, e às vezes nem sabem dele. Estavam os três diante da vitrina. Não estavam tristes. Olhavam e
comentavam o que viam: o trenzinho que podia correr sobre trilhos, atravessar
túneis e pontes, acender o holofote; uma bicicleta, com seus metais
rebrilhantes, imponente como Gulliver no mundo liliputiano dos outros brinquedos; bolas de
futebol. A um canto, um posto de gasolina, em miniatura. E uma série de revólveres, imitações perfeitas, em tamanho natural. Um deles fixou os revólveres: - Olha, foi com um daqueles que o Tião botou o tira pra correr
lá no morro. Os outros riram. Não pude continuar ouvindo o que diziam. Mas segui pensando na
conversa dos garotos e no seu estranho mundo sem Natal. Pode haver
realmente coisa mais triste que uma criança sem Natal? E afinal que vem a ser Natal? É uma
festa de pessoas abastadas, às vezes felizes, que
podem reunir a família em torno de uma mesa
sortida, que podem presentear os filhos. Mas é também o dia do ano em que se acentuam
contrastes e desigualdades que, nos outros dias, passam despercebidos. No Natal se
defrontam duas infâncias: a bem nascida e a abandonada. Nesse dia, a
caridade organiza os tristíssimos natais dos pobres ,
com distribuição dos pacotinhos de plásticos e guloseimas, que só adoçam
minutos, em vidas inteiras de desamparo e amargura. Mas voltemos à imagem dos três garotos diante da vitrina. Ocorreu-me
então a idéia para uma campanha que deveria ser feita, no sentido de
que se abolissem pouco a pouco os brinquedos que lembram a guerra ou sugerem
o crime. Sei bem que os psicólogos e educadores consideram a questão
controvertida e discordam em suas opiniões. Tenho, entretanto, para mim, que uma
criança criada de armas na mão, nas brincadeiras de todo o dia,
acabará com as armas no pensamento, um homem para quem as atividades bélicas, militares
ou mesmo criminosas, se fixarão como uma ação rotineira em seu
subconsciente. O fato é que as lojas de brinquedos estão
cada vez mais cheias de revólveres, metralhadoras, carros de assalto,
aviões de combate, capacetes
policiais, cassetetes, enfim, uma verdadeira mostra
de arte bélica, sugerindo um futuro ameaçador, num mundo já
tumultuado por conflitos e truculências de toda ordem. Não há dúvidas de que as armas de guerra
se prestam para a confecção de brinquedos interessantes.
Mas porque não fabricarmos apenas os belos aviões a jato,
para passageiros; substituirmos ostanques por tratores;as
metralhadoras por arados? Há, além do mais, uma variedade
de coisas úteis e belas, ligadas a atividades pacíficas e culturais para servirem de
modelos a novos brinquedos. Hão de me responder, bem sei, que o mundo que cerca homens e crianças
é este mesmo, e que por isto, os interesses infantis se
dirigem para tais objetivos sem que possamos evitar. Mas aí,
justamente, é que entraria uma campanha neste sentido,
visando contribuir para que a infância contasse com mais elementos para se
libertar das visões de guerras e das sugestões do crime. Tenho a
convicção de que pelo menos é algo que deveria ser tentado. De qualquer forma, a senhora ( ou o senhor ), quando comprar o
brinquedo para seu garoto pense que pode, inadvertidamente, estar contribuindo para
a distorção da personalidade de seu filho. Este
menino a quem a senhora dá a mão para atravessar a rua: a quem
recomenda que seja bonzinho, que estude; que espera ver um
homem tranqüilo e trabalhador, é o mesmo que vai receber no Natal
uma farda de policial, com revólver, cassetete, e tudo o mais. Lembre-se do adágio popular; O uso do cachimbo faz a boca torta. Há nas festas do Natal
extraordinárias possibilidades de educação e
de orientação para as crianças, desde
a exaltação do significado
cristão de fraternidade universal, que a data sugere, até a simples compra
de um brinquedo. Vamos dar aos nossos filhos brinquedos úteis e pacíficos, que
os levem a idéias generosas, ao desenvolvimento d a inteligência, ao
rabalho, à compreensão, ao amor. As fábricas de brinquedos só faltam oferecer aos
homens de amanhã, lindas e detalhadas miniaturas de bombas atômicas. Cabe aos pais a decisão. Se
a preferência pelos brinquedos para a Paz se acentuar, a cada ano
que passe, os fabricantes acabarão
por modificar seus futuros planos industriais. Foi com esse espírito que um dia escrevi este poemeto do Canto
da Terra:
FUTURO
Era após a última guerra...
O homem vestido de preto da cabeça aos pés
parecia que estava de luto, e falava aos fiéis
como há mil anos faz:
-Que enfim possa a hecatombe ter servido
de experiência aos homens,
e no futuro, os homens vivam em paz...
No dia de Natal, a criança órfã dizia à mãe
ainda desconsolada:
- Quero que Papai Noel
traga do Céu
um tambor e uma espada!
Tenho a
impressão de que enquanto Papai Noel trouxer do céu, tambores, espadas,
metralhadoras, revólveres, os homens não viverão em
paz, ou, pelo menos, não se encontrarão em condições de lutar por
ela. As crianças que hoje
brincam de guerra não serão certamente os homens mais indicados para construírem a Paz de amanhã.
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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