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"Naufrágio"

Estou burguês, estou cansado, estou aflito,
vou morrendo, sem socorro, inconsciente,
como um marinheiro bêbedo.

Miserável regime que no primeiro porto
me fez levar minha alma ao mercado e oferece-la
em troca de uma passagem de volta.

Por que essa ansiedade de voltar, de chegar ao porto
da segurança e da fartura
se não há ninguém no cais, nem mesmo uma beleza a acenar?
Por que esta oferenda mercenária se morrerei
como um saco vazio no dique?

Estou cansado, sem recursos, soçobrando
como um barco cheio de ouro.

(Poesia de J.G.  de Araújo Jorge, extraída
do livro " Mensagem" - 1966)

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