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"Desculpa, Hermano"


Ai, conheço bem teu inimigo
esse mesmo que temos por aqui
sócio no sangue e no açúcar.

NICOLÁS GUILLÉN
Canção porto-riquenha


Desculpa, hermano
dominicano.

Em nome do meu povo, irmão pequenino,
desculpa nossa vergonha, nossa humilhação,
a involuntária afronta.

Não sei se sabes que somos um país grande
pela geografia e pelo coração,
o país das lutas contra a tirania e o fascismo,
(Rosas, Lopes, Mussolíni, Hitler)
da arbitragem, da paz, da confraternização.

Quando leio que teus bares e cafés se esvaziam
quando entra um homem fardado da OEA
acredita:
tenho pena de não estar com o teu povo em torno a uma mesa
para levantar-me e sair também.

Não confundas, irmão: não é um soldado brasileiro
da FEB
que lutou contra o fascismo,
é apenas um pobre homem fardado, convocado, mandado
por tenentes, capitães, majores, coronéis, generais,
marechais,
mandado por quem mais?

Desculpa, irmão: a isto se chama
ainda, América Latina.

Tu bem sabes. Conheceste Trujillo. Ouviste falar
de Somoza, de Batista, de Jimenez,
há mil formas diferentes do teu Trujillo
crescendo - erva maldita - por essa indefesa América Latina,
cultivada por tio Sam.

Desculpa nossa vergonha, a nossa humilhação
no sofrimento da tua.
Um dia (ah! resta sempre a esperança!) Um dia
estaremos livres dos Trujillos
e de tio Sam
e nos daremos as mãos,

e nos sentaremos à mesma mesa dos cafés e dos bares
para um trago de rum ou de aguardente,
para conversarmos sobre amanhã
e nos chamarmos irmãos.


(Poesia de J.G.  de Araújo Jorge, extraída
do livro " Mensagem" - 1966)


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