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"História do
Grande Erro"
Meu avô troglodita
esperou pacientemente mais de um milhão de anos
até aprender a fabricar, na terra, o fogo dos céus,
e descer das árvores para as cavernas.
Um dia, quando meu avô troglodita
descansava à sombra de uma árvore
(teve um estalo na cabeça, igual ao do padre Vieira)
e descobriu que aquele caroço da fruta que comera
lançado ao chão, produzia outra árvore igual
que daria frutos iguais, em profusão.
Foi a primeira e a mais importante Reforma Agrária
de todos os tempos ...
Meu avô das cavernas, não precisava mais andar à cata
de frutos pelo mato, feito índio,
domesticara as árvores, colocara-as ao alcance de sua fome.
Foi nesta época também que arrebanhou os animais, e então
não precisava também
ir caçá-los nas florestas,
guardava-os em cercados, à sua volta.
Meu avô pré-histórico deixou então a caverna. Aprendera
[sozinho
a fazer sua casa - sobre lagos, rios e montes -
e em torno dela - as colheitas se multiplicaram
e o couro, e a carne, e o leite, e o chifre,.
Meu avô homo-sapiens
abandonou seu boêmio nomadismo, e ao encontrar seus inimigos
porque continuou guerreiro,
inventou uma nova guerra - a guerra defensiva -
enfrentando os que lhe vinham disputar os frutos e os peixes.
Agora, ele criara raízes no chão
plantara sua casa
e ficava de guarda:
- o chão era seu. (Sua guerra era ali).
Meu avô patriota.
Desde esse dia, meu avô pré-histórico
cometeu o grande erro milenar da História:
confundiu o seu direito natural aos frutos das árvores que
[plantou
com o ilegítimo direito sobre a terra onde plantou as árvores
que lhe davam os frutos.
No tempo de meu avô - proprietário -
o mundo era de muitas terras e poucos homens:
dava pra todos,
Amanhã
no tempo de meu neto - socialista -
num mundo de poucas terras e muitos homens,
os homens compreenderão o erro de meu avô troglodita
e o corrigirão.
A terra de Deus e do homem
será libertada
para que todos sejam livres,
não será patrimônio,
não será herança,
não será de ninguém;
será a água e o fruto, de onde todos se beberão,
ou poderão colher,
e o pó, onde todos se dissolverão.
- Amém! (Poesia de J.G. de Araújo Jorge, extraída
do livro " Mensagem" - 1966)
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