" Brasil: Do Mito à Realidade "
Uma coisa que sempre me
pergunto é se é válida essa imagem do Brasil que as nossas professoras do curso primário nos dão. Um Brasil ideal, perfeito, poderoso, colorido, como o mapa que está pendurado na parede da sala de aula, ou como as letras dos hinos que cantamos, empertigados, sem compreender
o sentido de tantas palavras sonoras e misteriosas. O Brasil
gigante pela própria natureza,
deitado eternamente em berço esplendido,
onde o nosso céu é mais azul,
nossos campos têm mais flores,
nossos bosques têm mais vida,
nossa vida, mais amores.
Um Brasil para festas
cívicas e paradas militares, com banda de música à frente tocando a protofonia do Guarani, onde a visão dos tanques e
canhões se confunde em nossa imaginação infantil com os
passos marciais dos soldados, numa enganosa impressão de poder. Talvez esse Brasil, menos de
história que de lenda, seja uma compensação para o Brasil das manchetes diárias dos jornais, dos economistas, dos
políticos, dos médicos como Miguel Pereira:
O Brasil é um imenso hospital.
Porque há dois
brasis, um real, palpável, conflitante
com as nossas esperanças, desafiando as nossas idéias, complexo e apaixonante,
que vamos conhecer depois, de olhos abertos, apresentados por Euclides da Cunha, Oliveira Viana, Roquete Pinto, Monteiro Lobato, Celso Furtado, Josué de
Castro; e um outro que diria, também dos românticos e
parnasianos, de José de Alencar, de Gonçalves Dias, de Castro Alves, de Bilac. Os poetas modernos já têm os pés no
chão, e vão injetando realismo em seus cantos, mesmo quando permanece a euforia bandeirante de um Cassiano Ricardo. Vão de cansando daquela imagem escolar, com alegorias de préstito carnavalesco. Ronald de Carvalho, contemporâneo,
começa assim seu canto ao Brasil:
Nesta hora do sol puro
palmas paradas
pedras polidas
faíscas
cintilações
eu ouço o canto enorme do Brasil.
Avisa, entretanto, logo
adiante:
Tua pátria não
está somente no torrão em que nasceste tua pátria não se levanta
num simples relevo topográfico.
Mas, a verdade é que há aquele Brasil geografia, paisagem,
cosmográfico. Lembro-me da minha professorinha, no longínquo Grupo Escolar 7 de Setembro, em Rio Branco, no Acre: O verde da nossa bandeira são as nossas florestas, o amarelo, o ouro do
subsolo; o azul, o nosso céu de anil. Nossos limites
vão do Oiapoc ao Chuí, do Acre ao Atlântico.
É o Brasil do conde Afonso Celso,
rimando anil com mil, varonil, viril, juvenil, senhoril:
Salve nação predestinada
ao nobre, ao grande, ao senhoril
bendita pátria idolatrada,
salve Brasil! Salve Brasil!
De Casimiro de Abreu:
Todos cantam sua terra
também vou cantar a minha.
De Gonçalves Dias:
Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá
as aves que aqui gorjeiam
não gorjeiam como lá.
De Fagundes Varela:
Bela estrela de luz, diamante fúlgido
da coroa de Deus, pérola fina
dos mares do Ocidente.
De Martins Fontes:
Virgem mãe, verde-pátria, meu culto te quer
fisicamente como um bárbaro encantado.
Álvaro Moreira, mais recente, já alterou esse canto que se comprazia em exaltações fantasiosas, e olha o Brasil mais a fundo:
Brasil branco, preto, amarelo
café, algodão, cana-de-açúcar, borracha, manganês,
cacau, erva-mate, couro
revoluções.
O que não impede de continuarmos em coro os versos de Bilac:
Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste!
Ou os de Olegário Mariano:
Vinde ver! Vinde ouvir, homens de terra estranha
o Brasil de minha alma, atormentado e aflito.
O fato é que no curso
secundário, ouvimos pela primeira vez o refrão, tão ao gosto das cassandras políticas, repetido pelo meu velho mestre de
História do Brasil: Somos um país à beira do abismo! Sim, crescemos, vivemos,
aprendemos, mas também acabamos por concluir que não se pode prescindir daquele Brasil descoberto nas viagens da infância.Como se
falar às crianças, na idade do canto, em tempo de alegria, de um Brasil que nã o
seja esse dos hinos, dos poetas românticos, das professorinhas e dos
militares? Nem poderia ser de
outra maneira: elas não compreenderiam. Afinal se o amor embeleza e purifica o objeto de seu culto, o amor à pátria não foge à
regra. A tese poderá suscitar
controvérsias. Como aquela, por exemplo, do Papai Noel natalino. Há os que consideram o Natal uma farsa e uma
mistificação, que choca a muitas crianças. Principalmente no Brasil, com um Papai Noel importado, de longas barbas brancas, sob pinheiros com neve de algodão. Mas sou
dos que votam a favor de Papai Noel, como de tantas
outras lendas que povoam de encantamento as nossas lembranças. As lendas, como a beleza, como a infância, como a poesia, não conhecem fronteiras. Acredito, pois, que se deve manter aquela
imagem ideal da pátria, justamente porque é ideal. É uma espécie de Brasil-Papai-Noel de
que nos falam quando somos crianças: bom, belo, festivo, que a gente precisa acreditar e que
não deve ser modificado. Até, porque, não chega a ser uma mentira, se
é apenas o arcabouço lendário de um papai verdadeiro, de carne e
osso, que existe, que nos dá tudo, e a quem amamos conscientemente, mais que à ingênua
ilusão que enfeitou nossos sonhos. A luta é, afinal, não
para destruí-lo, mas para que exista para
todos. E o importante é que não nos apeguemos à imagem da
infância; a idéia falsa d e um Brasil que é rico e
grande sim, mas que só pode ser forte e poderoso com a
vontade e o esforço de seus filhos. Que os dois brasis
coexistam. Que o nosso empenho seja afinal para que um dia os dois se fundam
num só: para que o Brasil dos políticos, dos economistas, dos s ociólogos
possa ser exaltado por todos os poetas, e cantado, não apenas
pelas crianças, mas por todos nós.
( Crônica de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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