" Bilac - Parnasiano ou Romântico ? "
( O Globo, 27/11/1968 )
Houve recentemente uma reunião de poetas e
críticos, em algum lugar, em Copacabana, reunião,
promovida pela União Brasileira de
Escritores , para debates " sobre as modernas
correntes da poesia brasileira ". Soube do fato por uma
reportagem numa revista. Como sempre, nao fui convidado. Tal como
disse no poema: "Não me recebem. Estão sempre em reunião
importante".
Faço estes
comentários porque, na tal reunião, em meio a
discussões acirradas, conceituando o "concretismo, a
praxis", a "poesia-processo ",
e em que cada "gênio incompreendido" definia
a poesia com sua metafísica especial, houve um poeta que se levantou para
negar Bilac.
E declarou alto e bom som:
Olavo Braz Martins dos Guimarães
Bilac foi um poeta medíocre, um poeta quadrado, não existe.
Para o vate
iluminado, autor desconhecido, toda obra de Bilac é horizontal,
nula. Não fez poesia.
A reunião palaciana,
promovida pelos poetas-polainas da UBE, permitiu que cada um definisse
poesia como isso e aquilo. São os
teóricos da estética, os filósofos do verso. Agora, poesia mesmo que é
bom, não fazem.
E isto me trouxe à
lembrança um recente movimento da chamada poesia- processo.
Os iconoclastas ingênuos
se puseram a renegar, indistintamente, todos os poetas
anteriores, de Gregório de Matos a Carlos Drummond,
e aos berros pretendiam combater a palavra como instrumento de
expressão. Seria o caso de se pedir que fizessem silêncio, um
silêncio de ouro, como o do adagio popular.
Uma vez, numa entrevista, me
perguntaram sobre que achava do movimento concretista na
poesia. E respondi que não
era um movimento, mas uma simples arruaça literária, sem
maiores conseqüências. Seu mérito foi apenas o de chamar a atenção dos que
trabalham a sério, dos que trouxeram condições de ser, e então, diante da pedra
atirada na vidraça, repensam a própria obra, balanceiam a
mensagem, apuram o instrumento de
comunicação. Arte é comunicação. E por
isso, Bilac está vivo.Poeta lido, declamado,memorizado pelo tempo, falando de
amor, sua poesia continua nos cadernos da mocidade, nos recitais, na memoria do
povo. Para se negar sua poesia
seria preciso se rebatizar o gênero de sua atividade
literária , ou se reconceituar toda a arte poética. E com
ele, todos os de sua escola, os chamados
parnasianos, e os clássicos e os românticos, que
afinal construíram obra poética com o mesmo material.
O poeta é um ser
que pensa, sentindo. Vale dizer, a obra poética tem suas raízes
na emoção , embora caiba a
inteligência o trabalho estético de sua
realização. Um poeta incapaz de sentir, é
como um rio seco, sem água, em terra
adusta. É evidente que a poesia tem servido algumas vezes de
veículo ao pensamento. Há poetas que sentem,
pensando. Ou sentem, porque pensam, ao
contrario dos outros, que pensam, porque sentem.
Um Fernando Pessoa talvez se enquadrasse mais
nesta definição, com sua substancia lírica
adensada por perquirições filosóficas. Mas, de
qualquer modo, o " sentir " e amatéria-
prima do poeta, não " o pensar ". E Bilac
foi um emotivo, um hiper emotivo.
Um poeta do amor, que fez de seu
caso sentimental, a paixão inconclusa
por Amélia de Oliveira, o tema central de
sua poesia. A sua classificação
dentro da escola parnasiana (e ele negava ser parnasiano, apesar de
exaltar a perfeição da forma na composição
do verso )surgiu de sua " profissão de fé
" ( apenas mais um poema ) que na realidade não
cumpriu , nem poderia, com seu temperamento.
Era um espirito dionisíaco. Também fizera "
profissão de fé" na Medicina, depois no
Direito, e abandonara as duas carreiras,
ainda estudante. O
parnasianismo nele fora uma atitude um instantâneo
poético, abrindo o seu livro:
"Inveja o ourives quando escrevo: imito o amor com que ele, em ouro, o alto-relevo faz de uma flor. Imito-o. E, pois, nem de Carrara a pedra firo: o alvo cristal, a pedra rara, o ônix prefiro."
Seus versos não utilizavam o cristal, a
pedra rara, o ônix. Surgiam palpitantes de seiva, estuantes
de vida, e eram perfumados e ardentes como a
carne da mulher entressonhada. Tirando a paixão pela forma, não há
no poeta de "Sarças de fogo " as
características dos parnasianos franceses, que f aziam
praça não apenas de sua rigidez artesanal, mas da frieza,
quase insensibilidade, com que enfocavam os temas de suas obras.
Bilac é, na realidade, um
romântico, ou, se preferirem, e estou concordando com um de seus biógrafos,
Fernando Jorge, um parnasiano com alma romântica. "Um
grande poeta "impassível ",comentaria Ronald de
Carvalho, é um jogo de palavras sem
sentido , uma refinada monstruosidade que só
a nossa logomaquia habitual se compraz em repisar."
Por outro lado, estimularam, com
uma falsa liberdade, a proliferação de
poetóides que se dispuseram a fabricar poesia por inseminação artificial,
autores de verdadeiros mostrengos que desejam impingir como obras geniais, poemas que só
podem ser visitados se levamos cicerones, ou
que exigem pitonisas críticas para serem decifrados.
Parnasiano era o velho
Alberto de Oliveira, amigo de Bilac, um dos irmãos daquela que foi a
sua i nfausta musa. Olavo Bilac acabou incluído na
mesma classificação, pelo apuro e pela elegância do verso.
Seus alexandrinos, perfeitos, com cesuras de ouro , formados
por dois hemistíquios redondos de seis silabas, eram como seu "pince-nez"
irrepreensivelmente colocado sobre o nariz. Mas o temperamento era
o de um romântico, o de um boêmio,
rico de inquietações, de exageros, de
trasbordamentos líricos. Suas cartas conhecidas, dirigidas a
Amélia de Oliveira na fase em que esteve noivo,
revelam-lhe por inteiro a personalidade.
Apenas há que distinguir. Os excessos do velho
romantismo do fim do Século XIX levaram o poeta a enclausurar-se
dentro de si mesmo, a criar apenas com a imaginação, desligando-se das realidades
da vida, desinteressando-se do mundo. O romantismo dos poetas
modernos é libertação , ou fuga. O que vem a ser a mesma
coisa. O encontro com a poesia de Bilac faz bem.
Areja a alma. É uma poesia limpa, nascida de nossas melhores t
radições emotivas, ainda que moldada em formas importadas.
E o poeta continua, por isso mesmo, lido
até hoje. É um poeta moderno , no
sentido de que se comunica com o leitor, com o nosso
tempo. E, curioso, usou a abusou do soneto, como elemento de comunicação. O soneto,
velha forma fixa da poesia, " Fenix " lendária ressurgindo cada dia
das próprias cinzas. Bilac compôs quase 200 sonetos, sendo que na
"Via-Lactea" há 45, e em seu último livro, "Tarde", 98. Na
"Via-Lactea" encontram-se aqueles sonetos feitos a Amélia de Oliveira,
sua noiva, mas cujo casamento não se realizou pela oposição do irmão mais
velho, depois da morte do pai José Mariano de Oliveira. Amélia de Oliveira e
Bilac morreram solteirões. Alimentaram as lembranças
do amor irrealizado durante os anos de
sua vida. Quando Bilac a encontrou, dez anos depois
do rompimento do noivado, fixou sua emoção neste Soneto:
"Depois de tantos anos, frente a frente, um encontro... O fantasma do meu sonho! E, de cabelos brancos, mudamente, quedamos frios, num olhar tristonho.
Velhos! . . . Mas, quando, ansioso, de repente, nas suas mãos as minhas palmas ponho, ressurge a nossa primavera ardente, na terra em bênçãos, sob um sol risonho.
- Felizes, num prestígio, estremecemos; deliramos, na luz que nos invade nos redivivos êxtases supremos;
e fugimos, volvendo à mocidade, aureolados dos beijos que tivemos no milagre divino da saudade."
Puro
romantismo. Mas os anos foram
passando, e Bilac e Amélia poucas oportunidades tiveram
para se rever. Fernando Jorge em sua obra "Vida e Poesia de Bilac"
relata o fato:
"Amélia
de Oliveira, diversas vezes, procurou Gregório da Fonseca (amigo de
Bilac, oficial do Exército ), para ver se este conseguia aproxima-la de Olavo. Ela
afiançava que não havia nenhuma
pretensão amorosa. Os dois estavam
envelhecidos e nada mais natural, portanto, que se vissem como simples amigos da
mocidade. Apesar de tudo, Bilac sempre
se opôs. Mostrava-se recalcitrante. E dizia a Gregório:
- Que diabo de graça
tem agora nós nos encontrarmos? Que diabo vamos dizer um ao outro? Estou velho,
neste estado; ela é hoje uma verdadeira matrona. Eu morreria de ridículo."
E costumava chamar a sua antiga paixão, "a minha viuva."
Bilac poderia ter
escrito, então, um belo soneto de amor, como aquele do poeta
paulista Octávio Rocha jornalista em Campinas, e que parece descrever a
situação. É o seu
"Romance":
- "Venha me ver sem falta, estou velhinha. Iremos recordar nosso passado. A sua mão quero apertar na minha, quero sonhar ternuras a seu lado."
Respondi, pressuroso, numa linha: - "Perdoe-me não ir. . . Ando ocupado." Amei-a tanto, quando foi mocinha, e de tal modo também fui amado.
Passou a mocidade num relance . . . Hoje, estou velho; velha, esta . . . Suponho que perdeu da beleza os vivos traços . . .
Não quero ver morrer nosso romance: - prefiro tê-la jovem, no meu sonho, do que velha, apertá-la nos meus braços!
Quis o
destino, entretanto, que nos momentos finais de sua vida, o
poeta tivesse ao seu lado, aquela que foi o seu
sonho de amor. Ela, praticamente lhe cerrou os olhos, e confeccionou uma pequenina
almofada sobre a qual repousou a cabeça do poeta. Foi a
força deste amor que deu a poesia de Bilac o sopro da eternidade.
( Crônica de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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