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"E Agora, Vamos"
Irmão, quando a luz se apagar e a sombra espessa
escorrer em teu olhos
e se entranhar em teu pensamento,
quando ao redor não vires nada, como se estivesse
perdido no imenso mar
nem encontrares pé em ti mesmo para novo esforço,
para nova ascensão,
procura-me e te darei um verso.
Te darei um verso, como quem parte um pedaço de pão,
como quem serve um copo de água,
como quem abre uma janela para o pulmão.
Que fazer, se teremos que recomeçar, se tudo depende de nós?
Que fazer, se nossos filhos nos perguntarão pelo bastão
e nos estenderão as mãos como corredores de revezamento?
Vamos irmão. Bem sei que hoje a cegueira está em teus olhos,
teu coração parou, e teu pensamento
caiu e se enterrou, como um dardo no chão. Já não oscila.
Mas toma um gole de ar, ouve esta nota de força,
olha os que continuam apesar de tudo
e compreende que levas o tempo e revezarás com o futuro.
Que meu verso seja a massagem violenta em teu desalento
[justificável,
minha palavra uma alavanca para o teu mundo
minha música, um ritmo para um novo passo.
Sim, tudo recomeçará, terá que recomeçar.
Para trás haverá apenas o espectro
dos que se desconheceram e renegaram, dos que aderiram e se
[confundiram,
os fracos, os covardes.
Ou dos que caíram. Descubramo-nos irmão.
E agora, vamos. Não é ninguém. É o mundo. somos nós mesmos.
(Poesia de J.G. de Araújo
Jorge, extraída
do livro " Mensagem" - 1966)
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