"As Seis Faces da Mulher "
Uma vez, numa entrevista,
quiseram saber qual era, para mim,a mulher ideal. Fisicamente? Não, o jornalista queria
saber mais, referia-se ao espírito, a alma, a personalidade. Se a pergunta se
cingisse ao físico, eu não resistiria a tentação de roubar alguns versos
de Vinícius, da sua "Receita de Mulher". Só alguns, esta
claro. Mas acrescentaria outros. Vinícius não se refere, por exemplo, aos cabelos.
E para mim, mais que os, olhos, que os lábios, os
cabelos são um elemento de importância definitiva.
Não emolduram apenas o rosto, os olhos, os lábios, mas toda a
mulher. Dão-lhe um toque de graça especial.
Naturalmente tem que ser leves, finos, soltos, para que o vento brinque de poesia com
eles. Já perguntei num poema: "A visão do teu pescoço branco, velado como um templo, pelo véu de teus cabelos louros, que eu descubro nos delírios de minha fantasia: Ah! não será isto poesia?"
E num outro:
"Gosto de encher as mãos com os teus cabelos como um lavrador a recolher, feliz as louras messes de uma farta colheita."
Não importa, entretanto, a cor,
o tom que apresentem: podem fazer noite, tarde ou manhã,
virem carregados de sombra ou de sol.
" Quando em teus cabelos louros ou negros mergulho o rosto, parece que faz sempre sol-posto que a noite mansamente nos meus olhos desce!"
Importa é
que sejam bastos, esvoaçantes como gazes, como painas, como sonhos.
Em matéria de mulher sou contra qualquer racionamento. Subscreveria,
em que pese a minha vocação socialista, aquele verso de Vinícius:
". . . E que existe um grande latifúndio dorsal."
Também já confessara:
"Gosto de tuas costas (como um arco, flexível) que se alargam em duas luas imensas, geminadas."
Mas estas respostas não serviriam a pergunta do entrevistador.
Qual a mulher ideal, para mim?
Lembro-me de que respondi que ideal é
sempre a mulher que a gente gosta, e que nos compreende. Mas pensei depois no assunto, e nasceu
o poema. A mulher ideal, única, tem seis faces. Seis faces que a
tornam múltipla, e infinita, para a nossa vida,
a nossa ternura, o nosso amor. Na realidade,
há todas as mulheres, na mulher que a gente ama. Disse isto no poema:
" As Seis Faces... "
Quando te encontro e observo que ficaste mais linda e soltaste os cabelos para me agradar, e me entregas os lábios num beijo leve e morno como a aragem, e tranças os teus dedos em meus dedos, e me olhas como no dia em que te tirei para dançar pela primeira vez, é que percebo que continuas a namorada.
Quando te preocupas com o tempo porque vou sair, e recomendas detalhes como se me visse criança, e repreendes a minha falta depois que as visitas se foram, e endireitas a minha gravata, e escolhes a minha camisa, e me fazes trocar os sapatos que não combinam;
quando surpreende o meu cansaço, e me enlaças, e recosta a minha cabeça em teu colo, e me dás conselhos como se eu pudesse segui-los, é que descubro que há em ti, para mim, até mesmo um pouco de mãe.
Quando te consomes muito mais com as minhas preocupações e advinhas meus pensamentos, me prevines contra falsos amigos, e te empenhas em partilhar também minha luta;
e economizas, como se com isso poupasses minhas forças, e, sem querer, com uma palavra, desvendas uma solução tão próxima e tão evidente, mas que meus olhos não percebiam; quando à noite , na sombra, sem tocarmos os corpos, conversamos, esquecidos, como dois amigos numa encruzilhada, é que compreendo que tu és a companheira.
Quando chego, e ao abrir a porta, estás à espera com tua felicidade que me envolve e me aconchega, e tirar da minha mão a pesada pasta de couro, e me entregas os lábios (úmidos e trêmulos);
quando te encontro depois, em todos os detalhes cotidianos e prosaicos, que fazem o melhor da vida: minha toalha de banho no lugar; meus chinelos no seu canto; minha roupa limpa sobre a cama; aquela jarra com flores arrumada; aquela mesa posta, com seus talheres brilhando; aquele odor de refeição que é o perfume do lar; quando te vejo, leve e diligente, a circular pela casa que consideras teu Reino, teu Mundo, teu Universo; sei que tu és então a esposa.
Quando à noite, de tarde, ou de manhã, (é um momento imprevisto e nunca marcado) sinto que precisas de mim, que te faço falta, como do ar, ou da água, de alimento, ou de vida, e te encontro ao meu lado sempre irrevelada, e te dispo, e se desencontraram as mãos e nossos corpos e subitamente nos jogamos, como banhistas contra o mar, contra as ondas, o mar desconhecido as ondas que afogam e arrastam, e de súbito estamos salvos na areia, como náufragos, és a amante.
Quando te encontro ao meu lado, deitada numa nuvem a acompanhar outras nuvens preguiçosas e itinenrantes no céu do coração;
quando te pões a falar como crianças nas brincadeiras em diminutivos, em faz-de-contas de pura imaginação, e de ti restou apenas o contato dos nossos corpos, que permaneceu em nós entretanto distante, imaterial, a planar como aquela gaivota na vaga luz da tarde que se esvai; quando estirados na areia, cansados, mas felizes, já podemos conversar, eu diria nesta hora que tu és simplesmente a irmã.
Quando penso em ti, e te sei tantas, no milagre da multiplicação do amor, recolho-me a ti, como pássaro às ramagens, onde encontra a sombra, o ninho, o balanço, o fruto, - o impulso para o vôo.
E amo, e trabalho, e sonho, e canto.
( Crônicas de JG de
Araujo Jorge extraído do livro " No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969 )
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